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Correio Braziliense

Com nova Previdência, maiores de 50 entram no radar de seleções especiais

Com expectativa de trabalhar até mais tarde por conta da reforma da Previdência, brasileiros com mais de 50 anos entram no radar e passam a fazer parte de programas especiais de recrutamento e seleção


postado em 19/07/2019 06:00 / atualizado em 19/07/2019 10:53

''É comprovado que empresas que investem em diversidade, inclusive de gerações, ganha eficiência e dinamismo em um mercado de consumo cada vez mais plural,'' Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half (foto: Divulgação )
''É comprovado que empresas que investem em diversidade, inclusive de gerações, ganha eficiência e dinamismo em um mercado de consumo cada vez mais plural,'' Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half (foto: Divulgação )
 

São Paulo – Assim que os debates em torno da reforma da Previdência começaram a ganhar corpo, no fim do ano passado, a empresa brasileira de consórcios Embracon estabeleceu uma nova política de recursos humanos. Como grande parte da população precisará trabalhar por mais tempo, a companhia passou a priorizar vagas de emprego para quem tem mais de 50 anos, em vez de garimpar o mercado apenas em busca de jovens talentos. 

Chamado de Embracon 50+, o programa atinge todos os departamentos da companhia. Com isso, dos cerca de 3 mil funcionários,  perto de 250 têm 50 anos ou mais – e a meta é triplicar esse número até o fim  deste ano. Do total, 25% ocupam cargos de liderança em média e alta gerência. Os 75% restantes preenchem ocupações variadas.

''Esse mercado é promissor. Muitas empresas começam a pensar nisso e a testar o mix de gerações, colhendo bons frutos com essa atitude,'' Mórris Litvak, fundador da MaturiJobs, plataforma que conecta pessoas acima de 50 anos com oportunidade de trabalho (foto: Divulgação )
''Esse mercado é promissor. Muitas empresas começam a pensar nisso e a testar o mix de gerações, colhendo bons frutos com essa atitude,'' Mórris Litvak, fundador da MaturiJobs, plataforma que conecta pessoas acima de 50 anos com oportunidade de trabalho (foto: Divulgação )
 

“Os profissionais mais experientes são menos imediatistas do que os mais jovens”, justifica Gisele Maziero, analista de bem-estar da Embracon. “A geração com mais de 50 anos chega com experiência, além de muita paciência, especialmente em vendas.”

A boa reputação dos trabalhadores sêniores está expressa em um estudo elaborado pela consultoria de recrutamento Robert Half. O levantamento constatou que os executivos de grandes companhias avaliam positivamente o intercâmbio de experiências entre diferentes gerações. Na pesquisa, 77% disseram que as diferentes visões sobre o mesmo assunto são benéficas para a empresa. Novas ideias, qualidade do serviço e inovação também foram apontadas como resultado dessa integração.

O levantamento mostra ainda que 91% das contratantes preferem trabalhadores mais velhos, principalmente para setores administrativos, que demandam bons currículos em atividades rotineiras. Apesar da simpatia por essa faixa etária, 80% delas responderam que não adotam programas específicos para idades mais avançadas.

Essa avaliação apontada pela pesquisa já se reflete na rotina de algumas empresas. Assim como a Embracon, a Atento, uma das líderes do setor de call center, mantém uma estratégia de diversidade no quadro de funcionários que inclui vagas de emprego para maiores de 50. Já o Grupo Pão de Açúcar (GPA) mantém política interna que busca promover a inclusão social e a qualificação profissional de jovens e de pessoas com mais de 55 anos, como forma de equilibrar as qualidades e as diferentes visões de mundo dentro da companhia.

O grupo Cencosud Brasil, a quarta maior rede de varejo supermercadista do Brasil, contrata cerca de 700 pessoas com mais de 50 anos por ano, desde 2017, por meio de um processo seletivo exclusivo. A Gol Linhas Aéreas também tem incentivado a contratação por meio do programa “Experiência na Bagagem”.

O mesmo caminho tem seguido a gigante brasileira de tecnologia Totvs. “É comprovado que empresas que investem em diversidade, inclusive de gerações, ganha eficiência e dinamismo em um mercado de consumo cada vez mais plural”, afirma Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half. “Além disso, o mercado de trabalho não está absorvendo os mais jovens”, acrescenta o economista Laércio Menezes, especialista do Insper. 

Avanços 

Na avaliação de Jorgete Lemos, diretora de diversidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil), o mercado de trabalho tem mudado sua postura em relação à contratação de pessoas acima dos 50 anos. Segundo ela, as empresas não teriam talentos suficientes para dar continuidade aos negócios sem essa mudança de visão. “A abertura de vagas para pessoas mais velhas ainda não é uma regra estabelecida, mas algumas empresas já avançaram, criando programas específicos para a contratação desses profissionais”, afirma.

A executiva destaca ainda que, atualmente, as pessoas ainda estão em plenas condições para trabalhar nessa faixa etária. “Além da experiência e da responsabilidade características da maturidade, os mais velhos costumam ser ter maior resiliência e oferecem melhor capacidade de negociação. Por isso, podem ser peças-chave em qualquer equipe de trabalho.”

A diretora da ABRH-Brasil confirma que, aos que desejam uma vaga no mercado de trabalho, é preciso agir como qualquer outro candidato. “Fazer um currículo atrativo, sem menosprezar suas experiências e capacidades. Usar os canais de relacionamento para cultivar uma rede e investir em uma ótima apresentação, vendendo sua imagem como profissional capacitado, sem dramatizar ou se rebaixar pela idade.”

Gradualmente, a maioria das empresas começa a descobrir que vale a pena contratar candidatos acima de 50 anos. E isso tende a ser algo natural conforme a força de trabalho segue envelhecendo com mais qualidade. 

Idosos crescem entre os  que procuram uma vaga 

 

Os números comprovam que a participação dos mais experientes está avançando de forma consistente. De acordo com uma pesquisa do Datafolha, pessoas que pertencem a uma faixa etária mais avançada estão procurando emprego com mais frequência. Entre 2007 e 2017, a busca por trabalho entre brasileiros com 60 anos ou mais saltou de 20% para 26%. Com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), a presença dos profissionais com idade entre 50 e 64 anos no mercado formal também aumentou: foi de 10,5% para 16,5% do total de contratados. A situação é um pouco mais difícil para quem passou dos 65 anos. Segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) com a consultoria PWC, pessoas com essa faixa etária representam apenas 1% do quadro de colaboradores das empresas brasileiras. Ainda segundo esse levantamento, os empregadores acreditam que 69% dos profissionais que estão na terceira idade não se adaptam facilmente às mudanças e 63% são considerados “acomodados”, pelo fato de a aposentadoria estar chegando.

 

Comunidade 

Diante dessa nova realidade brasileira, algumas inovações estão ajudando. É o caso do MaturiJobs, criado pelo empresário Mórris Litvak, uma plataforma que conecta pessoas acima de 50 anos com oportunidade de trabalho. A ideia é oferecer possibilidades para pessoas que têm dificuldades nessa procura, devido à faixa etária. As empresas interessadas buscam os candidatos diretamente na plataforma.

 

Um dos diferenciais da plataforma é a sua intenção de formar uma comunidade, com profissionais e empresas abertas a repensar o mercado de trabalho para pessoas acima dos 50 anos. “Esse mercado é promissor. Muitas empresas começam a pensar nisso e a testar o mix de gerações, colhendo bons frutos com essa atitude”, afirma Litvak. A plataforma tem cerca de 80 mil pessoas cadastradas; 750 empresas estão inscritas no site.


Força de trabalho

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, realizada no ano passado, apontou que o número de idosos com 60 anos no Brasil cresceu 18% em cinco anos, superando a marca de 30 milhões de pessoas em 2017, sendo a maioria (56%) de mulheres. Em 10 anos, a proporção de adultos entre 30 a 59 anos aumentou 4,8 pontos percentuais. Estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) confirma que a população idosa no mundo está crescendo, podendo chegar até 2050 a 2 bilhões de pessoas, quase três vezes mais o que existe hoje. 

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