Economia

Taxa de investimento do país é a mais baixa dos últimos 50 anos

Falta de confiança dos empresários e caixa baixo do setor público derrubaram o indicador que mede a alocação de recursos para aquisição de máquina e equipamentos e para construção civil e inovação ao menor nível em 50 anos: 15,5% do PIB

Rosana Hessel, Hamilton Ferrari
postado em 20/07/2019 06:00
Homem coloca cifrão dentro do bolso do seu paletóA taxa de investimento no Brasil está no menor nível em mais de 50 anos, de acordo com estudo feito pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Por causa da falta de confiança e das contas públicas no vermelho, os recursos não são aplicados para melhorar o quadro econômico atual. De acordo com analistas, o avanço da reforma da Previdência na Câmara evita que o país piore, mas não resolve.

A pesquisa foi feita com base nos dados da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mede alocação de recursos para a aquisição de máquinas e equipamentos, além de destinar dinheiro para a construção civil a e inovação. No primeiro trimestre do ano, o índice marcou 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB), frente 15,8% no trimestre anterior. De acordo com a FGV, é a menor taxa desde 1965, quando atingiu 14,71% do PIB.

Segundo o economista Marcel Balassiano, pesquisador sênior da FGV-Ibre, por conta da recessão, os níveis de investimento tombaram para patamares extremamente insatisfatórios, o que limita o crescimento econômico. De 2011 para 2019, por exemplo, a média da taxa ficou em 18% do PIB. ;A primeira parte da década estava razoável e depois da crise veio caindo até 2017. A recessão foi muito forte. A recuperação está bastante lenta e até hoje não conseguimos ver um movimento mais forte de aplicação de recursos;, afirmou.

A falta de confiança para investimentos de longo prazo é um dos principais motivos para empresários e agentes internacionais represarem alocação de recursos no país. Admitida em 2013, as crises financeira e fiscal fizeram com que o FBCF tombasse por quatro anos consecutivos. ;Entre 2011 e 2018, quase 90% dos países tiveram índices maiores do que o Brasil;, comparou Balassiano.

Do lado fiscal, os recursos públicos destinados a investimentos caíram. O país está com rombo nas contas desde 2014 e viu a dívida pública disparar e se aproximar de 80% do PIB. Há estimativas de analistas de mercado que apontam que o país só voltará a ter superavit em 2023 ou 2024.Outro levantamento feito pela FGV mostrou que de 2013 para 2017, os investimentos com recursos públicos recuaram de 4,06% do PIB para 1,85%. O índice registrado no último ano foi o mais baixo da série histórica. Em 2018, houve uma leve reação e subiu para 2,43%, mas ainda está longe do patamar de 2010, quando alcançou 4,56%. Ou seja, a importância do setor privado passou a ser ainda maior.

Economistas apontam que a aprovação da reforma da Previdência é fundamental para evitar a piora do cenário de deterioração. Passada em primeiro turno no plenário da Câmara dos Deputados, os empresários começam a se movimentar para o investir, mas, de acordo com analistas, ainda há uma série de medidas necessárias para a retomada das aplicações.

Balassiano afirmou que é preciso aumentar a confiança na economia, e a reforma da Previdência é o primeiro passo para isso. ;É uma medida que precisamos fazer para parar de piorar, mas ainda temos uma ampla agenda para melhorar o ambiente de negócios, reforma tributária e privatizações para que o setor privado ocupe o espaço do setor público, que está quase quebrado;, declarou. O Tesouro Nacional já admitiu que, até o fim do mandato do governo Jair Bolsonaro, o Brasil não vai recuperar a capacidade de investimentos.

Distorção


Pelas contas da Silvia Matos, pesquisadora sênior e coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), a taxa de investimento deve crescer apenas 1% neste ano, descontando do efeito contábil das importações de plataformas antigas da Petrobras, que estão sendo registradas desde o ano passado e, com isso, distorcendo os dados do PIB. ;Na prática, o investimento cresceu 4% no ano passado, mas, sem as plataformas, esse dado cai para 2%. E, neste ano, o aumento seria de 2% se considerarmos essas importações contábeis. Portanto, o dado é positivo porque estamos vindo de uma base muito ruim;, afirmou.

O economista Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú Unibanco, também está prevendo alta de 2% nos investimentos este ano, mas reconhece que esse dado inclui as plataformas. ;O investimento encolheu mais de 30% durante a recessão, portanto, crescer apenas 2%, mesmo com o dado inflado, é muito pouco para afirmarmos que o quadro está melhorando. Ainda é necessário que a agenda pós-reforma da Previdência avance com mais clareza para que o empresário e o empreendedor recupere a confiança na retomada da economia e volte a investir no país;, afirmou.

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