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Correio Braziliense

Economistas veem PIB estagnado e apontam risco de nova recessão

Em meio às frustrações com o avanço das reformas e da agenda do governo para recuperar a confiança, o PIB está estagnado para a maioria dos economistas. Alguns veem o risco de nova recessão. Para evitar piora, crescem apostas de queda dos juros


postado em 22/07/2019 06:00 / atualizado em 22/07/2019 11:01

(foto: Arte/CB/D.A Press)
(foto: Arte/CB/D.A Press)
As expectativas otimistas do mercado no início do ano foram dissipadas mês a mês. A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n° 6, que trata da reforma da Previdência, no primeiro turno no plenário da Câmara ajudou a melhorar levemente as previsões, mas o risco de o país entrar novamente em uma recessão ainda existe. Essa análise não chega a ser um consenso entre os economistas ouvidos pelo Correio, todavia, não pode ser ignorada depois do tombo de 0,2% no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2019. As previsões para o PIB de abril a junho variam entre recuo de 0,1% e alta de 0,4%.  Entre eles, há uma certeza: a economia parou. Logo, crescem as apostas de que o Banco Central inicie neste mês um ciclo de corte na taxa básica da economia (Selic), em meio à queda das taxas futuras. 

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) ocorre nos próximos dias 30 e 31. No último encontro, o Banco Central enfatizou que a reforma da Previdência é primordial para uma possível flexibilização da política monetária. De acordo com os analistas, o corte na Selic deve ser de 0,25 ponto percentual, passando de 6,5% para 6,25% ao ano, o que seria um novo piso histórico em meio à queda da inadimplência neste ano, mas que não se reflete o mesmo ritmo de queda do crédito na praça. Parte dos agentes, como o Itaú Unibanco, acredita que a Selic poderá ir para 6% anuais no início de agosto, chegando a 5% no fim do ano. Se esse ritmo de queda continuar, a velha poupança (com depósitos realizados até 3 de maio de 2012), que rende 6,17% ao ano, que será imbatível em relação às demais aplicações de renda fixa.

Riscos 


As projeções do mercado para o PIB deste ano caem há 20 semanas e a mediana atual, de 0,81%, está abaixo da alta de 1,1% registrada nos dois últimos anos, o que indica desaceleração. No início do ano, era 2,53%. Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica Investimentos prevê crescimento de 0,5% neste ano e não descarta o risco de recessão. “Os dados de abril e maio não mostram uma reação da indústria, de serviços e do comércio. Os indicadores de junho não foram todos divulgados e poderemos ter dados ruins. Não é preciso fazer muito esforço para que o PIB do segundo trimestre venha negativo e o país volte a uma recessão técnica (quando há queda em dois trimestres consecutivos).”

André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, calcula queda de 0,1% para o PIB de abril a junho e também não descarta o risco de recessão. Ele manteve a projeção de alta de 0,5% no ano, mesmo com a sinalização de que o governo pretende fazer uma nova rodada de liberação de saques do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), medida que ainda não está bem detalhada pelo Executivo. Para os analistas ouvidos pelo Correio, o impacto dessa medida que visa estimular o consumo deve ser pequena, de 0,1 a 0,2 ponto percentual no PIB deste ano.

A economia mais fraca evita pressões inflacionárias, deixando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) abaixo da meta, de 4,25% anuais. No acumulado em 12 meses até junho, o principal indicador da inflação oficial ficou em 3,4%. Com essa conjuntura, o mercado acredita que há espaço para o BC afrouxar os juros a fim de ajudar no estímulo da atividade. A aprovação parcial da reforma da Previdência tem afastado alguns riscos fiscais, apesar de ainda não haver um consenso sobre a verdadeira economia em 10 anos da proposta que precisará ser votada novamente pela Câmara após o recesso parlamentar. O governo fala em R$ 933 bilhões no novo texto. O Itaú Unibanco calcula um impacto de R$ 865 bilhões. A Instituição Fiscal Independente (IFI) estimava R$ 744 bilhões, antes dos votos do plenário.
 
(foto: Arte/CB/D.A Press)
(foto: Arte/CB/D.A Press)
 

“Os dados que temos visto mostram alguma recuperação recente em alguns indicadores, mas é um pouco precipitado falar em recessão. O cenário é mais de uma estagnação, de um fraco crescimento, o que é muito sério”, avalia a economista Silvia Matos, pesquisadora sênior e coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), que está entre os mais otimistas e ainda não revisou as projeções, esperando alta de 0,4% do PIB do segundo trimestre e de 1,2% no ano. Ela está entre os que ainda acreditam que BC continuará sendo cauteloso e vai deixar o corte para setembro. Perfeito, da Necton, acredita que a redução será de 0,25 ponto percentual. “Se tivermos um problema mais sério, tanto político ou de inflação, podemos ver a curva de juros explodir. É preferível ir devagar, até porque o governo ainda tem uma série de desafios”, avisa.

A economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, considera que ainda não é certo que o Brasil terá queda do PIB no segundo trimestre. “Ainda não temos todos os dados para fechar a projeção, mas acho que a chance não é muito alta de recessão técnica”, alega. Sobre a expectativa de crescimento para o ano, ela ressaltou que o efeito do FGTS poderá ajudar que o PIB cresça acima de 0,8%. “Mas depende muito do montante que será sacado esse ano. Acho que dessa vez, as famílias irão também usar os recursos para diminuir dívidas, mas o impacto no consumo pode ser maior porque as famílias estão menos comprometidas na sua renda com o serviço da dívida”, afirma. Ela lembra que só a reforma da Previdência não vai fazer a economia ter uma expansão mais forte. “Para crescermos mais com sustentabilidade, precisamos avançar com reformas, abertura comercial, privatizações e menos intervenção governamental nas mais diversas áreas”, argumenta. Ela ainda alerta para os riscos de inflação a médio prazo e lembra que o mercado já está pessimista nas projeções do ano que vem. “Não acho que a Previdência seja a solução para o crescimento, mas ela ajuda”, frisa.

"As expectativas têm piorado ao ver que o presidente não tem um norte. Não é espantoso em não vermos uma recuperação forte na economia e, muito menos, uma taxa de desemprego e uma capacidade ociosa da indústria gigantescas”
Simão Davi Silber, economista e professor da Universidade de São Paulo

Incerteza gera perdas

 

Em meio às incertezas sobre a agenda econômica do governo, os investidores continuam em compasso de espera e o Produto Interno Bruto (PIB) encolhe. Um estudo da Tendências Consultoria mostra bem o impacto da falta de confiança na economia desde os anos 2000. “Podemos constatar que, ao longo dos anos, toda vez que a incerteza aumentou, o PIB do país encolheu. Apenas no ano passado, quando havia muita oscilação das expectativas em meio às eleições, a perda de riqueza chegou a R$ 40 bilhões, pelas contas. Isso quer dizer que o nosso PIB poderia ter crescido 1,7% em vez de apenas 1,1%”, explica o analista Lucas Souza, um dos autores da pesquisa.

Pelas contas de Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), neste ano, devido à falta de confinça, esse indicador essencial para a retomada do crescimento sustentável vai crescer 1% neste ano, descontando a poluição contábil das importações de plataformas antigas. Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco, também reconhece que o investimento está muito fraco. “Muitas empresas ainda estão esperando um momento de maior certeza para implementar qualquer plano de investimento”, explica.

Na avaliação de Newton Rosa, da Sul América Investimentos, a melhora no ritmo de recuperação da economia, daqui para frente, dependerá da melhor articulação do governo nas medidas pós-reforma da Previdência. “Se o governo destravar a agenda de reformas estruturantes, como a tributária, e andar com o programa de privatizações e de concessões, pode ser que ocorra um ganho de confiança que poderá dar maior dinamismo no segundo semestre”, pontua.

O economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, destaca que o governo tem poucos instrumentos para estimular a economia: a liberação do FGTS e o corte de juros. No caso dos juros, o impacto não será imediato (até seis meses) na atividade. No entanto, o corte em si ajudará a recuperar a confiança. “Mas o cenário internacional não está favorável, pois a Argentina, que é um dos principais parceiros comerciais do Brasil, está em situação bastante crítica e isso também afeta a confiança”, alerta.

Especialistas criticam o fato de o presidente Jair Bolsonaro continuar perdendo muito tempo com a agenda de costumes em vez de dedicar nos trabalhos para a retomada do crescimento e na diminuição do desemprego. “Temos 13 milhões de desempregados, 28 milhões de trabalhadores subutilizados. Isso é uma tragédia social”, lamenta o economista Simão Davi Silber, professor sênior da Faculdade de Administração e Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP).  “As expectativas têm piorado ao ver que o presidente não tem um norte. Não é espantoso em não vermos uma recuperação forte na economia e, muito menos, uma taxa de desemprego e uma capacidade ociosa da indústria gigantescas”, acrescenta, lembrando que o quadro poderia ser pior sem o teto de gastos.  

 

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