Economia

Brasil se tornou uma nação de inadimplentes

São mais de 63,2 milhões de pessoas com contas atrasadas

postado em 13/08/2019 06:00
Se as pessoas que têm dívidas em atraso no Brasil formassem um país, haveria uma nação maior do que a Colômbia e quase o dobro do Peru. O país de inadimplentes brasileiros seria maior do que a população de quase todos os países da América Latina. Enquanto cerca de 63,2 milhões de pessoas vivem com contas atrasadas no Brasil, a população colombiana, por exemplo, é de 50,2 milhões de pessoas. O país imaginário só não seria maior do que o México, que tem 134,3 milhões de habitantes. Os dados são do professor do Insper Ricardo Rocha.

O especialista utiliza as informações para abordar a troca de foco da educação financeira no Brasil. Na opinião de Rocha, é preciso olhar com atenção para todos os indivíduos, sobretudo os de mais baixa renda. ;O crédito é fundamental na gestão das finanças pessoais e, de maneira correta, ajuda as famílias a construírem patrimônio. Então, é preciso gastar um pouco mais de tempo ensinando as pessoas a refletirem sobre o crédito, e não só sobre investimentos. A gente bate muito em cima de investimentos quando se tem uma população de 63 milhões de negativados. Não há sentido;, afirma.

Compras

Rocha acredita que, dentro dos 63 milhões de endividados, há pessoas que têm condições para se organizar e sair do negativo. ;Acho que o brasileiro se incluiu na questão do consumo via crédito, mas não foi educado para se planejar. É preciso ensinar que desejo e necessidade não são a mesma coisa;, diz. Um levantamento feito recentemente pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) mostra que um percentual relevante de inadimplentes deve quantias que não chegam a quatro dígitos.

A cada 10 consumidores que começaram o mês de agosto com dívidas, quatro (37%) devem até R$ 500. Mais: 53% dos brasileiros têm dívidas que não superam R$ 1 mil, 20% devem valores entre R$ 1.000 e R$ 2.500 e 16% registram débitos entre R$ 2.500 e R$ 7.500. A pesquisa revela que o número de consumidores com contas atrasadas subiu 1,73% em julho ante o mesmo mês do ano passado.

Uma das soluções sugeridas por Rocha para mudar esse quadro é a mudança dos nomes de algumas linhas de crédito, como o cheque especial. ;Acredito que a mudança do nome para crédito emergencial causaria um grande impacto na hora do indivíduo utilizar esse recurso. É bom que se possa contar com isso, mas tem que ser usado com cautela;, explica.

Foco errado

Para o professor do Insper, os programas de educação financeira cresceram muito nos últimos 20 anos, mas ainda tratam de maneira privilegiada o ensino da poupança. ;Os programas deveriam trabalhar mais a questão de como se comportar ao contratar crédito e se perguntar por que contratar;, alerta. Segundo ele, o crédito é visto como vilão, mas o que prejudica os cidadãos é a má utilização dele. ;O crédito faz parte da nossa cultura. Para comprar um veículo ou um imóvel, por exemplo, ele é uma saída interessante;, ressalta.

Ele lembra que o crédito é um produto como qualquer outro e, por isso, é preciso trabalhar o consumo dele. ;Na hora em que o consumidor vai às compras, a primeira coisa que ele faz é pesquisar os preços. O próprio site do Banco Central mostra que existem diferenças significativas entre as taxas das instituições. As pessoas têm que adquirir o hábito de pesquisar isso também;, aconselha.

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