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Correio Braziliense

Vice-presidente financeiro da Azul sobre Avianca: 'Estrutura maquiavélica'

Após autorização para operar no trecho Congonhas-Santos Dumont, um dos mais rentáveis do mundo, executivo da Azul conta detalhes da negociação entre as duas companhias aéreas


postado em 16/08/2019 06:00

(foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
(foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
São Paulo – A Azul comemorou a notícia sobre o início de suas operações na ponte aérea. A confirmação foi feita pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Afinal, o trecho Congonhas-Santos Dumont é dos mais rentáveis do mundo e o principal cartão de visitas para qualquer companhia aérea brasileira por conta da alta visibilidade que dá aos negócios. Mas até chegar a esse dia o caminho foi bem longo.

Quem conta é Alex Malfitani, vice-presidente financeiro da Azul. A empresa vai passar a operar 34 slots – 15 herdados da Avianca Brasil e 19 realocados de voos de Porto Alegre e Curitiba. Outros slots para a pista principal de Congonhas foram distribuídos pela Anac para a Passaredo (14) e MAP (12), além de 14 slots da pista auxiliar para a Two Flex. Mas antes de garantir esses trechos, a Azul tentou negociar para comprar parte da operação da Avianca.

Para Malfitani, o negócio não deu certo por causa do principal credor, o fundo Elliot, que se recusou a aceitar que a prioridade do pagamento fosse dada aos direitos trabalhistas e se colocou como primeiro na fila de quem tinha direito a receber.

“Acompanhávamos os rumores sobre a Avianca, depois fomos procurados para conversar. Desde o começo, sabíamos que se tratava de um grande ativo por causa das posições não só em Congonhas, mas também em Guarulhos e no Santos Dumont. Por outro lado, sabíamos que seria uma empresa em dificuldades financeiras, com alguns passivos até difíceis de quantificar”, relata o diretor.

Deterioração 

A Avianca foi dividida em partes, as UPIs (unidades produtivas individuais). Num primeiro momento, a Azul considerou que ali estava um bom desenho de negócio, já que ficaria mais claro o que estava sendo ofertado. A companhia fez uma oferta de US$ 105 milhões por parte do ativo e calculou que desembolsaria outros US$ 130 milhões para realocar todos os passageiros e pagar rescisão de funcionários da Avianca. Seria preciso demiti-los e contratá-los por um novo CNPJ. Havia uma preocupação com a situação da empresa, que se deteriorava. Não havia tempo para uma due diligente em seus números. “Mas com a UPI, a empresa viria limpa. Ela estava queimando caixa e com o tempo o dinheiro seria todo gasto. Havia pressa”, conta.

Nesse momento, relata Malfitani, o Elliot fez as contas e disse que se as rescisões fossem pagas não sobraria muito dinheiro para o fundo. Eles pressionaram por mais dinheiro para os credores e disse que não funcionaria para eles aquela proposta. Dissemos que estavam livres para buscar outra solução. Foi quando conversaram com a Gol e a Latam, mas o Cade já havia informado que as duas não poderiam aumentar seus slots porque já tinham uma participação brutal.”

Maior credor da Avianca, o “Elliot Management é um fundo abutre americano fundado por Paul Elliott Singer e que detém grande parte da dívida não paga pela Argentina nos anos 1990”. Além disso, tem na carteira o clube italiano de futebol Milan, comprado do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

Para Malfitani, apesar de a Gol e Latam negarem que estivessem conversando com o Elliot, ambas sabiam das negociações da outra. “Na divisão da Azul, elas antecipariam dinheiro para o Elliot. Isso seria um dano moral causado por um fundo que praticamente quebrou a Argentina. Quando se optou por leiloar as UPIs da Avianca, aquilo era um leilão de cartas marcadas, um processo que não fazia sentido”, acusa o executivo.

O leilão só teve como interessados Gol e Latam. Outras companhias que chegaram a ter seus nomes especulados, como Passaredo e Air Europa, não participaram dos lances “porque tinham condições desfavoráveis”. Malfinati acredita que foi montada “uma estrutura maquiavelicamente genial, que fez com que a Avianca parasse de operar e a Azul não ficasse com 100% dos slots de Congonhas”.

Segundo o diretor da companhia, quem arquitetou essa operação foi o Elliot. “Não daria a um fundo abutre de Nova York essa confiança toda que foi dada pelas duas empresas aéreas”, diz. Ainda segundo o executivo da Azul, causou estranheza o fato de as duas empresas terem anunciado antes do leilão por quais UPIs dariam ofertas. “Mostrou que não havia concorrência.”

A Azul sabia que naquele processo não teria como competir e decidiu romper com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), que tem Latam e Gol como afiliadas. “Tudo desse assunto nos desagradava muito. Nossos valores não casam com os valores deles. Construímos uma reputação de uma empresa que não pisa fora da linha. Agora está tudo dentro da lei. Mesmo que seja na lei mais questionável, como pagar ao fundo antes dos funcionários, não aceitaríamos. Não adianta sentar para conversar com quem joga diferente da gente”, acusa.

Desgaste 

O episódio do leilão da Avianca foi apenas o ponto final na relação com a Abear, que já vinha desgastada desde o ano passado por causa do posicionamento da entidade que não tentou intervir, segundo Malfitani, de forma a equilibrar as forças durante a greve dos caminhoneiros. Naquela ocasião, Gol, Latam e Avianca pressionaram por mais combustível para o aeroporto de Brasília, onde tinham uma concentração de voos, enquanto a Azul defendia que parte dos estoques também fossem para Viracopos e Confins.

Ao perder esse ponto de contato com o poder público, a Azul decidiu reforçar a equipe de relações institucionais, hoje pilotada por Marcelo Bento. “Lamento que isso tenha acontecido porque a Abear, no papel, poderia ser algo muito valioso.”

O tempo passou para a Avianca e, sem uma solução, com funcionários há meses sem receber, suas aeronaves ficaram no chão de vez. Coube à Anac retomar os solos. Para Malfitani, o final poderia ter sido outro se a proposta de US$ 105 milhões tivesse ido adiante, mas “Gol e Latam foram tocando o processo, não queriam que a empresa continuasse operando”.

Malfitani acredita que com o perfil de baixo endividamento que tem, poderia ter se colocado como garantidora do crédito necessário para a retomada da Avianca. Por outro lado o diretor da Azul sabe que a situação era grave e que era difícil ter 100% de certeza de que a companhia teria vida longa como se desejava. “Mas, ao menos, aumentaríamos a confiança do cliente na empresa e reduziríamos a queima de caixa”, avalia.

A Avianca teve sua recuperação judicial aprovada em assembleia de credores em 5 de abril. Seus funcionários continuam sem receber. No final de julho o site foi tirado do ar e o telefone para atendimento aos clientes ficou indisponível.

Agora, o caso segue para o seu final na 2ª Câmara Reservada de Direito Empresarial do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). O relator do processo votou pela falência da Avianca. O revisor concordou, mas o terceiro desembargador divergiu. Por essa razão, mais dois desembargadores votam. Um deles já votou na mesma sessão e acompanhou o relator. O quinto magistrado a votar será convocado e a sessão será em 27/8.

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