Publicidade

Correio Braziliense

Pesquisa mostra que desigualdade cresce a 17 trimestres seguidos

Um estudo realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) revela que o país está vivendo o ciclo mais longo da história de aumento da concentração de riqueza no território nacional


postado em 17/08/2019 07:00

A moradora da Estrutural Isabel Alves se desdobra para criar os filhos(foto: Gabriel Pinheiro/Esp. CB/D.A Press)
A moradora da Estrutural Isabel Alves se desdobra para criar os filhos (foto: Gabriel Pinheiro/Esp. CB/D.A Press)
A desigualdade cresce há quatro anos no Brasil, fazendo com que o abismo entre ricos e pobres fique cada vez mais profundo. Um estudo realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) revela que o país está vivendo o ciclo mais longo da história de aumento da concentração de riqueza no território nacional. Nos últimos 17 trimestres seguidos, o Índice Gini, dado que mede o nível de desigualdade social, vem crescendo continuamente. O indicador passou de 0,6003, no quarto trimestre de 2014, para 0,6291, no segundo trimestre deste ano. Quanto mais perto de 1,0, maior é a desigualdade e, quanto mais perto de zero, menor é a concentração de riqueza.

“O desemprego desempenhou papel importante no aumento da desigualdade durante esse período que inclui a recessão de 2015 e 2016, a maior já documentada, interrompendo o processo de redução da concentração da renda que vinha sendo registrado desde o início dos anos 2000”, comentou o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social, responsável pela realização do estudo A escalada da desigualdade. “A renda caiu junto com a desigualdade nesse período em meio à brutal desaceleração da economia. E esse aumento da concentração ajuda explicar a perda do bem-estar social”, completou.

Renda

O estudo mostra que os 10% mais ricos tiveram incremento de 2,55% na renda. Já renda da metade mais pobre da população encolheu 17,1%. A vendedora de roupas, Isabel Alves, 60 anos, moradora da Cidade Estrutural, sabe muito bem o que é essa desigualdade. Natural do Maranhão, vive no Distrito Federal há mais de 40 anos e trabalhou muito. Vendeu até balinhas na rua para que os filhos não sofressem as dificuldades que ela mesma passou quando era criança. “Meu pai sempre fez de tudo para a gente não passar fome, mas nunca tivemos nada. Lutei e sofri pelos meus filhos. Hoje eu tenho orgulho deles”, disse.  Para Hilda Batista, 57, que trabalha como vendedora em um centro comercial no Lago Sul, frequentado por pessoas de renda alta do DF, a desigualdade é o lado triste no nosso país. “É como um câncer”, lamentou.


De acordo com o levantamento da FGV, nem mesmo em 1989, quando foi registrado o pico histórico da desigualdade, houve uma concentração de renda por um período tão longo. Para Neri, apesar de o ritmo de crescimento da desigualdade ter diminuído, ainda não é possível afirmar que o pior já passou. “Não sou particularmente pessimista. Olhando para trás, temos uma situação muito séria de aumento da desigualdade por um extenso período, mas há uma pequena melhora no quadro”, explicou. 

 

*Com colaboração de Gabriel Pinheiro

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade