Publicidade

Correio Braziliense

Guerra comercial entre EUA e China pode levar país a recessão, diz Volpon

Em meio à crise comercial entre EUA e China, ex-diretor do Banco Central e economista-chefe do banco suíço UBS diz que cenário externo mais tenso faz todos perderem. Ele não descarta o risco de o país entrar em um novo processo recessivo em caso de um choque global


postado em 19/08/2019 06:00

(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
Logo após as eleições de 2014, quando a ex-presidente Dilma Rousseff foi reeleita, o economista Tony Volpon, que cuidava das pesquisas sobre mercados emergentes no escritório do banco japonês Nomura, em Nova York, fez um alerta antecipando que ela seria obrigada a mudar o rumo da política econômica para corrigir os erros cometidos no primeiro mandato. Essa história é contada no seu novo livro Pragmatismo sob coação: petismo e economia em um mundo de crises, recém-publicado pela Alta Books Editora.

Ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) e economista-chefe do banco suíço UBS, Volpon afirma que o cenário externo teve influência no impeachment de Dilma. Além disso, admite que, em caso de nova recessão global, o Brasil será afetado. “Se a conjuntura externa piorar ainda mais, isso pode limitar o espaço para a queda da Selic (taxa básica de juros, atualmente em 6% ao ano)”, alerta. Para ele, na guerra comercial entre Estados Unidos e China, “ninguém sai ganhando”. “Dado que o nível de atividade está ao redor de 1%, em tese, não precisaríamos de um grande choque externo para entrar em um novo processo recessivo”, pontua ele, que está revisando as projeções. A seguir, a entrevista concedida por Volpon ao Correio:


O mercado está cada vez mais turbulento com ameaça de recessão global. Quais os riscos para a economia brasileira que está fraca e próxima de nova recessão?


Dado que o nível de atividade está ao redor de 1%, em tese, não precisaríamos de um grande choque externo para entrar em um novo processo recessivo. Mas temos algumas vantagens. Primeiro, acabamos de aprovar uma robusta reforma da Previdência. Se esse esforço continuar, não somente com uma reforma tributária mas também com um processo forte de privatizações e concessões, o Brasil vai se destacar como uma das poucas economias emergentes executando reformas estruturais. A crise global deve diminuir o volume de recursos indo aos emergentes, mas pelo menos o Brasil deve ser uma fatia maior desse bolo menor.


Está havendo mudanças do cenário econômico mundial. Qual será o papel da Ásia nessa nova conjuntura de guerra comercial entre Estados Unidos e China? Quem perde mais e quem sai ganhando?


Em uma guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas e militares do mundo, ninguém sai ganhando. Na Ásia, especificamente, há grande integração da cadeia de oferta regional com a China. Já há movimentos de recolocar parte da produção fora da China em direção a outros países, mas isso é um processo lento e custoso. Além do mais, devemos ter em mente que a questão comercial é somente uma dimensão de uma rivalidade geopolítica entre os Estados Unidos e a China e que, pela proximidade geográfica que os países asiáticos tem com Pequim, será muito difícil fazer uma opção clara em se manter na órbita americana a longo prazo.


O senhor foi diretor do BC durante o período conhecido como dominância fiscal, quando a política monetária não era capaz de controlar o surto inflacionário. Hoje,os juros nunca foram tão baixos, a inflação está sob controle, mas o fiscal continua ruim e o desemprego se mantém elevado. Quando o país vai recuperar o equilíbrio das contas públicas?


Isso é uma pergunta interessante, porque demonstra a complexidade da relação monetária e fiscal. De fato, por algumas métricas, a situação fiscal piorou entre a passagem dos governos Dilma e Temer, mas, ainda assim, a inflação desabou. Isso demonstra que a questão cíclica, ou a contribuição da recessão e queda da inflação, foi muito mais importante do que supunham aqueles que achavam que era tudo ligado ao fiscal. Na questão fiscal, a verdade simples é que montamos uma estrutura de gasto pressupondo que as altas taxas de crescimento do período Lula eram permanentes. Boa parte da história do governo Dilma foi a descoberta dolorosa de que isso não era verdade, e que aquelas taxas eram consequências de uma conjuntura internacional específica, que acabou com a grande crise financeira de 2008. Esse é o problema, que já era evidente em 2012, e ainda estamos tentando solucionar.


Na época em que o senhor estava no governo, a linha da economia era mais desenvolvimentista. O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem um viés claro capitalista, mas tem utilizado instrumentos nada ortodoxos, como a liberação de crédito do FGTS, para tentar estimular a economia via consumo. Não é uma contradição? Por quê?


Não acho uma contradição. Neste momento, depois da aprovação da reforma da Previdência, algum estímulo de demanda que não fere o ajuste fiscal é bem-vindo. O BC vai dar sua contribuição também. E liberar parte do FGTS, que é um recurso mal-aproveitado, pode ajudar um pouco. Acredito que a questão do baixo crescimento vem, principalmente, da desordem do potencial de crescimento causado por políticas que promoveram má alocação de recursos e, que infelizmente, resolver isso demanda tempo e paciência. Precisamos executar uma série de reformas e esperar que elas surtam efeito. Nada disso acontece de forma imediata.


Como o senhor definiria o momento atual? O processo de mudanças na economia está sendo bem conduzido?


Dadas as restrições políticas de uma democracia complexa e as mudanças que a política brasileira tem passado, eu acho que os resultados estão surpreendendo positivamente.


A reforma da Previdência está quase no fim, mas não há sinais claros de quando a economia vai voltar a crescer. Quando podemos ver o quadro mais positivo para a economia e para o emprego de qualidade?


Tem a questão externa, difícil de prever, e tem a questão se o esforço das reformas vai ou não continuar. As duas são independentes e, hoje, parece que estamos caminhando para uma situação onde haverá esforços adicionais de reforma em um ambiente externo hostil. Assim, infelizmente, vamos colher menos resultado pelo nosso esforços. Isso não implica relaxar o processo de reformas, mas fortalecê-lo para compensar um ambiente global hostil. Somente assim devemos ver, de forma gradual, uma recuperação mais forte e consistente.


A Argentina está mergulhando em uma nova crise financeira, com risco de mais um calote. Apesar do governo com perfil mais liberal e do apoio do FMI, o presidente Mauricio Macri não conseguiu fazer os ajustes fiscais necessários. Quais os riscos de o Brasil seguir para o mesmo abismo econômico?


A lição que devemos tirar da experiência argentina é que o gradualismo não funciona. Macri herdou uma situação catastrófica, mas optou por um processo de ajuste bastante gradual financiado com capital estrangeiro. Quando esse se torna escasso em 2018, tudo desaba. Nós também optamos por um ajuste fiscal gradual, mas a recessão “resolveu” a questão da alta inflação e o deficit da conta-corrente. E, apesar de todas as críticas que podem ser feitas à gestão do Banco Central no período da Dilma, não se permitiu usar as reservas cambiais para financiar o consumo como se fez na Argentina. Se isso tivesse acontecido, estaríamos em uma situação muito pior.


O presidente Jair Bolsonaro tem feito declarações polêmicas com grande repercussão ruim fora do Brasil, mas isso tem sido ignorado pelo mercado. O que está acontecendo na sua avaliação?


Sem fazer nenhum julgamento sobre as declarações do presidente, o mercado sempre fica mais focado nas ações concretas e na pauta econômica. E, nessa área, tem havido boas notícias.


Mas a Bolsa voltou a ficar abaixo dos 100 mil pontos no meio da confusão externa. Essas notícias boas na área econômica não podem estar com o prazo de validade vencendo?


Não é uma questão de prazo de validade vencendo, mas sim de fatores globais se sobrepondo aos fatores locais, onde a natureza da economia brasileira, como sendo emergente e dependente, implica exposição grande a choques externos.


O período em que o senhor esteve no BC coincidiu com a fase mais intervencionista do governo na economia e votou contra em muitas decisões. Quais os riscos de uma política intervencionista?


Participei de uma diretoria que fez o maior aperto da taxa Selic da história e votei para subir a Selic ainda mais exatamente por acreditar que, no fim das contas, o gradualismo fracassa. Discordo que no meu período no Banco Central foi o auge da fase intervencionista do governo Dilma, já que tínhamos o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que, contra quase tudo e todos, tentou reverter a questão fiscal.


Como o senhor avalia a atual política do Banco Central? A atual redução dos juros atual é mais natural? Há um limite para que a Selic caia mais? Que piso seria?


A taxa Selic deve cair até para 5,25% até dezembro mas, se a conjuntura externa piorar ainda mais, isso pode limitar o espaço para a queda dos juros básicos.


Poderia explicar melhor a origem do termo “pragmatismo sob coação” que é o título do seu livro?


Em 2014, quando era chefe de pesquisa para mercados emergentes do banco Nomura, em Nova York, escrevi um relatório depois da reeleição, mas antes da nomeação de Joaquim Levy. No texto, argumentei que, apesar do que a Dilma pregou durante a eleição, haveria uma tentativa por parte dela de corrigir os vários erros que ela mesmo cometeu durante o primeiro mandato, em grande parte, por uma coação dos mercados em seguir um caminho pragmático. Na época, como demonstro no livro, isso gerou fortíssima reação na esquerda, com alguns me acusando de fazer “terrorismo econômico”. Uso isso no livro como um gancho para discutir uma questão de fato importante, que é a relação entre a política e os mercados financeiros, concluído, em parte, que quem preza que a política deve ser independente da pressão dos mercados e deve entender que isso somente acontece quando há uma posição fiscal estável, onde o Estado não depende de seus credores.


O senhor cita a influência do mercado internacional no impeachment da presidente Dilma Rousseff. Qual foi o peso desse quadro externo?


A narrativa usual sobre o impeachment e a recessão pelo qual passamos apontam os erros da gestão de Dilma como causa. No livro, tento demonstrar que muitas das escolhas feitas durante o primeiro mandato foram tentativas de resposta a uma queda de crescimento causado pela desaceleração da China e seus impactos globais. O ano de 2010, aquele período mágico onde se pensou que o Brasil tinha mudado para sempre, na verdade, foi o suspiro final de um modelo de crescimento chinês que tinha se esgotado. Essa conjuntura ajudou muito o Brasil durante o governo Lula. Além disso, especificamente em 2015, a economia chinesa sofreu uma crise cambial, que agravou o processo recessivo do Brasil iniciado em 2014. Mostro ainda que a China foi o grande agente desse período da nossa história econômica, algo que continua até hoje.

E hoje, como podemos definir essa influência global para o futuro no novo governo? Que lições ele deve tomar?


Que o (cenário) global acaba sendo, muitas vezes, mais importante do que o local, e que temos a tendência de não entender ou menosprezar a questão global e supervalorizar Brasília como sendo de onde tudo de bom e de mau emana.


O lema do governo Bolsonaro “mais Brasil menos Brasília” está equivocado como o senhor mostra no livro. Por que sugere mais economia global?

O Eduardo Loyo, no prefácio do livro, aponta que o grande tema do livro não seria tanto “mais Brasil, menos Brasília” mas sim, “menos Brasília, mais Pequim”. Qualquer pessoa olhando para as manchetes recentemente vai perceber como isso é verdade.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade