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Correio Braziliense

Acessíveis, clínicas médicas populares crescem e se diversificam

Empresas independentes absorvem migração de ex-usuários de planos de saúde e atraem novos investimentos, oferecendo serviços médico e odontológico a preços mais baixos


postado em 20/09/2019 06:00

O laboratório da DB Diagnósticos é especializado em prestar serviços de terceirização de exames de análises clínicas(foto: DB/Divulgação)
O laboratório da DB Diagnósticos é especializado em prestar serviços de terceirização de exames de análises clínicas (foto: DB/Divulgação)
São Paulo — Nos últimos dois anos, o empresário Emilio Püschmann tem enfrentado um grande desafio à frente de sua companhia: como administrar a velocidade do crescimento. A rede de clínicas médicas populares Amparo prevê operar 10 unidades até o fim deste ano só na Grande São Paulo e em Brasília, que se somarão aos centros médicos já em operação em Alphaville, Lapa, Largo da Batata e Paraíso, tradicionais regiões do mercado paulistano.


“Vamos crescer em poucos meses mais do que crescemos desde a inauguração, em 2017”, diz Püschmann. Ele não está sozinho nessa aposta. No mês passado, a Amparo recebeu um aporte do Grupo Sabin, que passou a responder por 30% de participação no capital da companhia. “O Sabin quer entregar uma nova proposta de valor para empresas e operadoras nos cuidados aos seus colaboradores e beneficiários, bem como contribuir para a sustentabilidade do setor de saúde e o fortalecimento da cultura do cuidado coordenado e personalizado da saúde”, afirmou, na ocasião da assinatura do negócio, a presidente executiva do Sabin, Lídia Abdalla.

A Amparo cresce na contramão do setor de planos de saúde, que registra uma sequência de recordes de aumento de custos e de redução de clientes — causado especialmente por fatores como crise econômica e alto desemprego. O segmento, popularmente conhecido como o de clínicas populares, comemora bons negócios, aproveitando a lacuna deixada no mercado pelos valores altos dos planos de saúde e a dificuldade dos trabalhadores de encontrar atendimento decente em unidades públicas de saúde, geralmente superlotadas.

A Amparo, considerada a primeira rede de atenção primária e gestão de saúde, tem a missão, segundo Püschmann, de disseminar o modelo de clínica independente e desmistificar os preconceitos implícitos nesse segmento de atendimento primário. “O objetivo daqui para frente é efetuar uma mudança comportamental e cultural para criar adesão ao modelo de atenção primária, proporcionando um atendimento acolhedor, humano, completo e de qualidade para o paciente, além de reduzir significativamente os custos com saúde. O modelo da Amparo tem impacto direto na redução de utilização dos prontos-socorros, internações, desperdício com exames e outros procedimentos”.

 

O dono da clínica Amparo, Emílio Puschmann, acredita que a empresa vai crescer em poucos meses mais do que cresceu desde a inauguração, em 2017(foto: Amparo/Divulgação)
O dono da clínica Amparo, Emílio Puschmann, acredita que a empresa vai crescer em poucos meses mais do que cresceu desde a inauguração, em 2017 (foto: Amparo/Divulgação)
 

Migração

Ainda faltam estatísticas para medir a velocidade do crescimento do setor. Mas o avanço dessas empresas expõe a migração de pessoas do setor privado para as clínicas independentes. Estimativas e projeções de entidades como Associação Nacional das Administradoras de Benefícios (Anab) e da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) apontam que, desde o início da crise, no fim de 2014, mais de 3,2 milhões de pessoas perderam seus convênios médicos, seja porque foram demitidas, seja porque não conseguiram mais arcar com os custos das mensalidades, que subiram bem acima da inflação.

Nos últimos três anos, os reajustes autorizados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para planos familiares e individuais foi mais de três vezes superior ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do período. O aumento foi ainda maior nos planos de saúde empresariais, cujo reajuste médio superou 15% ao ano. Uma pesquisa do Ibope em oito regiões metropolitanas revela que 77% dos entrevistados encaram os preços como principal entrave para quem pretende contratar um plano de saúde. O índice de quem já tinha o benefício, mas não pôde mantê-lo, é de alarmantes 54%.

No entanto, um termômetro do avanço do setor é o crescimento do emprego formal da área da saúde, que aumentou 3,4% entre julho deste ano e o mesmo mês de 2018. Esse percentual equivale a quase 120 mil pessoas contratadas. Segundo o superintendente executivo do Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS), José Cechin, esse fenômeno se explica, em parte, pela diversificação do segmento de saúde. “Enquanto na economia como um todo continuamos com altíssimo desemprego e um nível de demissões elevado, na área da saúde houve crescimento expressivo em um ano”, disse ele. “As pessoas fazem mais procedimentos, demandam mais consultas médicas, mais exames, mais internações hospitalares. Tudo isso é que está movendo o emprego”.

É neste ambiente de mudança de perfil do usuário — que está, digamos, mais independente — que empresas como o Grupo Diagnósticos do Brasil (DB) estão surfando. O laboratório exclusivo de apoio no país, ou seja, especializado em prestar serviços de terceirização de exames de análises clínicas para outros laboratórios, tem motivos de sobra para comemorar.

Em maio, a empresa superou a marca de sete milhões de exames processados, assumindo a liderança do mercado nacional. Atualmente, o DB conta com três grandes unidades técnicas no país, localizadas nos estados do Paraná, São Paulo e Pernambuco, duas unidades especializadas, localizadas no estado de São Paulo, o DB Molecular e o DB Patologia, além de mais de 40 unidades regionais de atendimento distribuídas em diferentes estados.

“Nos últimos anos, conseguimos inovar muito dentro de um segmento tão complexo e desafiador. Com investimentos contínuos, desenvolvemos e aplicamos ações de melhorias em nossos serviços, dedicando uma atenção especial para a excelência dos processos e de atendimento, tudo para proporcionar as melhores soluções para os nossos clientes”, diz o diretor Tobias Thabet Martins.

Convênio próprio

Outro exemplo da boa fase das clínicas populares é o MedicMais, que lançou até seu próprio “convênio médico”, chamado de Mais Saúde, que cobre despesas de saúde e odontológicas com mensalidades de R$ 24,90 a R$39. A empresa fechou o ano passado com faturamento de R$ 30 milhões. “Fazemos qualquer negócio para garantir serviços aos clientes. Negociamos, damos descontos, aceitamos cartões de crédito, analisamos propostas e facilitamos ao máximo para conquistar e agradar”, afirma o cofundador da MedicMais, Tiago Alves.

A ideia surgiu há 10 anos, depois de cursar Odontologia no ano anterior, em Minas Gerais. A primeira unidade foi aberta na cidade de Paracatu. Entre 2009 e 2012, inaugurou outras seis unidades no Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e noroeste mineiro. Na época, o grupo acumulou oito clínicas próprias.

O nome MedicMais veio só em 2015. O negócio teve um impulso do empresário David Pinto, idealizador da holding Grupo 10X, que fez da rede uma grife do mercado de franquias. Desde 2018, foram comercializadas 105 unidades, sendo 60 delas em 22 estados. Outras 40 serão abertas até o fim deste ano, e outras 200 serão previstas para 2020.

Um levantamento da Associação Brasileira de Franchising (ABF) revela que o segmento de Saúde, Beleza e Bem Estar — que engloba franquias de clínicas — evoluiu 8,9% no faturamento do segundo trimestre deste ano na comparação a igual período medido no exercício anterior. Entre abril e junho, o faturamento alcançou R$ 7,6 bilhões, o sexto setor de melhor rendimento do franchising brasileiro.

“As clínicas acessíveis já existiam, mas passaram a ocupar espaços maiores. Elas dão acesso a quem não pode bancar os custos exorbitantes. As desigualdades aí estão para comprovar o quadro real do país”, diz Tiago Alves, da MedicMais. 

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