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Correio Braziliense

Sozinha, reforma da Previdência não garante grau de investimento

Para especialistas, falta de medidas adicionais às mudanças no sistema previdenciário, a fim de melhorar o quadro fiscal do país, deve adiar a recuperação do selo de bom pagador que o Brasil perdeu em 2015. Recuperação lenta reduz confiança de investidores


postado em 13/10/2019 08:00

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
O risco Brasil está relativamente baixo, pouco acima do patamar de quando o país conquistou o grau de investimento, em 2008. Contudo, ainda vai demorar para recuperar o selo perdido em 2015, admitem integrantes da equipe econômica e especialistas ouvidos pelo Correio. Nem mesmo a aprovação da reforma da Previdência é garantia de uma elevação das notas pelas agências de classificação dos títulos soberanos brasileiros, advertem os analistas.

 

Isso porque o quadro fiscal continua muito ruim, apesar de os juros estarem em queda. Segundo um operador de mercado, as agências internacionais não acreditam mais em promessas do governo brasileiro nem querem saber de promessas ou de expectativas. Querem fatos concretos. Mas o país não consegue crescer e está preso na armadilha do baixo crescimento. Para piorar, o governo vem demorando muito para tomar medidas adicionais à reforma previdenciária, a fim de cortar efetivamente gastos obrigatórios, que consomem mais de 95% das despesas primárias e crescem acima da inflação.

 

Por conta disso, as contas públicas não fecham. Não à toa, a falta de confiança contribui para a saída recorde de R$ 29,4 bilhões, no acumulado no ano até o último dia 10, de investidores estrangeiros da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), um recorde histórico da série iniciada em 1996. Esse valor supera os R$ 24,6 bilhões registrados em 2008, no auge da crise financeira global.

 

“Acredito que as agências ainda vão esperar mais um pouco para elevar a nota de risco do Brasil. Devem aguardar a economia melhorar um pouco, ver se outras medidas que o governo prometeu acontecem”, explica o economista Marcel Balassiano, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). Ele lembra que há vários sinais contrários na economia que não estão conversando. “A reforma da Previdência, que era a grande questão fiscal, pode ser aprovada, mesmo que desidratada. Isso é positivo e, por isso, o risco país está baixo. A nota do país poderia ter voltado a subir, mas a economia ainda está crescendo pouco. O quadro fiscal continua ruim e o cenário externo não está muito favorável”, completa.

 

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
 

 

Cenário externo

O economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, considera necessário que as incertezas internacionais diminuam para que o Brasil recupere o grau de investimento. “Falta crescimento. O mundo tem que se acalmar. Daqui a dois anos, o país recupera o selo de bom pagador, no máximo, até 2022”, avalia.

 

As estimativas do mercado para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deste ano estavam muito otimistas em 2018. Chegaram a ultrapassar 3%, e, agora, estão abaixo de 1%, porque a economia perdeu tração. “Apenas a crise da Argentina tirou 0,5% do potencial do PIB deste ano. Logo, se não fosse a recessão no país vizinho, o PIB brasileiro poderia crescer 1,5% em vez de 1%”, calcula Balassiano. Ele destaca que a situação estrutural do Brasil está ruim e o quadro externo não contribui, devido às incertezas causadas pela guerra comercial entre China e Estados Unidos. De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o conflito entre as duas maiores potências mundiais pode fazer o PIB global encolher US$ 700 bilhões e o risco de recessão global está à espreita.

 

O diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), Felipe Salto, reforça o coro de que a reforma da Previdência não é a solução para o problema fiscal do país. Pelas estimativas da IFI, o impacto fiscal inicial da mudança das aposentadorias e pensões, antes das alterações no Senado, era de R$ 744 bilhões em 10 anos. Logo, a economia ainda será menor do que os R$ 800,3 bilhões atuais. Ele destaca que,  para piorar, o resultado primário do governo federal continuará no vermelho até 2026, fazendo com que a dívida pública bruta continue crescendo até a segunda metade da próxima década, em um cenário otimista. (Ver quadro)

 

Medidas estruturais

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, também considera que a nota de classificação de risco do Brasil não deve ser elevada imediatamente. “Faltam medidas estruturais e o governo não pode ficar de braço cruzado até o Titanic afundar. O iceberg está no horizonte e vamos ver se o capitão percebe. Hoje, o PIB está no mesmo patamar de 2010”, alerta.

 

Atualmente, pelas contas do Banco Central, a dívida pública bruta do Brasil está perto de 80% do PIB, taxa bem acima da média de países emergentes, de 50%, conforme dados do FMI. O organismo internacional estima que esse indicador chegará a 90,4% do PIB, neste ano, passando para 97,6% do PIB, em 2024. “No nosso cenário atual, a dívida pública bruta cresce até 2026, mesmo se a taxa básica de juros (Selic) ficar abaixo dos atuais de 5,5%. Não podemos nos dar ao luxo de ter um patamar tão alto por tanto tempo”, diz. Para ele, apenas a queda dos juros “não vai reduzir o endividamento”.  

 

O diretor da IFI considera necessário que a equipe econômica adote medidas adicionais à reforma da Previdência. “O deficit primário ainda está muito alto e vai continuar pressionando a dívida. Não é possível se conformar com uma meta para 2020 de um saldo negativo de R$ 124 bilhões. Os problemas continuam os mesmos e o quadro fiscal é desafiador ”, afirma Salto. “É preciso cortar despesas.” 

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