Publicidade

Correio Braziliense

Concentração da renda aumenta no país, aponta estudo do IBGE

Dados do IBGE mostram que Índice Gini, que mede concentração de renda, está no maior patamar da série histórica. Entre 2017 e 2018, renda média dos 30% que ganham menos de um mínimo caiu, enquanto a do 1% que ganha acima de R$ 27,7 mil subiu 8,4%


postado em 17/10/2019 06:00

(foto: Editoria de ilustração/CB/D.A. Press)
(foto: Editoria de ilustração/CB/D.A. Press)
Maria do Socorro Camelo, 70 anos, é lavradora e moradora de Santa Luzia, bairro ao lado da Cidade Estrutural, a 16 quilômetros da Rodoviária do Plano Piloto. Ela sobrevive, com muita dificuldade, com R$ 600 por mês. Socorro faz parte do grande contingente da população que perdeu renda nos últimos anos, enquanto a estreita fatia mais abastada da sociedade aumentou a concentração de renda, tornando o país, cada vez mais, desigual, conforme dados divulgados nesta quarta-feira (16/10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad).

A agricultora é responsável pelo sustento de oito pessoas. “Às vezes nós não temos água e nem luz aqui. Ainda bem que, às vezes, recebemos doações de roupa”, conta ela, que veio do Maranhão, onde trabalhava quebrando coco na roça. “Nunca fui beneficiária do Bolsa Família. Mal dá para sobreviver. Não consigo pagar meus remédios. Sou diabética e tenho problemas de pressão”, disse. Ela reclama da falta de cuidado dos administradores da cidade. “Tem muita pulga e rato aqui onde a gente mora. Queria que eles olhassem mais para a gente que é pobre. Com fé em Deus, as coisas melhoram”, completou.

Anderson Mota Júnior, 20, estudante de medicina em uma universidade particular reconhece que é privilegiado economicamente. “Seria muita inocência e falta de honestidade dizer que não”, afirmou.  Para ele, o Brasil é um país evidentemente desigual em muitos fatores, como estudo, desenvolvimento social, acesso à saúde e ao lazer. O futuro médico já participou de atendimentos às comunidades carentes gratuitamente. “Acredito que ações sociais impactam também de forma produtiva, na medida em que atende uma demanda sem cobrar nada de volta”, destacou.

De acordo com os dados do IBGE, o abismo entre Anderson e Maria do Socorro está cada vez maior. O Índice Gini, principal termômetro da desigualdade social, voltou a subir no país, alcançando 0,545, o maior patamar da série histórica do instituto, iniciada em 2012. Esse indicador vinha caindo até 2015, mas voltou a subir após a recessão que fez o Produto Interno Bruto (PIB) encolher 3,5%, naquele ano, e mais 3,3%, no seguinte.

Em 2017, o PIB brasileiro avançou 1,1%, mesma taxa de 2018, ou seja, andou de lado, e deve crescer menos neste ano (0,9% pelas novas estimativas do Fundo Monetário Internacional). Nesse período, o rendimento médio de 30% da população que ganha até R$ 951 — menos do que um salário mínimo, de R$ 998 —, como é o caso da moradora da Estrutural, teve queda no rendimento médio mensal. Já a população mais rica, com ganho médio de R$ 27,7 mil ao mês, registrou aumento de 8,4%, sinal de aumento da concentração de renda. Na média nacional, o rendimento mensal de todos os trabalhos cresceu 2,3%, em termos reais.

“O dado do IBGE tem um lado positivo, mostra que a renda média cresceu, mas tem o lado ruim, que é o aumento da desigualdade entre 2014 e 2018, confirmando as prévias anteriores”, avaliou o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social, da Fundação Getulio Vargas. “O problema é que a recessão veio acompanhada do aumento da desigualdade. Desde 2014, a renda média dos mais ricos cresceu 9,4% enquanto os 5% mais pobres perderam o poder aquisitivo em 39,3%. É um crescimento chinês negativo de pobres”, lamentou Neri.

O sociólogo Pedro Ferreira de Souza, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), demonstrou preocupação com a tendência de aumento da desigualdade, devido ao baixo crescimento da economia. “Isso é muito preocupante. A renda está crescendo muito pouco e a economia dá sinais de estagnação. Essa piora na desigualdade não é explosiva, mas considerando que a atividade econômica está muito devagar, esses dados me chamaram  a atenção”, avaliou. Para ele, a concentração de renda pode ser maior do que a apontada pelos dados do IBGE, porque a média da Pnad costuma ser 40% menor do que o rendimento real desse 1% da população mais rica.

Estagnação contribui

A falta de crescimento da economia e o avanço da informalidade são fatores que explicam o aumento da desigualdade social no Brasil, levando o Índice Gini para o pior resultado da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012. Essa é uma das constatações da economista Adriana Beringuy, coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, ao explicar os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), divulgada ontem.

“Esse movimento passa pela piora no mercado de trabalho, com redução do número de trabalhadores com carteira assinada; queda no volume de contratações da indústria, onde salários são melhores; e aumento da informalidade no setor privado e de trabalhadores por conta própria”, explicou a analista do IBGE.

Segundo o estudo, 72,4% da renda média domiciliar per capita dos trabalhadores brasileiros foi proveniente de alguma forma de trabalho em 2018, abaixo do pico de 75,4% de 2014. Já a participação de aposentadorias e pensão é crescente, passando de 18,3% para 20,5% no mesmo período. A fatia do bolsa família complementando a renda média mensal encolheu de 15,9%, em 2012, para 14,9%, em 2014, e para 13,7%, em 2018. “Se pensar que os programas sociais estão relacionados às famílias mais pobres, essa redução acaba refletindo na perda do rendimento familiar”, comentou a técnica.

A pesquisa do IBGE revela, ainda, que houve redução da desigualdade no Nordeste A Região Norte ficou na lanterna, em função de uma queda maior nos segmentos de maior renda. “Isso mostra que todos perderam mais”, avaliou Marcelo Neri, do FGV Social. Pelos cálculos dele, a perda de renda acabou sendo menor entre mulheres do que entre os homens, desde 2014 até o segundo trimestre de 2019. “As mulheres foram o único grupo que registrou aumento na renda do trabalho, de 2%, enquanto a dos homens caiu 5%, porque são as mais educadas”, contou. “A crise prejudica menos os mais educados. Nesse caso, as mulheres. Eis um dado positivo”, completou. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade