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Correio Braziliense

''Não ficamos reféns da situação do país'', diz Paulo Telles

CEO do Grupo Telles, holding que foi dona da Ypióca descarta a possibilidade de voltar a fazer cachaça, desenvolve soluções orgânicas para a agricultura e foca na qualidade de vida das pessoas


postado em 12/11/2019 06:00 / atualizado em 12/11/2019 00:47

"É uma tendência produzir bem e com qualidade. É preciso uma mudança cultural, essas empresas sabem que têm de olhar para o mercado e para a população", diz Paulo Telles (foto: Grupo telles/divulgação)
São Paulo – Em maio de 2012, a marca Ypióca foi vendida para a Diageo por cerca de R$ 900 milhões (valor daquela época). Apesar de ser um negócio centenário e familiar, os tempos da produção de aguardente não trazem nostalgia a Paulo Telles, CEO do grupo e quinta geração da família Telles. Em entrevista aos Diários Associados, o herdeiro e executivo citou o nome da cachaça que fez a fama e a fortuna da empresa depois de 43 minutos de conversa. Seus planos à frente do negócio são outros, não passam pela volta à produção de aguardente ou outra bebida alcoólica.

Com o dinheiro obtido com a venda da operação de cachaça, a decisão foi investir na expansão negócios do grupo. Hoje, a holding é composta por seis empresas: Agropaulo (agronegócio), Santaelisa (papelão reciclado), Ypetro (distribuição de combustíveis), Naturágua (engarrafamento e distribuição de água), Yplastic (produção de garrafas PET) e iPark Complexo Turístico (parque de lazer).

A aposta nessas áreas dá sinais de que foi acertada. No ano passado, o faturamento da holding chegou a R$ 328,9 milhões e a previsão para este ano é que alcance os R$ 360 milhões. Para 2020 a projeção é de aceleração. Se a estimativa para o ano que vem se confirmar, o Grupo Telles alcançará uma receita de R$ 440 milhões e atingirá depois de oito anos o mesmo volume em caixa que tinha com a Ypióca. Ou seja, depois de embolsar R$ 900 milhões e de desfazer do principal negócio, a holding voltará ao mesmo patamar de faturamento.

Parte do desempenho vem da injeção de recursos feita nos últimos anos. Foram R$ 200 milhões que saíram do próprio caixa do grupo para tornar a produção maior e mais eficiente nas diferentes áreas de atuação. Só a divisão de água mineral contou com uma ampliação, uma nova unidade aberta recentemente e uma planta que será inaugurada em 2020. Dessa divisão de negócios, poderão surgir outros produtos, como sucos, energéticos e águas com sabor.

Outra área de destaque no escopo do grupo é a do agronegócio, que vem avançando em negócios que vão muito além do etanol. A empresa AgroPaulo tem investido em pesquisas na área de soluções orgânicas e defensivos biológicos para serem usados no plantio. Hoje, estão no portfólio, a partir do desenvolvimento interno de pesquisas, fertilizantes, defensivos e óleos essenciais com certificação para uso no cultivo de orgânicos.

Sob a gestão de Paulo Telles e na contramão da autorização acelerada de novos agrotóxicos pelo Ministério da Agricultura – 382 entre janeiro e outubro de 2019 –, a companhia acredita que os alimentos mais saudáveis, mesmo ainda atendendo a um nicho, vão despertar um interesse cada vez maior. O executivo, que prefere água e sucos e apenas eventualmente toma um vinho ou uma caipirinha, garante que desde já essa alternativa vem chamando a atenção de grande produtores rurais. Leia trechos da entrevista concedida pelo presidente do Grupo Telles.

Como o grupo tem conseguido aumentar suas vendas mesmo com a baixa atividade econômica do país?
Neste ano, deveremos crescer entre 8% e 10% as vendas. Isso tem a ver com algumas estratégias. Já tem algum tempo que temos investido nas empresas do grupo para o aumento de produtividade, em novas tecnologia, em processos para redução de custos e na expansão. Enquanto o Brasil estava parado, optamos por uma visão de longo prazo. Claro que as dificuldades acontecem, por isso mantemos a atenção, mas temos um plano traçado. Não ficamos reféns da situação do país, seguimos com o plano de expansão. Nos últimos quatro anos, foram cerca de R$ 200 milhões de investimentos. Hoje posso dizer que já estamos com a casa arrumada.

Que tipo de vantagem essa preparação da empresa pode dar?
À medida que a economia melhorar, enquanto as outras empresas vão arrumar a casa, já estamos com a casa arrumada. Também nos ajudou a diversificação dos negócios e a verticalização. Enquanto uma área está parada, a outra funciona melhor. Água mineral, por exemplo, a despeito da situação econômica, é preciso consumir. Com processos verticalizados, temos um custo um pouco mais otimizado. São negócios diversificados, mas interligados. Procuramos ter atividades que se relacionem. Além disso, procuramos gerar receita com a venda para terceiros. É o que acontece no caso do plantio de soja, de milho e na engorda de gado. O que plantamos e não consumimos é comercializado como excedente. Plantamos, colhemos, armazenamos e transformamos a produção em proteína animal ao alimentar o gado, que tem maior valor agregado.

O grupo pretende continuar a diversificar?
Agora, estamos impulsionando mais alguns negócios, como água mineral, etanol e o agronegócio de uma forma geral. Desenvolvemos com pesquisa própria um defensivo agrícola natural. Começamos a investir há oito anos na melhor forma de obter esse produto a partir da extração de óleo essencial. Hoje, não só comercializamos o defensivo como estamos investindo no plantio de espécies como citronela, capim santo e alecrim nativo, de forma orgânica, para obter o óleo essencial também para a comercialização no varejo, em embalagens menores, a partir deste mês. Mas indústria do setor de perfumaria e cosméticos também serão clientes no atacado. Atualmente temos uma área plantada e irrigada de 20 hec tares. Estamos ampliando para mais 40 hectares.

Como surgiu essa divisão de negócio?
Na época da rotação de cultura nos intervalos da cana-de-açúcar, plantávamos milho, soja e sorgo, mas buscávamos alternativas. Assim chegamos no óleo, no defensivo e no fertilizante, que são certificados pelo IBD.

Que atratividade viu na produção voltada à cultura de orgânicos?
Atualmente, nosso foco é a venda para atender a produção convencional. Mas vejo que a produção de forma mais natural, mas consciente, com menos química está aumentando. Hoje, por exemplo, vendemos esses produtos para agricultores de Petrolina (PE), que preferem essa alternativa para exportarem as frutas sem resíduos químicos. Estamos apostando na produção mais saudável e mais consciente.

Mas isso acontece justamente quando o Brasil tem apostado na liberação de mais agrotóxicos.
Grandes empresas estão despertando para o uso de agrotóxicos, querendo produzir cada vez mais, mas de forma correta. É uma tendência produzir bem e com qualidade. É preciso uma mudança cultural, essas empresas sabem que têm de olhar para o mercado e para a população. Hoje, já é possível conseguir custos menores e maiores volumes por esse método.

A vivência no setor de bebidas ajudou nos outros negócios do grupo?
Ajudou e ainda ajuda. A bebida e o grupo se confundem numa história centenária. E hoje o que somos? Um grupo com a cultura de produção, comercialização e distribuição. Com a Ypióca procuramos ter a inovação com uma das nossas características. Às vezes não é possível inovar, mas nos esforçamos para nos diferenciar.

Você só falou sobre Ypióca agora. Falar de cachaça ainda á prazer ou aborrece? Depois da cachaça, poderia vir uma utra experiência, por exemplo, com cerveja artesanal ou bebidas funcionais?
É um orgulho falar sobre a Ypióca. Durante cinco anos, nos esforçamos para não mencionar o nome Ypióca porque estávamos muito condicionados depois de tanto tempo. Vimos que era hora de olhar para frente, mas isso sem esquecer do orgulho que temos da marca. Um tempo atrás, chegamos a avaliar a possibilidade de investir em outras bebidas, como cerveja, vinho, mas percebemos que o grupo saiu da área de bebida alcoólica numa situação muito positiva e voltar significaria começar do zero. Nosso perfil mudou. Atualmente, procuramos desenvolver produtos que agreguem qualidade de vida para as pessoas. Queremos trabalhar numa linha mais responsável.

Isso tem a ver com a crença dos acionistas ou com a mudança do perfil do consumidor?
Tem a ver com a crença dos sócios de que o papel é desenvolver produtos e serviços que melhorem a vida das pessoas.

A revisão para baixo dos números da economia assuntou?
Para mim não assustou, era a expectativa que eu tinha. Mas sei que para o grande público houve uma frustração. Nem sempre a velocidade com que as coisas acontecem está alinhada com o que se coloca no papel. Conseguimos até agora uma inversão da curva, apesar do crescimento ser pequeno. Mas já é um avanço. Nesse cenário, a Reforma Tributária é fundamental. Nós trabalhando em várias regiões e sofremos muito com as diferentes leis, com a tributação estadual e a municipal. Praticamente é preciso ter um contador em cada estado e isso gera dificuldades na arrecadação. Quando a Reforma Tributária for feita, vai trazer bastante beneficio para a economia. Mas, de uma forma geral, essa e outras reformas, com o a trabalhista e a da Previdência, apesar de serem fundamentais, há outros setores que deveriam ser prioridade para o governo, como educação, saúde e infraestrutura.  Enquanto não forem prioridade, a produtividade do Brasil continuará aquém dos países desenvolvidos e emergentes.

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