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Correio Braziliense

Aumento de 6,8% no faturamento mostra otimismo no setor de franquias

Caracterizado pela diversidade, o mercado exige talento e disposição, mas planejamento e estratégia são essenciais para quem pretende se lançar na empreitada


postado em 18/11/2019 06:03 / atualizado em 25/11/2019 13:52

O setor de casa e construção civil teve o maior crescimento em 2019(foto: Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press)
O setor de casa e construção civil teve o maior crescimento em 2019 (foto: Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press)
Responsável por 2,6% do Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB), o setor de franquias nacional teve um crescimento de 6,1% no primeiro semestre deste ano. Mesmo com as dificuldades na economia brasileira, o faturamento continuou em alta nos meses seguintes, passando de R$ 47 bilhões entre julho e setembro, o que anima o segmento para as vendas de fim de ano.

Após uma oscilação nos últimos dois anos, o setor se solidificou em 2019 e cresceu em todas as esferas. O estudo Desempenho do Franchising Brasileiro, divulgado recentemente pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), revelou que os 11 segmentos listados pela entidade tiveram um desempenho positivo neste ano. No acumulado de 12 meses até outubro, o setor arrecadou cerca de R$ 182 bilhões, um aumento de 6,8% em relação a 2018, que foi de 6,3% no mesmo período.

Os setores que tiveram maior destaque foram de Casa e Construção (9,1%), Moda (8,6%), Comunicação, Informática e Eletrônicos (8,3%), Hotelaria e turismo (7,2%). Além disso, O franchising é um dos setores que menos fecha lojas. Segundo o estudo, o índice de abertura de lojas no terceiro trimestre foi de 4,3%, contra o fechamento em 1,4%. O levantamento da ABF aponta a criação de 1,342 milhão de postos de trabalho formais neste trimestre, uma alta de 4%. No fim do ano passado, 56 milhões de pessoas estavam empregadas graças ao setor de franquias. 

O franchising compõe uma gama variada de negócios. É possível encontrar até unidades móveis e com investimentos de R$ 400. Para especialistas, este é um modelo que abraça dois tipos de empreendedores: quem tem vontade de investir nas próprias ideias e se tornar um franqueador; ou quem prefere investimentos de baixo risco, com marcas mais consolidadas. Segundo especialistas, o segmento mais crescente é o de alimentação, mas serviços de estética e ensino de idiomas também estão em alta.

Denis Santini, autor do livro Marketing para franquias, avalia que o franchising está mais democrático por conta da diversidade que o mercado oferece. “A franquia é uma opção para iniciar a vida empreendedora. Nas microfranquias, por exemplo, os jovens interessados em empreender e sem experiência profissional podem contar com os processos e aprendizados dos franqueadores o que é incrível. Serviços para a geração prateada (nova nomenclatura para 60+) também começam a ocupar um espaço relevante”, explica Santini.

Fábio Spina, diretor de Operações da Casa do Construtor, primeira franquia brasileira especializada na locação de máquinas e equipamentos de pequeno porte para a construção civil, atribui a melhoria no segmento de construção momento da economia brasileira. Segundo ele, a conjuntura desafiadora levou o público a dar mais valor para o conforto do que ao gasto com supérfluos. Spina explica que em 2019 houve um aumento de 24% das vendas e a maioria (60%) da clientela são pessoas físicas. “São donos e donas de casa que estão realizando pequenas reformas, adequações e manutenções em suas residências, já que temos muitos equipamentos de pequeno porte. Ou seja: quem não troca de casa faz melhorias”, aponta.

No segmento de vestuário, o segundo com maior alta, a razão para o crescimento é a procura do consumidor por marcas que “estejam cada vez mais preocupadas em democratizar a moda de forma a aliar qualidade e durabilidade com preço justo”, segundo o diretor de expansão do Grupo Hope, Elton Deretti. Ele também destaca a aproximação das marcas com os clientes, por meio de lojas on-line, pontos de vendas diferentes dos shoppings a fim de facilitar o acesso aos produtos e proporcionar uma nova experiência de consumo.

Segundo a ABF, a inflação baixa  encoraja as pessoas a consumirem mais. “Com as taxas e juros em queda, as pessoas estão dispostas a consumir um pouco mais. É isso que pode fazer o crescimento”, aponta Maia. O estudo de desempenho do franchising também revela a expectativa de fechar o ano em 7%. “Mas pode ser que cheguemos a 8%”, estima André Friedheim, presidente da ABF. Ele acrescenta que a melhora do quadro econômico geral e, principalmente, as reformas estruturantes, serão os fatores decisivos para a acelerar o crescimento do franchising. 

» Congresso atualiza lei do franchising
O Senado Federal aprovou em 6 de novembro o marco regulatório do franchising, atualizando a lei federal 8.955/94, que dispunha sobre os contratos de franquias, mas ainda precisa do aval presidencial. Segundo a senadora Kátia Abreu (PDT-TO), que relatou a proposta na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o novo marco contribui para a modernização da lei gerando maior segurança jurídica entre as partes ao assinarem um contrato. “De acordo com a Associação Brasileira de Franchising (ABF), o setor de franquias movimentou R$ 174,84 bilhões em 2018. Este crescimento só pode ser explicado pela competência e obstinação. Hoje, na verdade, os franqueados e franqueadores querem uma harmonia de convivência. Acabou aquela relação de patrão e empregado. Na verdade, são parceiros tanto os franqueadores como os franqueados, trabalhando em união pela comunicação, pela divulgação dos seus produtos e de suas lojas, e hoje nós somos o quarto no mundo em termos de tamanho do franchising”, afirmou a senadora.

Mercado promissor


Fabiana Hamada, consultora da Goakira, especializada no atendimento de franquias e empreendedorismo, afirma que as projeções para o setor são muito boas graças ao aumento de novas marcas e à procura por modelos de franquias. “A tendência é aumentar com a estabilidade econômica. Haverá crescimento em todos os segmentos”, analisa.

No entanto, Paulo Mendonça, consultor da empresa Ponto de Referência, recomenda cautela. “A pessoa precisa escolher a melhor maneira de vender o seu produto. Por exemplo: uma fábrica pode utilizar o modelo de franquia para fazer o escoamento da produção. Porém, a pessoa deve, acima de tudo, se questionar: eu quero isso para a minha vida? Abrir um modelo demanda muito esforço e relacionamento”, alerta.

Wilson Poit, diretor-superintendente do Sebrae de São Paulo, destaca a perspectiva de empreendedor nesse setor: por oportunidade ou por necessidade. Segundo ele, o primeiro é quem tem uma ideia e quer investir nela, o segundo é quem perdeu o emprego ou está entrando no mercado. Na avaliação dele, o momento é favorável para empreender. “Quem vai gerar os verdadeiros empregos são as pequenas e médias empresas. Porém, quem está começando o negócio próprio precisa de muita disciplina e é necessária uma mentoria para direcionar a pessoa”, aconselha.

Hamada também salienta que é preciso observar o perfil do investidor. “Quem quer ser franqueado e não tem muita experiência, o ideal é uma marca e um modelo testado, é para alguém que busca segurança, pois é menos arriscado. Agora, se você é uma pessoa criativa e quer criar seu próprio modelo, invista na sua própria marca”, conclui.

Do consultório à escola de inglês


De dentista a franqueador: em 15 anos, André Belz nunca fechou uma única escola da franquia Rockfeller idiomas. Após voltar de um intercâmbio aos 16 anos, André fez vestibular e passou para odontologia, que era tradição na família. Entretanto, a entrada na faculdade demoraria mais um semestre e, por isso, a mãe dele sugeriu dar aula em cursinho de inglês. Ele se inscreveu em uma vaga, mas ao chegar ao local, o serviço era de vendedor. Para não ficar ocioso, resolveu aceitar. 

Após o período, André se matriculou na faculdade e continuou trabalhando onde, demonstrando suas habilidades como professor, começou a dar aulas. Em pouco tempo, já era o coordenador do curso na unidade. Após alguns anos, já no fim do curso de odontologia, as dificuldades econômicas fizeram a escola de inglês fechar as portas, o que gerou uma janela de oportunidade. André, que chegou a montar um consultório de odontologia, sentou com alguns donos do local e outros amigos e resolveram mudar toda a estrutura acadêmica da empresa. E juntando todos os recursos entre eles, nasceu a Rockfeller idiomas, em 2004. Quatro anos depois, o modelo de franquias se espalhou para todo o Brasil. Hoje, a marca tem 43 escolas espalhadas pelo país e a meta é chegar a 60 unidades em 2019 e cem, em três anos.

Em Brasília, a escola funciona há dois anos e conta com um ponto, na Asa Norte e outro em fase de implantação. Até agora, a rede faturou, em todo o Brasil, R$ 28,3 milhões, em 2018 foi R$ 31 milhões. Para o fim do ano, a previsão é fechar até R$ 34 milhões.
 

Franquia de estágios


Após perceber que os estágios que fazia na área de direito não a preparavam para o mercado de trabalho, Poliana Ferraz, identificou um novo nicho de mercado e decidiu investir na ideia de criar um ambiente satisfatório para a empresa e o aluno. Assim nasceu a Super Estágios, em 2009. Na época, com 24 anos, pegou R$ 1500 emprestados com a mãe, alugou uma sala no centro de Vitória (ES) e convidou um programador e uma secretária para trabalharem com ela. Poliana conta que no começo todo o trabalho era braçal, até mesmo para reduzir custos e assim foi construindo a empresa. Após um ano, o modelo expandiu para todo o Brasil, se tornando franquia em 2014. Em 10 anos a rede já conseguiu colocar mais de 1 milhão de pessoas no mercado de trabalho. 

Atualmente, a Super Estágios possui 41 franqueados no Brasil inteiro. Brasília conta com uma unidade da marca e 64 empresas clientes. O prazo médio do retorno de investimento são 18 meses. Atualmente, 2.003 estudantes estão ativos no banco de dados da marca, e cerca de 15.149 já possuíam vínculo com a Super Estágios no Distrito Federal. 
 

Vendas de porta em porta se tranformam em grande negócio


Em 2007 os irmãos Leandro e Leonardo Castelo, pediram demissão de um emprego estável como engenheiros em uma fábrica de refrigerantes e venderam seus carros para abrir seu próprio negócio. Saindo do interior de São Paulo para Joinville (SC), os irmãos iniciaram a produção de produtos de limpeza que se tornou hoje a gigante Ecoville. Junto do pai, alugaram um galpão para produzir as substâncias durante a noite e vender durante o dia. Os três chegaram a dormir lá por mais de seis meses para minimizar os custos. E essa batalha durou dois anos. “Nós tínhamos o sonho de fazer uma rede de produtos de limpeza similar a de cosméticos”, afirmou Leonardo. Cinco anos depois, abriram a primeira loja e o modelo de franquia foi lançado somente em 2016, oferecendo também microfranquias da marca. Hoje, a Ecoville tem mais de 300 unidades no país, com um parque industrial que produz e comercializa 250 tipos de artigos de limpeza, entre amaciantes, desengordurante e produtos para carro. Atualmente a Ecoville gera renda direta para mais de 1,3 mil famílias, a meta é de que até 2021, sejam mais de 6 mil.

A marca possui duas lojas em Brasília: uma em Taguatinga Norte  e uma no Plano piloto. Segundo os irmãos, cabem mais de 40 lojas na capital federal. A meta da empresa é empregar cerca de 160 pessoas até dezembro 2020, do DF.

Negócio em família: Mr. Cheney nasceu em casa

 

Com mais de 75 lojas espalhadas pelo Brasil, o Mr. Cheney, rede de franquias de cookies tipicamente americanos, começou na cozinha de Lindolfo e Elida Paiva em 2005. Após uma viagem missionária, Lindolfo conheceu o cookieman americano Jay Cheney - que inspirou o nome da marca - que passou sua receita especial. Elida testou a receita e começaram uma pequena produção, vendida para a vizinhança e profissionais locais. Um ano depois, com a ajuda de familiares e reservas financeiras, cerca de R$ 150 mil, abriram a primeira loja no bairro da Casa Verde, em São Paulo. Os primeiros anos foram mais difíceis, que inclusive fizeram Lindolfo voltar ao emprego de consultor, intercalando com a gestão do negócio. A partir de 2013 o modelo se tornou franquia, expandindo para o resto do Brasil, mas já tinha várias filiais em São Paulo. Além do sabor tradicional, com gotas de chocolate, o Mr. Cheney também oferece outras sobremesas, como Cookie Ice Mountain (com sorvete), Brownie, Apple Pie (torta de maçã americana), entre outras opções, sendo algumas sazonais, entre outras edições limitadas. Elida põe a mão na massa até hoje para desenvolvimento de novos produtos.

Desde 2017 em Brasília, a marca conta com duas lojas: uma no Parkshopping outra no Conjunto Nacional. Atualmente são 11 postos de trabalho, considerando ambas lojas. Em média, são vendidos 400 cookies por dia. No ano passado o faturamento foi de R$1,8 milhão.

 

Passo a passo


Dicas para um franqueado
1. Identifique o seu perfil. Faça uma autoanálise e avalie se o modelo de franquias é o seu negócio.
2. Defina objetivos. O que eu quero para a minha vida?
3. Certifique-se de ter recursos suficientes para o investimento e reservas para emergências.
4. Escolha o melhor modelo: você deve se identificar com o segmento e escolher, no mínimo, três marcas.
5. Após  a escolha, procure outros franqueados para saber se é um bom negócio. “A melhor maneira de saber se é bom é  o balcão do cara, ele vai te contar tudo mesmo”,  aconselha Paulo Mendonça.
6. Invista  em treinamento e não se dê por satisfeito somente pelos  conselhos do franqueador.

Dicas para um franqueador
1. Escolha o  melhor canal de vendas: uma fábrica e um micronegócio  também podem ser franquias.
2. Invista no relacionamento com o cliente/franqueado.
3. Defina bem os seus processos. Franquia significa padrão.
4. Faça  um plano de expansão racional e executável.
5. Preveja um fundo de propaganda e a gestão desses recursos.

Dicas para ambos
1. Faça análise mercadológica. A marca tem que ter diferenciais para vender e vencer as barreiras de mercado. Nada de modismo!
2. Tenha um analista financeiro.
3. Contrate um advogado que conheça o mercado de franchising.
4. Não relaxe! Nos primeiros meses esteja muito disposto, pois haverá muito trabalho.

*Estagiária sob supervisão de Carlos Alexandre de Souza

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