Publicidade

Correio Braziliense

Expansão: Alibaba quer fazer negócios muito além da China

Em nova abertura de capital, desta vez em Hong Kong, gigante chinesa arrecada US$ 13 bilhões. Empresa pretende usar recursos para desbravar outros mercados


postado em 21/11/2019 06:00

Sede futurista da Alibabaem Hangzhou, na China(foto: KELLY WANG/AFP)
Sede futurista da Alibabaem Hangzhou, na China (foto: KELLY WANG/AFP)
São Paulo – Algumas empresas parecem ter nascido para quebrar recordes. Nesta quarta-feira (20/11), a chinesa Alibaba, uma das principais companhias de comércio eletrônico do mundo, levantou cerca de US$ 13 bilhões em uma oferta pública de ações em Hong Kong, o que acabaria se tornando a maior venda de ações na região em nove anos. Não foi a primeira marca a ser quebrada pela empresa. Em 2014, sua listagem na Bolsa de Nova York entrou para a história como a maior oferta pública inicial de todos os tempos, movimentando impressionantes US$ 25 bilhões.

A megavenda de ações é simbólica, por diversos motivos. Ela ocorreu num período em que a economia de Hong Kong tem sido afetada por meses de protestos cada vez mais violentos e um crescente sentimento contra a influência chinesa na região. Além disso, a investida da Alibaba agradou às autoridades chinesas, que viram muitas de suas maiores empresas privadas migrar para o exterior em busca de capital.

“O sinal emitido pela Alibaba é bastante claro”, diz o consultor Igor Correia dos Santos, especialista no mercado asiático. “É como se a empresa estivesse mostrando para os investidores que, apesar da onda de manifestações violentas em Hong Kong, é para lá que o dinheiro deve ser destinado.”

O especialista destaca que a listagem de ações em Hong Kong aproxima o Alibaba do seu mercado doméstico e, obviamente, dos investidores chineses. Eles podem, graças a diversos acordos fechados com a ex-colônia britânica, comprar e vender ações como se estivessem fazendo negócios na própria China.

Em comunicado distribuído ao mercado, porém, a Alibaba informou que pretende usar os recursos gerados pela oferta de ações para desenvolver ainda mais a sua oferta de produtos, além de investir em segmentos como computação em nuvem e mídia digital.

Outro objetivo da empresa é avançar no cenário internacional e diminuir sua dependência do mercado chinês. De acordo com os mais recentes dados disponíveis, o comércio internacional representa apenas 7% das receitas totais do Grupo Alibaba, o que evidencia a enorme oportunidade de crescimento no exterior.

Para avançar no mercado internacional, a empresa deverá encarar a concorrência da Amazon. Os dois titãs de comércio on-line têm muito em comum. Grande parte das receitas das duas gigantes é proveniente de produtos eletrônicos e ambas investem pesado no desenvolvimento de novas tecnologias.

Apesar do esforço para desbravar novos mercados, a Alibaba vem enfrentando uma série de obstáculos. O primeiro deles é o preconceito contra empresas e produtos chineses, ainda bastante enraizado no mundo ocidental. Outra dificuldade enfrentada pela gigante é a operação logística. Embora eficiente, ela não se compara à Amazon, que tem planos para, em breve, entregar qualquer produto, em qualquer lugar do mundo, em no máximo dois dias. Metas assim estão bastante distantes da realidade do Grupo Alibaba.

No mercado chinês, no entanto, não há rival que chegue perto. A Alibaba conta com um portfólio de 674 milhões de clientes na China, uma enormidade que corresponde ao triplo de toda a população brasileira. No terceiro trimestre de 2019, sua participação de mercado no comércio eletrônico chinês chegou a 60%, o que é ainda mais impressionante diante da crescente concorrência.

“De fato, o domínio avassalador da Alibaba na China é algo marcante”, diz o consultor Igor Correia dos Santos. “O país se tornou um dos mais inovadores do mundo e todos os anos surgem centenas de empresas com novas tecnologias que tentam abocanhar o mercado on-line do país. Mas ninguém sequer chega perto de ameaçar a Alibaba.”

Caminho livre


A Amazon já reconheceu o fato de que, para competir com o Alibaba na China, será obrigada a investir uma quantia enorme de dinheiro — e, mesmo assim, é pouco provável que a investida dê certo. Por isso, a empresa de Jeff Bezos está se afastando da China para concentrar seus projetos em outras regiões do planeta, deixando, assim, o caminho livre para a Alibaba manter seu predomínio no país da muralha.

Fundada em 1999 pelo excêntrico Jack Ma, um estudante de matemática e pedagogia apaixonado por críquete e corridas de cachorros, que até os 30 anos não sabia direito o que fazer da vida, a Alibaba rapidamente se tornou um fenômeno na China.

A empresa nasceu com a promessa de vender tudo no ambiente on-line — tudo mesmo. No AliExpress, um dos 10 sites do grupo, são vendidos produtos como perucas, esmaltes, cafés, eletrônicos, bonecas, livros, pneus, ferramentas e quase tudo o que é possível imaginar.

O Grupo Alibaba conta atualmente com diversas empresas em seu portfólio. Além do site AliExpress, presente em mais de 200 países e em nove idiomas diferentes, o grupo controla as empresas Taobao (site de compra e venda entre consumidores), Tmall (portal de compra e venda entre pequenas empresas), Alipay (sistema de pagamento pela internet parecido com o PayPal), e Aliyun (que oferece armazenamento de dados em nuvem).

“Minha grande sacada foi não ter desistido quando parecia impossível sobreviver”, disse Jack Ma em uma palestra recentemente. “Não desisti nem quando todo mundo me dizia que seria loucura continuar.” Ele, obviamente, estava certo. Aos 55 anos, Ma tem uma fortuna estimada em US$ 41,8 bilhões, o que o tornou o homem mais rico da China.

Jack Ma deixou a presidência da Alibaba em setembro passado, depois de amealhar dinheiro e fama suficientes para torná-lo um mito do universo empreendedor chinês. Sua saída vinha sendo planejada há dois anos, período dedicado principalmente para encontrar um sucessor. O nome escolhido foi o executivo Daniel Zhang, seu braço direito no grupo, que chegou a comandar as empresas Taobao e Tmall.

Zhang ganhou a admiração de Ma ao tornar o Dia do Solteiro, inventado pelo fundador do Grupo Alibaba, uma das datas mais importantes do comércio chinês. Foi Zhang quem decidiu usar a estratégia de fazer shows ao vivo na TV para oferecer ofertas simultâneas nos diversos sites do Grupo Alibaba, uma ideia tão bem-sucedida que passou a ser copiada por empresas de diversas partes do mundo. No Brasil, o Magazine Luiza vai fazer algo parecido na próxima Black Friday.

“Você nunca deve ter uma cópia de Jack Ma”, disse o próprio, na ocasião de sua saída da empresa. “Um Jack Ma é demais para uma única companhia. Por isso, escolhi Zhang. Sob diversos aspectos, ele é melhor do que eu. A começar pela capacidade incrível de tornar uma simples ideia algo realizável e lucrativo.”

Valores superlativos do grupo alibaba


674: milhões de clientes na China, mais do que o triplo da população brasileira

60%: de participação no mercado chinês de comércio eletrônico

86,8: mil funcionários

US$ 376,8: bilhões de faturamento em 2019 (estimativa), o equivalente ao PIB de Israel

US$ 41,8: bilhões é a fortuna pessoal de Jack Ma, seu fundador e homem mais rico da China

As maiores aberturas de capital de todos os tempos


» Alibaba (2014): US$ 25 bilhões
» Agricultural Bank of China (2010): US$ 22,1 bilhões
» Industrial and Commercial Bank of China (2006): US$ 21,9 bilhões
» Visa (2008): US$ 19,7 bilhões
» NTT Docomo (1998): US$ 18,4 bilhões
» General Motors (2008): US$ 18,1 bilhões
» AIA Group (2010): US$ 17,8 bilhões
» Enel (1999): US$ 17,4 bilhões
» Facebook (2012): US$ 16 bilhões
» Deutsche Telekom (1996): US$ 13,5 bilhões

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade