Publicidade

Correio Braziliense

Declarações de Guedes causam novo recorde no dólar

Em seminário no auditório do Correio no final da tarde, o presidente do Banco Central, Roberto Campos, deixou claro que a autoridade monetária vai continuar intervindo no mercado de câmbio se for necessário


postado em 26/11/2019 21:46

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Depois de chegar a R$ 4,27, o dólar fechou a R$ 4,23, com alta de 0,59% e novo recorde de cotação da moeda americana. O dólar futuro, com vencimento em dezembro, teve alta de 0,27%, e fechou a R$ 4,24. O Banco Central (BC) chegou a fazer duas intervenções para conter a moeda. Em seminário no auditório do Correio no final da tarde, o presidente do Banco Central, Roberto Campos, deixou claro que a autoridade monetária vai continuar intervindo no mercado de câmbio se for necessário.

 

“A política monetária se faz com juros, o câmbio é flutuante. As intervenções que temos feito são para atenuar movimentos fora do normal”, disse durante o seminário Correio Debate: Desafios para 2020 — O Brasil que nos aguarda.  Pela manhã, o BC vendeu dólares à vista com taxa de corte de R$ 4,2320 e à tarde, R$ 4,2390. O lote mínimo foi de US$ 1.000.000,00.   

 

Em trajetória de alta desde a frustração causada pelo leilão do pré-sal no início do mês, o  pico de hoje na cotação da moeda se deu devido à reação do mercado a declarações dadas pelo  ministro da Economia, Paulo Guedes.

 

Em Washington, o ministro disse que não está preocupado com o dólar acima de R$ 4,20 e que "é bom se acostumar com o câmbio mais alto e juros mais baixos por um bom tempo”. Outra frase de Guedes, que causou instabilidade, foi em referência ao Ato Institucional nº 5, o mais autoritário da ditadura militar. “Não se assustem se alguém pedir o AI-5 em reação a quebradeira na rua”, disse a jornalistas, ainda em Washington. Mais tarde, Guedes tentou consertar a fala, ao dizer que a democracia brasileira não admitiria repressão, mas houve reação dos presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, o que causou nervosismo político refletindo, também, no mercado.  

 

A alta do dólar este ano responde a várias razões de origem nacional e internacional, como remessas de lucro de empresas para suas sedes no exterior, redução do saldo da balança comercial no Brasil, além de turbulências políticas internas e no exterior, como as ondas de protesto na América Latina, que assustam investidores que buscam mercados mais estáveis. Outra razão de instabilidade internacional é a disputa comercial entre os Estados Unidos e a China.   

Fuga de Dólares 

Nos últimos cinco meses, as reservas internacionais brasileiras tiveram redução de US$ 22,7 bilhões e nos últimos 12 meses, já saíram do país US$ 40 bilhões. Segundo relatório do banco suíço UBS, se anualizada, a saída de dólares dos últimos três meses  somaria US$ 75 bilhões. De acordo com o último dado disponível do BC, o volume das reservas internacionais somava US$ 369,8 bilhões em 18 de novembro, ou seja, antes das intervenções feitas hoje pelo Banco Central para conter a alta das moeda. O BC não divulgou o valor das operações totais de hoje. 

 

Uma das razões para a saída das dívidas é a queda da taxa de juros, que atualmente está em 5% ao ano, a mais baixa desde 1999, mas com perspectivas de fechar 2019 em 4,5%, de acordo com o Comitê de Política Econômica (Copom) do BC. Com rendimentos mais baixos, investimentos estrangeiros buscam outros mercados mais seguro ou mais rentáveis. 

 

Tony Volpon, economista-chefe do UBS, apontou como causas para a fuga de dólares o desastre do rompimento da barragem Córrego do Feijão, em Brumadinho, no início do ano; a moratória da dívida argentina em setembro, além da instabilidade econômica global. “Não tem uma causa única, é uma conjuntura de causas direcionadas. Há uma questão estrutural e há coisas pontuais, que não têm a ver com o Brasil. Tem havido uma saída de dinheiro de mercados emergentes”, disse. 

 

 

 

Para ele, o crescimento econômico é que vai anular parte do efeito negativo que a queda dos juros e as pressões internacionais estão exercendo sobre o preço da moeda americana. “Eu acho que a grande questão do câmbio é se vai ter crescimento ou não. Se sairmos do atual patamar de crescimento de 1% para 2,5%, deve haver um impacto positivo sobre o real”, disse o economista, que aposta em uma taxa de câmbio de R$ 3,95 no fim do ano, baseado na expectativa de queda do dólar mundialmente.

 

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade