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Correio Braziliense

Sobretaxa para o aço é nova frustração para o Brasil na aproximação com EUA

Justificativa para o anúncio do presidente norte-americano, feito via Twitter, é ''desvalorização cambial artificial''. Medida pega governo e exportadores de surpresa e se soma às demais contrapartidas não cumpridas pelos Estados Unidos


postado em 03/12/2019 06:00

(foto: Brendan Smialowski/AFP - 19/3/19)
(foto: Brendan Smialowski/AFP - 19/3/19)
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pegou o governo brasileiro e os exportadores de surpresa, nesta segunda-feira (2/12), ao anunciar que pretende sobretaxar o aço e o alumínio do Brasil e da Argentina após a constante desvalorização no câmbio. A medida deixou a indústria nacional preocupada, pois vem na contramão do acordo bilateral firmado entre os dois países em março, quando o presidente Jair Bolsonaro realizou a visita oficial a Casa Branca. Com isso, o Brasil fica sem as esperadas contrapartidas para a abertura do mercado brasileiro de etanol para os EUA e, para piorar, engrossa o rol de frustrações do governo de uma maior aproximação comercial. Washington não apoiou o Brasil para entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) neste ano e muito menos deu o aval esperado para a carne in natura.


“Brasil e Argentina desvalorizaram fortemente suas moedas, o que não é bom para nossos agricultores”, escreveu Trump no Twitter. “Portanto, com vigência imediata, restabelecerei as tarifas de todo aço e alumínio enviados aos Estados Unidos por esses países”, completou. Os EUA são os maiores importadores do planeta. O presidente norte-americano também pediu ao Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) para “agir da mesma forma” para que outras nações não aproveitem mais o dólar forte “desvalorizando ainda mais suas moedas”.

A divisa brasileira tem perdido força, assim como a maioria das moedas dos emergentes exportadores, devido à queda dos preços das commodities como reflexo da desaceleração do comércio global provocada pelas tensões entre EUA e China. Em novembro, o real acumulou queda de 6%, pelas estimativas do Itaú Unibanco. Essa desvalorização, entretanto, também está relacionada às tensões internas e na América Latina, à piora nos dados do balanço de transações correntes do Brasil, e às declarações polêmicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre câmbio e AI-5 na semana passada, que fez o dólar bater vários recordes, de acordo com analistas e economistas.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) viu com preocupação o fato de Trump acusar o governo brasileiro de manter a desvalorização do real de forma artificial e, assim, justificar barreiras ilegais às exportações brasileiras de aço e alumínio. “O real, no valor que está, pode trazer benefícios para alguns setores exportadores, mas prejudica quem importa insumos”, disse o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Abijaodi.

Retaliação

Os EUA são um dos maiores destinos do aço brasileiro. Em março, Trump havia criado uma sobretaxa de 25% para as importações do produto e de 10% para as de alumínio. No caso do Brasil, havia feito um acordo para a retirada durante o encontro entre os dois presidentes. O Instituto Aço Brasil recebeu a decisão de Donald Trump de restaurar as tarifas “com perplexidade”. Em nota, frisou que a decisão de taxar o aço brasileiro como forma de “compensar” o agricultor americano “é uma retaliação ao Brasil, que não condiz com as relações de parceria entre os dois países”.

Pela manhã, o presidente Jair Bolsonaro tentou minimizar a volta da sobretaxa e afirmou que pretendia telefonar para a Casa Branca. “Não vejo como retaliação, vou conversar com ele (Trump) para ver se não nos penaliza com a sobretaxa no preço do alumínio”, disse.

Mais tarde, o Ministério das Relações Exteriores informou que o governo brasileiro estava em contato com interlocutores em Washington para tratar do assunto. O titular da pasta, Ernesto Araújo, afirmou que a medida “não preocupa”. Mas admitiu que o governo quer entender os detalhes, visto que a única informação é a do tuíte de Trump. “Nossos colegas em Washington estão conversando. Com muita calma vamos chegar a um entendimento sobre isso”, comentou o chanceler. Segundo ele, Bolsonaro não ligará para Trump “por enquanto”.

Sem telefonema

No fim do dia, o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros, confirmou que Bolsonaro não faria a ligação prometida. A justificativa foi de que o “o momento é inapropriado”, visto que o presidente brasileiro “não tem todos os dados” sobre a medida anunciada pelo norte-americano. “Ainda não temos a profundidade devida sobre o tema para tomar decisão de pronto. É lógico que o presidente acompanha com interesse, visto que é fator importante para o equilíbrio da balança comercial.”

Na avaliação do economista Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora de Câmbio, Trump percebeu que o Banco Central demorou para atuar no mercado de câmbio e conter a desvalorização do real. “As exportações brasileiras estão em queda, principalmente, as de produtos manufaturados, em meio à crise na Argentina, um dos maiores importadores desses itens nacionais. Para o governo, não é ruim que a moeda se desvalorize, pois o país recupera um pouco de competitividade”, destacou.

Carolina Chimenti, vice-presidente assistente da Moody´s, avaliou que a restauração de tarifas de importação nos EUA para o aço do Brasil teria implicações distintas para produtores brasileiros. “Exportadores de produtos semiacabados seriam os mais afetados, uma vez que esse produto é o mais exportado para o mercado americano”, afirmou. Segundo ela, as siderúrgicas CSN e Usiminas não possuem grande exposição ao mercado norte-americano e Gerdau “poderia até se beneficiar de um maior protecionismo no mercado dos EUA” dado que a operação da empresa naquele país seria mais rentável “dependendo de quais produtos forem taxados”.

 

 

 

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