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Correio Braziliense

Indústria do aço e alumínio criticam Trump por anúncio de taxas

Para eles, o líder norte-americano estaria buscando travar o processo de impeachment ou turbinar a reeleição


postado em 03/12/2019 06:00

(foto: Abal/Divulgação)
(foto: Abal/Divulgação)
São Paulo — Desespero de quem enfrenta um processo de  impeachment ou uma jogada para tentar a reeleição? Essas são as hipóteses apontadas por especialistas e representantes da indústria do aço e do alumínio para tentar explicar o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o  retomo das tarifas de importações dos metais produzidos no Brasil e na Argentina. Executivos afirmam que o presidente dos EUA fez declarações equivocadas sobre a taxação dos produtos e a desvalorização das moedas dos dois países. 


Jair Bolsonaro, fã declarado de Trump, a quem endereçou a frase “I love you” no fim de setembro, em encontro na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, parece mais uma vez não ter contado com a reciprocidade esperada. Ainda assim, depois de ser informado sobre a decisão do republicado, declarou a uma rádio que telefonaria para o colega e que estava confiante de que ouviria as preocupações do Brasil.

O ministro da Produção da Argentina, Dante Sica, declarou que o anúncio de Trump foi "inesperado" e que estava buscando negociações com autoridades dos EUA. Já o Ministério das Relações Exteriores da Argentina informou que iniciará negociações com o Departamento de Estado dos EUA. O tweet de Trump também pressionou novamente o Federal Reserve a reduzir as taxas de juros para que os países "não aproveitem mais nosso dólar forte. Taxas mais baixas e afrouxamento – FED!”

Trump tem insistentemente pedido que o FED (sigla em inglês do banco central dos EUA) reduza as taxas para menos de zero, mas vem encontrando relutância por parte dos formuladores de políticas do BC, que têm um próximo encontro marcado para os dias 10 e 11 de dezembro.

Em março, Trump já havia anunciado a imposição de uma sobretaxa de 25% sobre as importações de aço e de 10% sobre as de alumínio de vários países, incluindo o Brasil – o maior exportador de aço para os EUA. "Nossas indústrias de aço e alumínio foram dizimadas por décadas de comércio injusto e políticas ruins de países ao redor do mundo. Nós não podemos mais deixar que tirem proveito do nosso país, de empresas e de trabalhadores", escreveu o presidente em sua conta no Twitter.

Naquela ocasião, o anúncio gerou uma grande polêmica em todo o mundo. Até os próprios americanos criticaram a medida e argumentaram que a barreira tarifária a essas matérias-primas poderia ter impacto sobre o preço de automóveis, de eletrodomésticos e de outros produtos, o que levaria a uma pressão negativa sobre a inflação do país. Na época, Trump aceitou estabelecer cotas de importações para o aço, mas sem a sobretaxa.

Meses depois, em agosto, pressionado também pelas próprias empresas americanas, o presidente americano recuou e decidiu flexibilizar a política das sobretaxas. O republicano autorizou a entrada de aço e alumínio em território americano em quantidade acima das cotas livres dessas taxas, desde que ficasse comprovado que o produto não era feito nos EUA em quantidade suficiente ou que fosse de qualidade insatisfatória.

Agora, Trump reabre a polêmica em um momento em que é alvo de um processo de impeachment no Congresso americano e em que tenta descolar essa ameaça e decolar sua pré-campanha eleitoral. Professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Vinícius Vieira avalia que Trump tenha tentado, com esse anúncio, falar à sua base eleitoral, fazendeiros dos cinturões agrícolas dos EUA.

"Como todo político buscando a reeleição, Trump quer cerrar fileiras em torno da sua candidatura,  ainda mais agora que está sujeito ao impeachment. Apesar de ser difícil que o impeachment passe pelo Senado, onde os republicanos têm maioria, como deve passar pela Câmara dos Deputados, as alegações contra o presidente são graves, por isso ele tenta se resguardar ao buscar apoio”, explica.

Vieira chama a atenção para outro fato nessa decisão de Trump: a falta de reciprocidade na relação entre Brasil e Estados Unidos. "É o mínimo que se espera de um parceiro confiável. Em um caso como esse, se são países amigos, caberia um aviso-prévio ao governo brasileiro”.

O professor de Relações Internacionais não descarta que o presidente americano possa ter apenas buscado um factoide com a promessa de sobretaxar o aço e o alumínio. Isso porque, explica, hoje não há uma real ameaça de aço brasileiro e argentino que se possa confirmar nos números das exportações dos países. “Pode ser um blefe ou maneira de chamar a atenção para os dois governos para garantir mais acesso ao agronegócio americano, que vem sentindo os impactos causados pela guerra comercial dos EUA com a China”.

Real e peso argentino

A declaração de guerra aos produtos do Brasil e da Argentina, sob o pretexto de que os dois países manipulariam propositalmente suas moedas para ter benefícios nas exportações, é apontada como errônea por economistas. No Brasil, o Banco Central não controla o câmbio, que é flutuante. Na semana passada, quando a moeda americana chegou a seu maior valor nominal, o BC até ensaiou estratégias para conter a alta. Já na Argentina, o problema com o peso está na falta de confiança dos investidores em relação ao novo governo.

Entidade que representa o setor, o Instituto Aço Brasil comentou a decisão do presidente americano e reagiu ao argumento usado sobre o câmbio. A associação disse ter recebido a medida com “perplexidade”. "O câmbio no país é livre, não havendo por parte do governo qualquer iniciativa no sentido de desvalorizar artificialmente o real, e a decisão de taxar o aço brasileiro como forma de 'compensar' o agricultor americano é uma retaliação ao Brasil, que não condiz com as relações de parceria entre os dois países". Ainda segundo a nota, a decisão do governo terá reflexos na indústria produtora de aço americana, que precisa dos produtos semiacabados exportados pelo Brasil para poder operar suas usinas.

Milton Rego, presidente executivo da Abal, que representa a indústria do alumínio, lembra ainda que no caso desse produto metálico já há a incidência de uma sobretaxa de 10% desde 2018. A cobrança está em vigor até hoje. "O que Trump falou esta errado, ele fez confusão. A mesma coisa podemos falar sobre o comentário quanto a desvalorização das moedas. Isso é fruto de desconhecimento, porque aqui o câmbio é flutuante".

O representante da Abal acredita que Trump tenha tentado com a postagem no Twitter causar algum impacto em uma agenda eleitoral e reclama dos efeitos que suas declarações possam causar. “Os países já estão sob grande volatilidade por conta dos Estados Unidos, principalmente a China. Esse ambiente traz uma expectativa de crescimento menor, gera volatilidade do mercado financeiro e a desvalorização das moedas dos países. Só posso ler esse tweet do Trump como um exercício no sentido de colocar uma novidade em um ambiente eleitoral, para mostrar que está cuidando dos interesses dos Estados Unidos”, analisa Rego.

Efeito colateral  

Apesar da prometer que a decisão contra Brasil e Argentina seria imediata, até o fechamento desta edição não havia nenhum comunicado sobre a sobretaxa no site do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Roberto Dumas, professor de Economia Internacional do Insper, alerta para o efeito colateral que medidas como a anunciada por Trump podem gerar na própria economia americana.

"Além de uma decisão dessas não gerar emprego, vai prejudicar cerca de 5 milhões de trabalhadores das indústrias que compram o aço e o alumínio desses países. Se os produtos encarecerem por causa da sobretaxa, não haverá compra, não haveria produção e esses trabalhadores serão demitidos. Pode ser apenas um blefe, mas qual é o efeito disso nos planos de investimento das empresas?”, questiona Dumas.

O professor do Insper não acredita que a diplomacia consiga resolver anúncios como o que foi feito por Trump. Para o especialista, neste momento pré-campanha para reeleição, vai prevalecer a estratégia de tentar agradar ao eleitorado cativo. “Trump quer ser reeleito e vai manter o America First em seu discurso. Pode até ser que ele jogue para a plateia e depois volte atrás, mas aí a bobagem está feita. A cada tweet dele, o investidor e o empresário rasgam o Excel e têm de planejar de novo”.



 

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