Publicidade

Correio Braziliense

Estrangeiros estão cautelosos em investir no Brasil

O clima ainda é de desconfiança entre os donos do dinheiro. Por isso, reformas precisam andar mais rápido


postado em 03/12/2019 11:13

"É muito difícil o investidor estrangeiro vir aqui para provocar o aumento da atividade. Ele vem comprar empresas, ações em Bolsa, títulos de dívida, não vem para puxar a economia" José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, acredita que não há pacote de reformas estruturais que mude “de uma hora para outra” o cenário econômico do país. O clima ainda é de desconfiança, sobretudo entre os investidores estrangeiros. “As reformas necessárias para o Brasil mudar de patamar precisam ser contínuas e permanentes, de modo que, cumulativamente, seus efeitos se materializem de forma relevante. Ou seja, produtividade assim entendida na sua relação com reformas é uma coisa menos de longo prazo. Não se terá um pacote de reformas que vai virar o jogo de uma hora para a outra. Nem é essa a ideia”, avalia. Depois da aprovação da reforma da Previdência, o governo encaminhou ao Congresso um pacote de medidas para mudar profundamente a estrutura do Estado.

Para Gonçalves, a agenda de reformas que tem sido apresentada pelo governo é imprescindível, “absolutamente necessária”, por reduzir o custo de transação e auxiliar na avaliação de riscos e problemas econômicas do futuro. “Como economista de banco de investimento, tenho que imaginar para onde as coisas vão em diversos horizontes. De uns tempos para cá, essa discussão dos horizontes no Brasil mudou completamente: qualquer referência a curto prazo virou pecado e o assunto virou longo prazo, sustentável”, critica.

De acordo com ele, apesar de colocar “muita fé” na agenda de reformas, o mercado financeiro se preocupa com as dificuldades políticas referentes à tramitação dos textos. “É um conjunto muito ambicioso o que foi apresentado ao Congresso pós-reforma da Previdência. A convicção de que o governo abraça todos os projetos realmente não é total e ainda tem a questão do ano eleitoral. Em 2020, será muito difícil fazer qualquer tipo de reforma. Me parece que, considerando tudo isso, deve aumentar um pouco o grau de tolerância do mercado em relação ao (atraso no) andamento dessas reformas”, analisa.

Risco maior


Gonçalves acredita que será complicado o país ter uma “onda importante de investimento estrangeiro” sem sinais mais contundentes de crescimento. “É muito difícil o investidor estrangeiro vir aqui para provocar o aumento da atividade. Ele vem comprar empresas, ações em Bolsa, títulos de dívida, não vem para puxar a economia. Então, precisa enxergar a atividade se movendo. Por isso, pessoalmente, não vejo grande pacote de investimentos para gerar produtividade nem para entrar em infraestrutura”, afirma.

O economista lembra que o brasileiro comum, acostumado a comprar um Certificado de Crédito Bancário (CDB) ou colocar dinheiro na poupança, será convidado a assumir mais risco se quiser um retorno maior de suas aplicações. “Acho que é um pouco inevitável: uma parte de quem poupa alguma coisa vai assumir mais risco, mas acredito que o pessoal tem que ir com calma. Não dá para sair de um regime que você tem investimento em título público sem risco e achar que a situação com risco é muito confortável. Ela pode ser mais rentável, mas pode ser prejuízo na veia. Aqueles que têm condição de poupar alguma coisa, mesmo os que estão ocupados com uma atividade incerta, sem saber ao certo qual é a sua renda, terão dificuldades para assumir qualquer tipo de risco. Já em relação à questão política, vamos ter um monte de surpresa”, sugere.

Moedas

Diante das intervenções que o Banco Central vem fazendo para segurar a alta do dólar em meio a um movimento tumultuado no mercado de câmbio, o economista reforça que a desvalorização do real não é um fato isolado. Quase todas as moedas de países emergentes perderam força ante a divisa dos Estados Unidos. “Todas as moedas emergentes estão apanhando do dólar. É uma percepção mundial que diz o seguinte: os emergentes estão em uma situação mais difícil, salvo poucas exceções”, destaca.

Embora reconheça que a trajetória do deficit nas contas externas do país tem piorado, ele acredita que ainda exista folga para acomodar movimentos atípicos, sem risco iminente de uma crise cambial. Contudo, aposta em que o dólar continuará em um patamar elevado, como preconiza o Ministério da Economia. “Dólar abaixo de R$ 4 eu não conto faz tempo”, afirma o economista, que acredita que a moeda norte-americana fique entre próxima de R$ 4,20 até o fim do ano.

Outro cenário que chama a atenção de Gonçalves é o que trata de juros negativos, realidade em vários países. Ele acha importante a discussão sobre os motivos que levaram à queda recente da taxa básica brasileira (Selic), que está relacionada com os baixos investimentos. “O que está em risco é o crescimento da economia”, frisa. Ele defende a adoção de medidas de curto prazo pelo governo, como a retomada de investimento, para ajudar na recuperação econômica.

A falta de crescimento robusto não depende apenas da melhora da produtividade, como defende a equipe econômica, segundo o economista.  “Subordinar o investimento público ao teto de gastos não me parece o mais inteligente”, destaca. A sugestão é de medidas públicas que estimulem o investimento, “caso contrário, não haverá expansão econômica no curto prazo”. “Não estou falando que o governo não tenha que controlar o crescimento de despesa discricionária (não obrigatória). Mas ter um teto de gasto não implica gerar investimento (na economia)”, explica.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade