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Correio Braziliense

Educação faz a diferença

Sistema de ensino de baixa qualidade, mesmo com aumento dos gastos, trava a produtividade e o crescimento


postado em 03/12/2019 06:01

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
As perspectivas para educação e o mercado de trabalho não são positivas no longo prazo, porque o Brasil enfrenta problemas crônicos, como a desigualdade de oportunidades, e estruturais, como a estagnação da produtividade nos patamares de 1980, além de baixa qualidade do ensino e de aprendizagem. A constatação é do professor Naercio Menezes Filho, titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e da Academia Brasileira de Ciências.

Para justificar o pessimismo, o especialista apresenta vários dados. Numa comparação entre Brasil e Coreia, de escolaridade e produtividade, calculada pelo Produto Interno Bruto (PIB) por trabalhador, fica claro que o maior acesso à educação no país não representou ganhos produtivos no mercado de trabalho ao longo dos anos, ao contrário do que ocorreu na nação asiática. “De 1965 até 1980, dobramos a produtividade, mas não investimos em educação. De 1980 a 2010, o acesso à educação aumentou sem que representasse ganhos de produtividade, estagnada por 30 anos”, explica.

O motivo desse descompasso, segundo Menezes, é a baixa qualidade de ensino do Brasil. Conforme o professor, embora o gasto com aluno tenha triplicado, as notas são menores do que em 1995. “No quinto ano fundamental, melhorou o desempenho. No nono, a melhora é mais lenta. Mas, no ensino médio, as notas caíram. Ou seja, quem sai do ensino médio sabe menos do que sabia em 1995. Chega no mercado de trabalho com nota média muito baixa”, destaca. O agravante, segundo ele, é que os futuros professores, aqueles que manifestam interesse em seguir a carreira docente, têm os desempenhos mais fracos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Jovens

A falta de habilidade emocional contribui para o baixo aprendizado. “Mais de 70% dos jovens de 15 anos está abaixo do nível 2 do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, na sigla em inglês), pior patamar da pesquisa”, ressalta. Ao monitorar o desempenho dos jovens durante a prova, a falta de esforço fica evidente entre os brasileiros. Enquanto alunos da Coreia e Finlândia ficaram com uma média de 50% a 60% de acertos, com variações pequenas entre os períodos do exame, a performance dos brasileiros Brasil começa bem e cai, melhora no retorno do intervalo e volta a cair. “A média de acertos fica em 10%. Sendo que 60% nem abrem a questão antes da parada no meio da prova. Isso revela baixa habilidade emocional”, avalia.

A desigualdade de oportunidades é evidenciada nos dados de ocupação dos jovens. Menezes ressalta que 30% dos brasileiros com 18 anos não estudam nem trabalham, os nem-nem. “Isso tem a ver com o desemprego. A situação aumenta a probabilidade de a juventude entrar no crime”, alerta. A desocupação também é maior entre os jovens com ensino médio, embora mais pessoas tenham conseguido completar os estudos. “Antes, 25% dos alunos terminavam o ensino médio. Hoje, são 50%, mas chegaram no mercado de trabalho numa época de crise”, destaca o professor.

Ao desenhar a composição do desemprego, com taxa de 12% da população ativa, Menezes aponta que os grupos mais afetados são jovens e filhos que moram com os pais. “Pelo menos, vivem da renda familiar. Porém, o segundo grupo são os chefes de família, por isso, houve aumento de cônjuges entrando no mercado de trabalho”, revela. As mulheres aumentaram a taxa de permanência no emprego, ao compensar o desemprego dos chefes.

“Os jovens foram muito afetados. Começam a recuperar a taxa de permanência, mas principalmente na informalidade. No mercado formal, continua caindo”, assinala. Portanto, de acordo com o especialista, é uma recuperação precária do trabalho. “É o jovem que vai ser motorista de aplicativo, entregador de pizza, ambulante”, exemplifica.

Práticas gerenciais

Dentre os problemas estruturais que impedem o avanço da produtividade e a consequente melhora do emprego estão as práticas gerenciais das empresas, observa Menezes. “No Brasil, há uma parcela de companhias adotando práticas de forma atrasada em comparação com outros países. Talvez isso possa ser resolvido com a abertura comercial e mais competição no mercado, para forçar o setor corporativo a investir em capital humano e atualizar as práticas gerenciais”, pondera.

Estudos detectaram que, na indústria brasileira, os mecanismos de remuneração por desempenho e promoção de carreira são muito atrasados, argumenta o professor. “Aqui se sobrevive mesmo sendo ineficiente, nos Estados Unidos, não. É uma questão cultural muito forte. Precisamos de profissionalismo e meritocracia, para que os mais competentes e produtivos ganhem mercado. E não aqueles que buscam favores. Isso tem que mudar radicalmente”, defende. A mudança depende das novas gerações e de novos líderes, acrescenta.

“Sei que os dados apontam para um cenário pessimista, mas a situação não é boa. Mais do que as reformas apresentadas, é preciso investir na questão social, na primeira infância, para promover a igualdade de oportunidades, sobretudo entre crianças vulneráveis”, opina. Para o professor, a desoneração da folha de pagamento não é suficiente para aumentar o emprego. “Já tentamos isso e não deu certo. É preciso focar esforços na frente social, melhorar atendimento às crianças, aos mais pobres. Temos que pensar nas pessoas que não deram sorte ao nascer”, defende.

Saídas

Para mudar o quadro, Menezes diz que uma das medidas mais urgentes, para 2020, é reformular a gestão educacional no país. “É preciso ter um plano nacional de educação. Um sistema nacional de avaliação de forma que municípios, estados e o governo federal sentem-se juntos para organizar como vai funcionar a gestão da educação no país.  Hoje, as coisas são muito desorganizadas, cada município decide a política que acha melhor. Então, é preciso ter uma coordenação maior entre todos os entes para melhorar a gestão. Especialmente no ensino médio, que é onde o gargalo se encontra”, assinala.

No mercado de trabalho, Menezes assinala que será necessário avaliar os programas de qualificação do trabalhador. “Se gastou muito com programa de qualificação e treinamento, como o Pronatec, por exemplo, sem uma boa avaliação dos resultados. Então, não sabe o que funciona e o que não funciona. É necessário fazer uma avaliação do impacto desses programas na carreira dos jovens e dos adultos, especialmente os que estão precisando se requalificar por causa do desemprego. E aí, seguir uma nova geração de programas baseados em evidências para ajudar na inserção dessas pessoas no mercado de trabalho.”

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