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Correio Braziliense

PIB positivo no terceiro trimestre eleva as expectativas para 2020

Crescimento do Produto Interno Bruto no terceiro trimestre supera expectativas, com alta do consumo das famílias e dos investimentos. Cenário, contudo, ainda é de avanço lento. Inflação controlada, queda dos juros e liberação do FGTS ajudaram a expansão


postado em 04/12/2019 06:00

(foto: Kleber Sales/CB/D.A Press)
(foto: Kleber Sales/CB/D.A Press)
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do terceiro trimestre de 2019 cresceu 0,6% em relação aos três meses imediatamente anteriores, totalizando R$ 1,8 trilhão. O avanço foi puxado pelo consumo, conforme dados divulgados nesta terça-feira (3/12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou acima das expectativas do mercado, que previa alta entre 0,2% e 0,5%. Com isso, analistas começaram a elevar as estimativas de expansão do PIB deste ano e do ano que vem.

A gerente de Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, Claudia Dionísio, avaliou que a economia está se recuperando “de forma gradual”. “O processo de retomada da atividade está lento. Os dados mostram que estamos voltando ao patamar do terceiro trimestre de 2012, e que o PIB está ainda 3,6% abaixo do ponto mais alto registrado no primeiro trimestre de 2014”, destacou.

Economistas avaliam que a alta de 0,8% no consumo das famílias no terceiro trimestre foi puxada, principalmente, por condições macroeconômicas mais favoráveis, como inflação controlada e juros básicos no menor patamar da história, o que contribuiu para uma melhora no mercado de crédito. O início do processo de liberação das contas ativas e inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e do PIS-Pasep, em setembro, também ajudou a aquecer o consumo. “O efeito do FGTS foi pequeno no terceiro trimestre, mas deverá ser maior no quarto, porque o governo antecipou o cronograma de saques para este ano”, explicou a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). O Ibre elevou de 2% para 2,2% a estimativa de crescimento do PIB de 2020 e manteve em 1,2% a projeção deste ano.

Claudia Dionísio reconhece que um ritmo mais acelerado do consumo das famílias, que representa 65% do PIB, precisa de uma melhora no mercado de trabalho e na renda do trabalhador. “O ritmo de geração de emprego é lento, em grande parte informal, mas é melhor isso do que o desemprego”, ressaltou.

Revisões e riscos

Após a divulgação do PIB, começaram as revisões. O Citibank elevou a expectativa de expansão deste ano de 0,7% para 1,1%. E, para o ano que vem, a estimativa subiu de 1,8% para 2,2%. No caso do Goldman Sachs, a previsão de 2019 passou de 1% para 1,2% e a de 2020, de 2,2% para 2,3%.

“A dinâmica do PIB está melhor na margem e mostra que a economia apresentou um ritmo de crescimento maior no terceiro trimestre. É uma boa notícia, mas é preciso ter cautela”, ponderou a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. Segundo ela, os modelos estão rodando um crescimento de 0,8% na margem do PIB do quarto trimestre. Ela revisou de 0,9% para 1,2% a previsão de expansão da economia neste ano e pretende corrigir a estimativa de 2020 dos atuais 1,8% para 2,1% ou 2,2%. “Existem duas fontes de risco que podem limitar essa expansão. A primeira é o cenário externo e um agravamento da guerra comercial entre China e Estado Unidos; a segunda, o ambiente político doméstico, que vai exigir muita coordenação para o governo avançar nas reformas complementares à da Previdência”, explicou.

Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, manteve as previsões, por enquanto. “Os resultados do terceiro trimestre consolidam nossas projeções para 2019 e reafirmam nossas estimativas para 2020, ainda muito amparadas pelo crescimento do consumo das famílias”, afirmou. Contudo, ele admite que 2,4% poderá ser o piso, se o governo conseguir um “aumento expressivo” nas concessões e nas privatizações no próximo ano.

Em relação ao terceiro trimestre de 2018, o crescimento do PIB foi de 1,2%. Essa taxa coloca o país abaixo da média mundial, de 2,5%, e na 43ª colocação em um ranking de 54 países elaborados pela Austin Rating. A lista é liderada por Armênia e tem México e Hong Kong na lanterna. O país latino-americano mais bem colocado foi o Chile, em 15º lugar.

Indústria

Pelo lado da oferta, a alta do PIB foi puxada pela agropecuária, que avançou 1,3%; pela indústria (0,8%); e por serviços (0,4%). A indústria extrativa registrou alta de 12%, devido, principalmente, ao crescimento da extração de petróleo. A construção civil mostrou recuperação, crescendo 1,3% no trimestre. No entanto, a indústria de transformação encolheu 1%, refletindo a forte queda nas exportações.

O presidente Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, lembrou que os embarques para a Argentina, principal destino de produtos industrializados nacionais encolheram 50% no ano. “Como não tem reservas, o governo argentino conteve as importações para gerar superavit comercial na balança, e isso afetou o Brasil.”

O setor de confecções também não tem muito o que comemorar. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Valente Pimentel, adiantou que a expectativa da entidade é fechar 2019, em queda de 0,5% a 0,7%.. Para ele, o crescimento em 2020 dependerá do avanço das agendas de reformas, principalmente, a tributária, além da continuidade de medidas para a retomada da competitividade. “O ambiente internacional está incerto, com guerra comercial, América Latina passando por sérios problemas. Vamos ter que depender de nós mesmos para crescer”, afirmou.

Governo comemora resultado

O presidente da República, Jair Bolsonaro, celebrou o avanço de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre de 2019, em relação ao segundo. Na abertura do fórum O controle no combate à corrupção, organizado pela Controladoria-Geral da União (CGU), Bolsonaro comentou que, embora o resultado tenha sido “inesperado” para os analistas econômicos, para ele, foi fruto do trabalho conduzido pelo governo.

“É algo inesperado para os analistas econômicos, mas, da nossa parte, sabíamos que viria uma boa notícia e ela veio em uma boa hora. E ali, a equipe econômica, a nossa equipe econômica e de todos vocês, diz que a nossa previsão para o próximo trimestre é crescer. O Brasil está crescendo”, destacou.

O secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues disse que o aumento nos investimentos reforça que o crescimento econômico brasileiro está com maior qualidade. “É um PIB de mais qualidade, com trabalho transparente, conservador e com zelo fiscal”, afirmou.

Para Rodrigues, o resultado indica que a política de ajuste fiscal do governo começa a ter efeito. “São números extremamente importantes que mostram que zelar pela política fiscal, controlar despesas e buscar um equilíbrio nas contas públicas têm alto retorno para a sociedade. A economia crescendo, tendo uma nova dinâmica, responde positivamente naquilo que mais interessa: emprego e renda”, disse.

Com a contenção de gastos públicos, a equipe econômica do ministro Paulo Guedes defende um crescimento puxado pelo investimento do setor privado. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que representa os investimentos do país, registrou alta de 2% ante o segundo trimestre do ano. Na comparação com o terceiro trimestre de 2018, o avanço foi de 2,9%.

Setor privado alavanca o investimento 


O investimento privado ajudou na melhora do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, de acordo com gerente de Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, Claudia Dionísio. Segundo ela, metade da alta de 2% registrada entre julho setembro em relação aos três meses anteriores foi alavancada pela construção civil, que está “dando sinais de retomada”. “Os investimentos desse setor são destaques nos dados de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que registraram alta pelo oitavo trimestre consecutivo na comparação com o mesmo período do ano anterior”, disse.

O crescimento dos investimentos está relacionado com a queda de 0,4% nos gastos do governo na comparação trimestral, que tem aberto espaço para o investimento privado, na avaliação de André Perfeito, economista-chefe da Necton. “Dentro do espírito do ajuste ortodoxo em curso, os gastos do governo recuaram e, assim, se abre espaço forçosamente para a iniciativa privada”, comentou. Flávio Serrano, economista-chefe do Haitong Banco de Investimentos, classifica o avanço econômico do período como “superpositivo”. Para ele, o crescimento da taxa de FBCF “indica que há uma expectativa favorável do empresariado em relação ao crescimento futuro do país.

Confiança

A taxa de investimento em relação ao PIB ficou estável em relação a 2018, em 16,3%, no terceiro trimestre. “O aumento do investimento foi positivo e ajudou na melhora dos dados do PIB, mas ele vem crescendo muito pouco, e ainda deve demorar uns 10 anos para recuperar o patamar de 2013, pois a poupança interna ainda está muito baixa, em 13,5% do PIB. Se ela não cresce, o investimento também não cresce”, explicou a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria.

Para o investimento crescer de fato, é preciso que o governo recupere a confiança do empresário e crie condições para estimular o empreendedorismo, segundo os analistas. Pa Lucídio Carneiro, administrador de 31 anos, isso vem acontecendo e algumas medidas “desburocratizaram” o processo de abrir uma empresa nos dias atuais. Ele instalou um food truck especializado em hambúrgueres e sanduíches com camarão há três anos. Neste ano, está ampliando a loja física do Camarão Burger, localizada na Asa Norte, e contratou mais um funcionário. “As coisas estão melhorando significativamente para o pequeno empresário, porém, eu acredito que o melhor está ainda por vir.” De acordo com Lucidio, o comércio está, aos poucos, se estabilizando. “Estamos investindo muito pesado na nossa hamburgueria, queremos nos preparar para mais uma ampliação.”

 

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Colaboração de Gabriel Pinheiro.

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