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Correio Braziliense

Inflação aumenta expectativa em cima da reunião do Copom de hoje

Projeção do IPCA para 3,84% causa divergências quanto à taxa básica de juros, a ser definida a partir desta terça-feira (10/12) na última reunião do Copom de 2019. Especialistas estimam uma redução de 0,5 p.p., mas alertam para o impacto do aumento da carne


postado em 10/12/2019 06:00 / atualizado em 10/12/2019 01:17

(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)
(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)
Os economistas do mercado financeiro elevaram, pela quinta vez seguida, as expectativas para a inflação de 2019. De acordo com o relatório semanal do Banco Central (BC) Boletim Focus, a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 3,52% para 3,84%. Há um mês a previsão era de inflação de 3,31% para o ano. O avanço nas projeções da inflação e os resultados mensais do IPCA acima do esperado pelo mercado podem impactar as estimativas para a taxa básica de juros. O Conselho de Política Monetária (Copom) inicia nesta terça-feira (10/12) sua última reunião do ano para decidir a Selic, atualmente em 5% e com expectativa de redução para 4,5% ao ano.


Embora esteja abaixo do centro da meta, de 4,25% – com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo –, o avanço da inflação acumulada no ano até novembro para os 3,12% é um dos fatores que ajudaram a revisão para cima do mercado financeiro em relação à taxa para 2019. As revisões do mercado para a inflação não preocupam Adriano Gomes, sócio diretor da Méthode Consultoria. Segundo ele, os movimentos de alta foram pontuais e associados à disparada do câmbio. Por serem circunstanciais, também não deve afetar a decisão do Copom. “A inflação não muda a decisão do Copom, que está muito mais atrelada ao nível da atividade econômica. São altas pontuais de combustível, pão, carne. Porém, mesmo com esse movimento, a inflação, ao longo do próximo ano, continuará em torno da meta”, afirmou.

Gomes ressaltou, ainda, que dezembro é um mês de maior consumo, por conta do Natal, réveillon, férias e renda extra, como o 13º salário. “Todos os indicadores antecedentes apontam para isso, como papelão, energia elétrica. É natural acelerar a inflação no fim do ano. Seria preocupante se houvesse choque de oferta, mas a indústria tem um hiato de produção e pode atender ao crescimento da demanda”, explicou. Gomes acrescentou que o índice de confiança do empresário teve um aumento expressivo, o que aponta para a retomada da economia.

 

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Para o professor de MBAs da FGV Mauro Rochlin, o resultado de novembro e as revisões das projeções poderão, sim, impactar na decisão do Copom. “Acho que podem reduzir em 0,25 ponto percentual em vez de 0,5 p.p, como previsto antes. Talvez prefiram aguardar novos acontecimentos até a próxima reunião para chegar ao patamar dos 4,5% ao ano”, avaliou.

O presidente Jair Bolsonaro (Sem partido) disse durante live no Palácio do Planalto que a inflação no preço da carne, que ficou em 8,09% mês passado, ocorre por conta da “entressafra” e que os valores devem se autorregular. “Tô levando pancada sobre o preço da carne. Estamos em uma entressafra, vai diminuir esse preço, pessoal está investindo cada vez mais. Mas não é fácil você ser agricultor também. É natural, nesta época do ano, a carne subir por volta de 10%. Subiu um pouco mais, tendo em vista as exportações”, comentou.

Efeitos secundários

Há análises divergentes do otimismo do Planalto. Para o economista-chefe da Arazul Capital Rafael Leão Parallaxis, o choque visto em novembro no preço das carnes e de outras proteínas não será passageiro. “Acende a luz amarela do Copom para que ele atue em efeitos secundários. Ainda assim, as previsões estão bem abaixo do centro da meta. Acredito que isso coloca o BC no passo de se sentir confortável a cortar os 0,5 p.p esperados, mas parar por aí. Assim, seriam analisados com atenção os efeitos secundários da carne, do câmbio com o real mais desvalorizado”, explicou. Na avaliação de Parallaxis, a Selic só vai voltar a subir após a previsão de o IPCA alcançar o centro da meta. “Ainda está bem distante, a não ser que haja um choque descontrolado de preços, mas é algo que não faz parte do nosso cenário base”, acrescentou.

Assim como o IPCA do mês passado, que registrou alta de 0,51%, o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), teve expansão de 0,85% em novembro. No mês anterior, o IGP-DI ficou em 0,55%. O índice acumula taxas de inflação de 5,85% no ano e de 5,38% em 12 meses. O economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, afirmou que o IGP-DI veio acima do 0,76% esperado. “Entre os principais responsáveis por tal desempenho, destaca-se o avanço dos preços da carne bovina e da tarifa de eletricidade”, disse.

Perfeito ainda destacou outro índice que calcula preços ao consumidor que influenciou a revisão da inflação para 2019: o Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S) teve variação positiva em 0,74% na primeira semana de dezembro, 0,25 ponto percentual acima da última divulgação.

A Taxa Selic é o principal instrumento do Banco Central de controle da inflação. Se a inflação do país está elevada, o BC sobe a taxa de juros com a expectativa de desestimular os gastos do consumidor e o investimento das empresas. O movimento tem o objetivo de aliviar a pressão sobre os preços. Já uma inflação baixa permite que BC reduza a taxa de juros, a fim de estimular o consumo e os investimentos, acelerando, assim, a atividade econômica.

O Copom tem como objetivo estabelecer e definir as diretrizes da política monetária do país e garantir o cumprimento da meta de inflação, definida também pelo conselho. A estimativa de inflação para o ano que vem se mantém a mesma há seis semanas, em 3,60%. Para os anos seguintes, a previsão também não foi alterada, de 3,75% em 2021, e 3,50% em 2022. As projeções para 2019 e 2020 estão abaixo do centro da meta de 4,25% em 2019 e 4% em 2020. Para os próximos anos, o BC deve buscar a manutenção do IPCA em 3,75% para 2021 e 3,50%, para 2022. Em todos os anos, a margem de tolerância é de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

* Colaborou Ingrid Soares

Mérito de servidor 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, alegou que a reforma administrativa em estudo pelo governo virá no sentido de valorização do quadro atual do funcionalismo e da manutenção dos direitos adquiridos pelos servidores. “Mas pensamos no futuro. Vamos continuar dando essa estabilidade de emprego para quem entrou há apenas um ano? E se for um mau servidor? Queremos justamente que a opinião pública respeite o servidor que está atendendo bem e passou por uma avaliação”, afirmou.

Ele defende que a estabilidade não seja automática, mas conquistada pelo servidor após anos de boas avaliações no trabalho. “O funcionário tem que passar na peneira, ser bem avaliado, para não ficar com essa imagem que o servidor tem hoje na opinião pública. É um trabalho de reconstrução do País que envolve todas as dimensões”, completou.

Guedes voltou a criticar o que chama de gigantesca máquina perversa de transferência de renda do Estado, citando o uso dos bancos públicos por governos passados para alavancarem determinados setores da economia.

Otimista em relação às perspectivas de 2020, Paulo Guedes destacou ontem que a economia brasileira está em retomada. “Os sinais de recuperação da economia são visíveis. Ano que vem vai ser o dobro do crescimento deste ano”, afirmou. “Estamos em um caminho virtuoso, cada semestre que passa isso fica mais claro. Quem está contra isso que espere mais três anos e vote contra”, completou. 

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