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Correio Braziliense

Dedicação total faz a diferença na hora de manter o negócio

Confira histórias de sucesso de quem conseguiu driblar a crise e ainda crescer


postado em 26/12/2019 06:00 / atualizado em 26/12/2019 13:59

Inaiá Sant'ana, confeiteira, proprietária do Quitutices:
Inaiá Sant'ana, confeiteira, proprietária do Quitutices: "Sempre tive muita segurança e noção de que é preciso fazer as coisas sempre bem estruturadas, estudadas, pautadas, e, com meu negócio, não foi diferente" (foto: Pedro Santos/divulgaçao)
Em abril de 2016, a chef confeiteira Inaiá Sant’Ana iniciava uma nova etapa da sua vida: abriu a própria confeitaria em Brasília, voltada para um público de celíacos (intolerância ao glúten) e de alérgicos à proteína do leite. Com uma clientela bastante restrita e exigente, a nova empreitada começou a passos lentos, mas foi ganhando tração à medida em que eram realizados investimentos e análises de mercados. Naquele ano de estreia, o Produto Interno Brasileiro (PIB) recuou 3,6% no Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Apesar de toda dificuldade que a cercava, Inaiá seguiu firme e se dedicou bastante para manter seu sonho vivo e de pé. Diante da crise, não podia vacilar. Era preciso ter a certeza de onde estava se metendo. “Sempre tive muita segurança e noção de que é preciso fazer as coisas sempre bem estruturadas, estudadas, pautadas, e, com meu negócio, não foi diferente”, diz. E essa postura vale para hoje. “A todo momento, estou na confeitaria. Como tenho apenas uma loja, faço questão de acompanhar tudo de perto. Olho o movimento, observo o que está acontecendo e acompanho o mercado”, pontua.

Não é só. A receita de sucesso de Inaiá inclui um ingrediente preponderante: ter boas pessoas ao seu lado, sobretudo em momentos de dificuldades. É preciso ainda ter paciência. As pessoas precisam saber esperar os resultados. “Tenho a consultoria do Sebrae, uma consultoria particular e, recentemente, contratei um consultor financeiro, que me ajuda bastante. Sabemos que a crise ainda não acabou, mas, quando você está bem preparado, consegue enxergar o mercado em que você está, não tem como dar errado. Quando entrei nesse negócio, não tinha a opção de dar errado”. 

Cuidados

Comunicadora por formação, área que trabalhou por cerca de 15 anos, a chef largou tudo para se dedicar à gastronomia em 2014. Focou em aprender a arte da pâtisserie e realizou diversos cursos de especialização em preparos de pratos livres de glúten e lácteos. Começou testando as receitas em casa e, por três anos, trabalhou somente com encomendas para familiares e amigos. O incentivo para abrir a confeitaria veio do nascimento da filha, que apresentou sintomas de alergia ao leite. A empresária não queria que sua herdeira deixasse de comer doces por conta do problema.

A primeira loja da Quitutices era bem pequena e tinha apenas cozinha, balcão e quatro mesas. O carro-chefe da loja eram as encomendas. Como as guloseimas despertaram o interesse do público, muita gente passou a querer degustá-las no local. Inaiá, então, resolveu mudar de local e ir para um lugar maior, na Asa Sul. “O modelo de negócio que escolhi foi de uma única loja, a melhor do segmento, com segurança alimentar. Hoje, muitas pessoas pensam somente em crescer, e se esquecem de cuidar da empresa, o que é extremamente importante”, ressalta. Mais: “Investindo em quem está perto de você e não tratando seu funcionário apenas como um colaborador ou como um funcionário qualquer, você estará no caminho certo. Nada se faz sozinho nessa vida. É importante ajudar quem lhe ajuda”, receita.

Aprendizado

Com a crise econômica que o Brasil passou — a recuperação segue lenta —, os pequenos empreendedores temem pela instabilidade. Para a chef brasiliense Lídia Nasser, proprietária do Empório Árabe, não é diferente. Diante das turbulências na economia, ela precisou cortar o quadro de funcionários para tentar equilibrar as contas, que reduziu drasticamente. “Quem disser que nunca passou por uma crise de uma forma negativa, está mentindo. A recessão foi algo que abalou todo o país. Foi muito difícil. Enfrentamos queda de faturamento de mais ou menos 27% no primeiro ano da crise. Ficamos muito apreensivos”, conta, ao lembrar do período mais difícil.

Lídia salienta que teve de adiar vários planos, pois só tinha em mente tentar sair do vermelho. “Não consegui fazer os investimentos que gosto, no sentido de ampliar mais e diversificar os negócios, por conta da redução de pessoal. Isso foi um ponto que a crise me pegou de jeito, fiquei impossibilitada de fazer qualquer coisa”, afirma. Mas não desanimou. Neta de libaneses, a chef se interessou pelos sabores e temperos da Arábia ainda pequena. Nos almoços e jantares da família, ficava ao lado da avó paterna, Anitta Sertek Perides, para aprender a fazer pratos e doces da terra natal de seus familiares. O primeiro prato que conduziu sozinha foi arroz com lentilha.

O Empório Árabe começou em 2005, quando Miguel Nasser e Cleuda Perides, pais de Lídia, abriram um mercado de iguarias árabes em Taguatinga. Miguel queria colocar no Distrito Federal um pouco da cultura e da gastronomia do país de seus familiares. O projeto deu certo e, em poucos anos, o pequeno estabelecimento se transformou em dois restaurantes, um, em Águas Claras, outro, na Asa Sul.

Lídia reconhece que, com a crise, precisou mudar a forma de gerenciar os negócios. “Agora, somos mais criteriosos na compra de mercadorias. Criamos um departamento para cotar preços, que variam de forma absurda. Esse mecanismo faz com que a gente analise melhor as mercadorias e encontre um bom valor. Antigamente, comprávamos alimentos para uma semana, hoje em dia, adquirimos para duas ou três. Assim, evitamos comprar toda hora”, declara. “Acredito que minha passagem pela crise foi superpositiva, pois me ensinou a ser mais flexível e mais criativa. Comparo a crise à punição de um pai ou de uma mãe para o filho. A princípio, é ruim, mas, depois, você vê que aprendeu com aquilo.”

Volta por cima requer confiança 

Sobreviver a crise que levou o Brasil a mais severa recessão da história foi como um renascimento. Que o diga Nídias Dias-Mendes, dona da Nihaaus, um espaço de atividades que misturam astrologia e arquitetura no Sudoeste, área nobre de Brasília. Ela passou por diversas dificuldades e chegou a vender bens materiais para salvar o empreendimento. Os problemas realmente foram grandes, ressalta a empresária, pois, no momento da crise, havia recém-reformulado seu negócio.

Segundo a arquiteta, sofreu muita pressão, o que levou às modificações. “Tive que enfrentar alguns calotes de clientes. Os prejuízos levaram ao fechamento da marcenaria que tinha com meu pai. Isso abalou bastante os negócios. Estávamos vindo com uma proposta nova e, ao mesmo tempo, enfrentando dificuldades. Foi bem difícil”, conta.

Após alguns anos de formada em arquitetura pelo Centro Universitário de Brasília, Nídia caiu inteiramente em uma crise interna que se misturou com a econômica em que os país estava passando. Isso fez com que ela tivesse que mudar os negócios e viu que era preciso variar o jeito de conduzir a profissão. Não queria apenas desenhar e estruturar casas, apartamentos e comércios, mas executar tudo como um processo terapêutico para transformar o jeito de encarar a vida. Foi, então, que surgiram os cursos voltados à Astrologia e atendimentos individuais baseados em Quiromância, Reike I, Astrologia, tarô e Constelação Zodiacal, que ela abraçou.

Ao mesmo tempo, ministrou aulas de desenho para a prova específica da Universidade de Brasília (UnB), o que gerou, no entender dela, uma percepção aguçada sobre as criações de imagens e desenvolvimento expressivo daquilo que quer transmitir às pessoas por meio do seu trabalho.

Mundo digital

Apesar dos percalços, a arquiteta acredita que sempre há oportunidades de crescer em períodos de dificuldades. “Os problemas que enfrentei me possibilitaram um outro caminho, a ter mais criatividade, a buscar alternativas inovadoras. Acho que a crise trouxe mais oportunidades que, antes, não estava percebendo”, afirma. “Também me fez encarar o mundo digital, que é extremamente importante nesse aspecto de negócios”, relata.

A empresária diz que, em nenhum momento, pensou em parar com o negócio. “Na verdade, tive que sacrificar algo e abrir mão de algumas coisas, como minha casa. Também tive que vender meu carro. Tudo para pagar dívidas. Tive que me precaver para dar a volta por cima”, frisa.

Em processo para vencer a crise, a arquiteta se diz vitoriosa. “Eu me sinto vitoriosa, porque realmente acreditei que era possível, não fiquei olhando o tempo passar. Fui e fiz o que estava de acordo com as minhas possibilidades, claro, com aquilo que tinha de base e experiências. Estou aqui, graças a Deus, confiante e focada.” 

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