Economia

Carlos Ghosn foge para o Líbano

O ex-CEO da Renault e Nissan, que estava em prisão domiciliar em Tóquio aguardando julgamento, diz que se libertou da injustiça e da perseguição política. Defesa do empresário alega ter sido pega de surpresa

Correio Braziliense
postado em 01/01/2020 04:16
Ex-executivo é acusado de não declarar mais de R$ 160 milhões e de ter dado prejuízo à montadora


O ex-CEO da Renault e Nissan, Carlos Ghosn, que estava em prisão domiciliar em Tóquio aguardando julgamento, confirmou ontem sua fuga para o Líbano. “Agora estou no Líbano. Não sou mais refém de um sistema judicial japonês parcial, onde prevalece a presunção de culpa”, escreveu em um comunicado transmitido por seu porta-voz. “Não fugi da Justiça, eu me libertei da injustiça e da perseguição política. Posso finalmente me comunicar livremente com a mídia, o que farei a partir da próxima semana”, acrescentou.

Seu principal advogado disse ontem que ficou perplexo com as notícias e que soube da fuga do cliente pela televisão. “Fomos pegos completamente de surpresa. Estou chocado”, disse Junichiro Hironaka, em Tóquio. Ghosn estava em prisão domiciliar no Japão, onde seria julgado em abril de 2020, por suposta apropriação indébita financeira.

Na segunda-feira, ele chegou ao aeroporto de Beirute, segundo fonte de segurança libanesa. “A maneira como ele deixou o Japão não está clara”, disse outra autoridade libanesa. Segundo o jornal libanês al-Jumhuriya, que revelou as informações, o ex-chefe da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, com tripla nacionalidade francesa, libanesa e brasileira, chegou a Beirute em um avião da Turquia.

Nada em seu comportamento nos últimos dias indicava que ele deixaria o Japão, disseram algumas pessoas que o visitaram até a semana passada. “Ele ainda estava se preparando para seu julgamento durante nossas reuniões regulares”, disse seu advogado. “Carlos Ghosn não tenta se esquivar de suas responsabilidades, mas foge da injustiça do sistema japonês”, justificou uma fonte ligada ao caso, que pediu para ter sua identidade preservada.

Videoconferência
Em novembro, Ghosn foi autorizado a falar por videoconferência com a esposa, Carole, pela primeira vez em quase oito meses. Alguns dias antes desse contato, seus filhos exigiram um julgamento “justo” para o pai. De acordo com sua assessoria de comunicação, Carlos Ghosn defendeu o “levantamento total” das várias proibições impostas, considerando-as “excessivas, cruéis e desumanas, e para que seus direitos fundamentais e os de sua esposa fossem respeitados”.

Aquele que um dia foi aclamado como “o salvador da Nissan”, após sua chegada ao grupo japonês em 1999, passou 130 dias na prisão desde novembro de 2018. Foi libertado sob fiança pela primeira vez em março de 2019, mas voltou a ser preso no começo de abril. No fim daquele mês obteve prisão domiciliar em condições estritas.

O ex-executivo é acusado de não declarar mais de R$ 160 milhões que ganhou entre 2010 e 2015, de usar indevidamente bens da Nissan em benefício próprio, de ter dado prejuízo à montadora de automóveis em uma transferência de fundos e de repassar à empresa uma dívida particular.

“Fomos pegos completamente de surpresa. Estou chocado. Ele ainda estava se preparando para seu julgamento durante nossas reuniões regulares”
Junichiro Hironaka, advogado de Ghosn


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