Economia

Elevar a produtividade é o maior desafio do comércio exterior

Instabilidade da taxa de câmbio e cenário internacional turbulento são problemas, mas custo Brasil ainda é visto como o grande entrave para o desenvolvimento do comércio exterior do país. Além disso, o fator sustentabilidade é cada vez mais importante na diplomacia global

Cláudia Dianni
postado em 07/01/2020 06:00
ilustração de uma grande moedaCom as prioridades voltadas para a conclusão da reforma da Previdência e as discussões de outras emendas constitucionais, estratégias comerciais não estiveram entre as prioridades do governo em 2019, ao contrário do que anunciou o ministro da Economia, Paulo Guedes, no fim de 2018, antes da posse. Guedes havia prometido queda nas tarifas de importação nos 100 primeiros dias, mas o comércio acabou em segundo plano, tanto que o Comitê Estratégico da Câmara de Comércio Exterior (Camex) se reuniu pela primeira vez apenas em dezembro.

O volume do comércio exterior brasileiro está no mesmo patamar desde 2011. O saldo comercial de 2019, de US$ 46,6 bilhões, caiu 20,5% em relação a 2018 e foi o pior em quatro anos. Várias são as razões apontadas, como queda no preço de commodities e a recessão na Argentina, destino de produtos de maior valor agregado, para onde os embarques diminuíram 35,6%. Para 2020, a Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB) projeta redução de 3,2% nas exportações e alta de 6,6% nas importações.

Mas nem taxa de câmbio nem desaceleração da economia mundial são vistas como os principais entraves para o desempenho do comércio brasileiro neste ano ; embora os efeitos na economia mundial do ataque dos Estados Unidos a Bagdá na última sexta-feira, que matou um dos principais militares do Irã, ainda sejam imprevisíveis. Para especialistas, o desafio é o aumento da produtividade.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), na última década, a produtividade da manufatura brasileira aumentou apenas 11,7%. Por isso, a entidade avalia que o desempenho do comércio vai depender mais dos resultados práticos das reformas, principalmente a tributária.

;O governo começou o ano com discurso de redução unilateral de tarifas, mas se deu conta dos entraves legais com os parceiros do Mercosul e dos impactos na indústria, que se mobilizou. Aí, foi mudando o discurso. Ainda mantém a premissa da abertura comercial, mas não na velocidade que se imaginava e não antes de implementar uma agenda interna mais robusta;, afirmou Wagner Parente, analista de comércio exterior da BMJ Consultoria.

Segundo o especialista, no ano passado houve alguns movimentos pontuais, como o acordo que estabeleceu 2029 para o início do livre-comércio do setor automotivo no Mercosul, o acordo com a EFTA (Associação Europeia de Livre-Comércio) e o ponto alto, que foi a assinatura do acordo entre o bloco sul-americano e a União Europeia, em maio, depois de 20 anos de negociação. ;Mas não se sabe quando a acordo será implementado, Ainda haverá uma longa tramitação nos países-membros;, disse.

Sobre as promessas de Guedes de acordos bilaterais com mercados gigantes como China e Estados Unidos, Parente é cético. ;Não vão sair do papel em muitos anos. Não tem condições. É muito complexo. Com a China, há o receio da concorrência. É o país contra o qual o Brasil mais aplica antidumping (medidas para neutralizar a concorrência), e os EUA têm medo da nossa agricultura. O lobby agrícola nos EUA é fortíssimo e, neste ano, eles terão eleições;, afirma. Segundo ele, em 2020, devem evoluir negociações com mercados menores, como Canadá, Coreia do Sul e Indonésia.

Conflito

Embora o preço do dólar tenha atingido patamar histórico no ano passado, os especialistas não contam, ainda, com os possíveis efeitos na cotação da moeda norte- americana, caso o conflito entre Irã e Estados Unidos se radicalize. Em geral, o principal efeito da desvalorização do real é a diminuição das importações e o aumento das exportações, pois os produtos brasileiros ficam mais acessíveis no preço em dólar, portanto, mais baratos nos mercados externos.

;Com o dólar entre R$ 4,15 e R$ 4,20, as perspectivas são favoráveis, apesar das incertezas que cercam o ambiente internacional de negócios. Não vamos manter o nível da balança comercial deste ano, mas o cenário deve melhorar com as reformas. O Brasil precisa aumentar a produtividade, que depende, como sempre, de juros e de carga tributária;, disse o diplomata José Alfredo Graça Lima, vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Para Graça Lima, a queda da taxa básica de juros, que encerrou 2019 no menor patamar da história, em 4,5% ao ano, é uma notícia positiva para o comércio, mas a reforma tributária será ainda mais importante. Ele também não acredita acordos comerciais com grandes mercados neste ano e lembra que será preciso observar como será a relação com a Argentina, que elegeu um governo de orientação diferente dos planos de cunho liberal da equipe econômica brasileira.

;O ideal seria não fazer acordo antes de definir nossas necessidades, inclusive com relação à Tarifa Externa Comum do Mercosul, seguindo um ritual que o país nunca fez, pois sempre ficou dependendo de rodadas comerciais e protegendo setores industriais;, considerou.

;Independentemente do nível da taxa cambial, a insegurança quanto à competitividade das exportações de manufaturados continuará presente com a América do Sul, mesmo considerando a crise da Argentina. Os demais mercados internacionais de manufaturados permanecem como objetivos, mas a baixa competitividade dos produtos brasileiros, decorrente do custo Brasil, impede seu alcance;, afirmou José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Ambiente tem papel decisivo

Além de acesso a mercados e do custo Brasil, outro desafio se consolidou, no ano passado, para o comércio exterior brasileiro. Com as queimadas recordes, entre julho e agosto, na Amazônia, 18 marcas globais chegaram a suspender a importação de couro brasileiro. Os importadores também estão cada vez mais de olho nas taxas de desmatamento no Brasil, o que pode afetar a carne in natura, um dos principais produtos da pauta comercial do país.

;Recebemos muitos questionamentos de empresas e de associações sobre esse tema. Querem saber como o país fiscaliza se o produto vem de fazendas com problema de desmatamento;, disse Li;ge Vergilli Nogueira, diretora executiva Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

Segundo Li;ge, 2019 foi um bom ano, com aumento de 40% das vendas para a China. No geral, as exportações cresceram 11% em 2019 e, para 2020, apesar dos riscos, a projeção é de alta de 13% no volume exportado e de 15% no faturamento. ;A China deve se consolidar como o maior mercado para a carne bovina brasileira nos próximos anos;, disse a diretora. Segundo ela, o setor esperava que, depois da visita do presidente Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, em março do ano passado, fossem retiradas as barreiras sanitárias norte-americanas à carne bovina brasileira, o que não aconteceu.

Neste ano, o mundo se prepara para retomar as negociações em torno da limitação das emissões de gases poluentes. A União Europeia não descarta adotar tarifas contra países que não adotarem o Acordo de Paris. França, Irlanda e Áustria sinalizaram que podem não ratificar o acordo do bloco europeu com o Mercosul por causa do desmatamento da Amazônia.

Guerra comercial

Outra preocupação é a batalha geopolítica entre China e Estados Unidos que, desde 2018, se traveste de conflito comercial. Em dezembro, o presidente Donald Trump anunciou o início de um acordo entre os dois países, mas a questão extrapola o comércio e envolve uma disputa pelo mercado da tecnologia 5G.

;O Brasil terá leilão de 5G neste ano, e a pressão para não adotar o modelo chinês, da Hauwei, será grande. O presidente foi à China, que participou do leilão do pré-sal. Não foi por acaso que os Estados Unidos ameaçaram reduzir as cotas para o aço brasileiro. Esse é o jogo comercial diplomático. Bolsonaro não está acostumado com ele, e a diplomacia está voltada para questões ideológicas. O Brasil passa a ideia de estar vendido no jogo multilateral;, avalia Wagner Parente, da BMJ Consultoria.

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