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Correio Braziliense

Chuva e crédito: agronegócio e comércio puxam PIB nacional

Sozinha, a produção agrícola deve subir cerca de 3%, pelos cálculos do Ministério da Agricultura (Mapa), mas algumas projeções apontam para um avanço ainda mais robusto


postado em 09/01/2020 06:00

Brasil deve registrar em 2020 novos recordes na produção de soja(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )
Brasil deve registrar em 2020 novos recordes na produção de soja (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )
São Paulo — Crédito e chuva. A combinação desses dois fatores, à primeira vista sem correlação, tem alimentado as perspectivas de crescimento da economia em 2020. O agronegócio e o comércio, segundo especialistas, tendem a ser os motores da expansão do Produto Interno Bruno (PIB) neste ano, projetado para avançar entre 2% e 2,5%, segundo o boletim Focus.

Sozinha, a produção agrícola deve subir cerca de 3%, pelos cálculos do Ministério da Agricultura (Mapa), mas algumas projeções apontam para um avanço ainda mais robusto.

Nas contas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) será 9,8% maior em 2020 em relação a 2019. Assim, o faturamento do setor pode chegar a R$ 669,7 bilhões. “As safras dependem de ciclos biológicos, como o clima e a chuva, suscetíveis a mudanças, mas as perspectivas são muito positivas e devem se destacar no cenário econômico neste ano”, afirma o economista Felippe Serigati, pesquisador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (GV Agro).

Em suas estimativas, o crescimento do mercado deve repercutir na economia, com efeito multiplicador em regiões e municípios. “Os efeitos positivos do agronegócio vão muito além do setor. Haverá melhorias no mercado de trabalho, taxa de emprego e crescimento econômico”, completa Serigati.

A aposta para a pecuária é ainda mais otimista. A atividade deve crescer 14,1% e alcançar o valor de R$ 265,8 bilhões, o que indica que 2020 será o ano do setor, com perspectivas de aumento da produção. Para a carne bovina, a estimativa é de expansão de 22,2% no VBP do próximo ano na comparação com 2019, atingindo uma receita de R$ 129,1 bilhões.

Já o comércio, em 2020, deverá registrar o maior avanço anual no volume de vendas em sete anos. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a estimativa é de que haja aumento de 5,5% no varejo ampliado e de 3% no varejo restrito — que exclui o ramo automotivo e de materiais de construção.

“Um fator com potencial para prover sustentabilidade ao atual ritmo de crescimento das vendas, principalmente de bens de consumo duráveis, é a demanda por crédito por parte das famílias, que tem aumentado muito em função da ampliação dos prazos ao longo do ano”, destaca o economista sênior da CNC, Fabio Bentes.

No caso do comércio, com mais crédito e juros baixos, o grande motor da retomada econômica tem sido o consumo das famílias, à medida que o governo se esforça para cortar os seus gastos. “O aumento da oferta de crédito tem sido bem mais robusto que outros indicadores de recuperação econômica, por conta do estímulo do Banco Central para a ampliação das condições de competição e oferta de crédito ampliada do Sistema Financeiro Nacional”, diz o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). “Tudo isso está relacionado à queda dos juros básicos. Com a Selic no menor patamar da história, em 4,5% ao ano, o cenário anima consumidores e empresários de todos os portes.”

Assim como o comércio, o campo exerce papel fundamental na riqueza do país. Segundo dados do GV Agro, o agro representa hoje 25% do PIB brasileiro. “Apesar dos impactos sofridos com a greve dos caminhoneiros de 2018 e um cenário externo instável, a agroindústria chega em 2020 com uma atividade mais aquecida, com destaque para as carnes, com alta nas exportações para a China, e o setor sucroalcooleiro, com a produção de açúcar e etanol”, afirma Serigati, da GV Agro.

De acordo com a CNA, há expectativa de alta para o VBP de outras proteínas animais, como suínos (+9,8%), pecuária de leite ( 7,5%) e frangos ( 7,1%). O principal destaque do VBP agrícola será a soja, com alta de 14,1%. A oleaginosa deve encerrar 2020 com faturamento de R$ 165,2 bilhões, impulsionada pelo aumento dos preços e da produção. O milho também terá crescimento ( 3,3%), por causa da valorização dos preços, assim como a cana-de-açúcar ( 7,1%).

Dados divulgados na quarta-feira pelo IBGE também apontam para números positivos. Segundo o instituto, o Brasil deve registrar em 2020 novos recordes tanto na produção de soja quanto na de algodão. A projeção faz parte do terceiro Prognóstico para a Produção Agrícola.

A produção nacional de soja, de acordo com o IBGE, deve chegar a 122,4 milhões de toneladas neste ano – alta de 7,8% em relação à colheita de 2019. Haverá aumento de produtividade, já que a área a ser plantada, 36,6 milhões de hectares, terá aumento de 2,2% em relação ao ano anterior.

As projeções do IBGE, se confirmadas, darão novamente ao Brasil a posição de liderança mundial na produção de soja, passando os Estados Unidos para o segundo lugar. Mato Grosso será responsável por pouco mais de um quarto (26,9%) do total de soja produzida pelo país.

Um dos fatores que ajudam a nutrir a aposta de alta do agronegócio é uma eventual trégua na guerra comercial entre EUA e China, que pode repercutir nas exportações brasileiras. Para Vitor Andrioli, coordenador da INTL- FCStone, as commodities afetadas pela primeira fase do acordo comercial EUA-China seriam a soja, o algodão, o café e o milho.

No caso do etanol, o cenário pode ser diferente, porque o produto deve ser incluído no pacote chinês de compras. O gigante asiático procura reduzir as emissões e conter a poluição urbana. Outro fator é o etanol nos EUA: se os americanos começarem a exportar mais etanol, haverá uma demanda aquecida para os preços do milho.

Saída de dólares bate recorde

A fuga de investidores estrangeiros do Brasil foi recorde em 2019. Conforme dados do Banco Central divulgados nesta quarta-feira (8/1), as saídas líquidas de dólares do Brasil somaram US$ 44,8 bilhões no ano passado. Esse valor é quase três vezes superior ao maior deficit anual até então registrado pelo BC, de US$ 16,2 bilhões, em 1999. “O capital estrangeiro vinha para o país atrás dos juros de 10% ao ano dos títulos públicos, mas a Selic (taxa básica da economia) caiu e foi para 4,5% anuais. E, como o país não tem grau de investimento, esses investidores foram obrigados a procurar outros tipos de aplicação em mercados considerados mais seguros”, explicou Ricardo Galhardo, gerente da Treviso Corretora de Câmbio.

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