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Correio Braziliense

Oxfam faz alerta sobre aumento da desigualdade global

Conforme dados da entidade britânica, concentração de renda no mundo praticamente dobrou na última década e, atualmente, 2.153 pessoas detém mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas


postado em 19/01/2020 23:32

(foto: Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A Press)
A Oxfam International, confederação britânica que atua globalmente no combate à pobreza, divulga, em paralelo ao encontro anual do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), em Davos, na Suíça, estudo que chama a atenção para o aumento da concentração de riqueza no mundo.

O relatório da Oxfam “Tempo de Cuidar”, que trata de trabalhos mal remunerados e revela que 2.153 bilionários têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas. 

“O volume de riqueza de mais da metade (60%) dos habitantes do planeta está nas mãos de poucas pessoas e esse número dobrou na última década. Isso mostra que o atual sistema está falido e é preciso melhorar a distribuição de renda”, destaca Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, em entrevista ao Correio.

A especialista reforça que o aumento da desigualdade é uma realidade global e, o relatório destaca que a concentração de renda, além de atingir níveis recordes, mostra que o abismo entre os rendimentos de homens e de mulheres ainda é grande, pois muitas sociedades são sexistas. 

Na avaliação da executiva, para mudar esse cenário, é preciso que os governos adotem medidas efetivas, como mudanças no sistema tributário para que ele se torne mais igualitário, cobrando imposto dos mais ricos em vez buscar uma simplificação dos impostos apenas, como está sendo cogitado pelas autoridades brasileiras. Ela não poupa crítica à falta de taxas sobre grandes fortunas e de heranças e de dividendos, principalmente. 

“Se a população 1% mais rica do mundo pagasse uma taxa extra de 0,5% sobre a riqueza nos próximos 10 anos, seria possível criar 117 milhões de empregos em educação, saúde e de cuidado para idosos”, destaca Katia, defendendo também formas para melhorar o emprego e a remuneração dos trabalhadores. 

A diretora da Oxfam reforça que não há perspectiva de redução da pobreza se algo não for feito para reduzir as diferenças entre o retorno de acionistas e o aumento médio dos salários, de uma forma generalizada. “Entre 2011 e 2017, enquanto o aumento médio do salário dos países do G7 (grupo das sete economias mais desenvolvidas do planeta) foi de 2%, os dividendos para acionistas aumentaram 31%”, afirma.

Cuidados não remunerados

Conforme dados da Oxfam, os trabalhos mal remunerados são ocupados, em grande maioria, por mulheres. Elas respondem por mais de 75% de todo trabalho de cuidado não remunerado do mundo. Mulheres e meninas dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, a trabalhos não remunerados, seja como cuidadoras de idosos, seja cuidando da casa. “Essa contribuição gira em torno de US$ 10,8 trilhões por ano à economia global, mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia”, compara.

Katia lembra que no Brasil, 90% do trabalho de cuidadores é feito informalmente pelas famílias  e desses 90%, quase 85% é feito por mulheres. Essa questão, na avaliação dela, deverá ficar mais crítica no Brasil nos próximos anos e ressalta que, pelas projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2050, serão cerca de 77 milhões de pessoas no Brasil a depender de cuidado (pouco mais de um terço da população estimada) entre idosos e crianças.

A entidade recomenda o ataque às normas prejudiciais e crenças sexistas e uma legislação que proteja os direitos de cuidadores para que eles tenham salários mais dignos. Outra recomendação da entidade é que os governos invistam mais em sistemas nacionais de prestação de cuidados, como acesso à água potável, saneamento e energia doméstica, além de buscar melhorar os serviços públicos e a infraestrutura existentes. 

Os cálculos da Oxfam são baseados nas mais atualizadas fontes de dados disponíveis, de acordo com Katia. Ela conta que a entidade usa como fontes estudos do Credit Suisse Research Institute’s Global Wealth Databook 2019 e da da lista de bilionários da revista Forbes – edição 2019.

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