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Correio Braziliense

Guedes defende uso de defensivos agrícolas para produzir mais comida

Declarações do ministro em Davos provocam reações de analistas e defensores da preservação do ecossistema. Para especialistas, pobres são as maiores vítimas da degradação ambiental, e devastação das florestas é provocada pelo agronegócio


postado em 22/01/2020 06:00

Para o titular da Economia, ''as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer'' e uso de defensivos é necessário para produzir mais(foto: World Economic Forum/Walter Duer)
Para o titular da Economia, ''as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer'' e uso de defensivos é necessário para produzir mais (foto: World Economic Forum/Walter Duer)
Pronunciamento feito nesta terça-feira (21/1) pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, provocou fortes reações entre ambientalistas. Ao participar de um painel sobre o futuro da indústria, o ministro disse que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza. “As pessoas destroem o ambiente porque precisam comer”, justificou. Guedes afirmou, em outro momento do mesmo evento, que o mundo precisa de mais comida e que é preciso usar defensivos agrícolas para auemntar a produção. “Isso é uma decisão política, que é complexa”, afirmou.

 

Os números, no entanto, contradizem o ministro. Os países mais ricos são os que comprometem mais os recursos naturais. Em 2018, todas as nações da América Latina, juntos, emitiram 17% do total da China. O país asiático e os Estados Unidos, as duas maiores economias do mundo, emitiram 10,5 mil megatoneladas de dióxido de carbono (CO2), principal gás responsável pelo efeito estufa, segundo o Global Carbon Atlas. No mesmo ano, o Brasil emitiu 457 megatoneladas de CO2.

Para José Francisco Gonçalves Júnior, professor do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília, o ministro tentou simplificar o que é complexo. “O meio ambiente tem várias vertentes. Claro que a pobreza tem impacto, quando não se tem saneamento público ou falta educação para conhecer os efeitos das ações”, reconheceu. “Agora, os grandes problemas ambientais brasileiros vêm do agronegócio, da exploração dos recursos naturais de forma desordenada e de uma fiscalização inadequada. Os países mais ricos são os maiores emissores de CO2 do planeta e têm boa parte das suas florestas degradadas. Não é uma verdade associar a pobreza à devastação ambiental”, acrescentou.

As declarações do ministro provocaram reação imediata. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, “o modelo de desmatamento no Brasil não reduziu a pobreza, mas concentrou a riqueza na mão do grande agronegócio”. Luiza Lima, da campanha de Políticas Públicas do Greenpeace, destacou que o governo brasileiro, “mais uma vez”, gerou constrangimento internacional, piorando a imagem do Brasil. “Paulo Guedes não só defendeu um modelo de agricultura atrasado, poluente, tóxico e que concentra riqueza na mão de poucos, como culpou o pobre pela destruição do meio ambiente, quando, na verdade, o pobre é a principal vítima”, disse.


Segundo a especialista, a frase de Guedes deveria ser: “O inimigo do pobre é a destruição do meio ambiente”. “Afinal, são os mais pobres os que sofrem os impactos da destruição das florestas, dos rios e dos ecossistemas. São eles os mais impactados em casos de eventos extremos relacionados às mudanças climáticas, como furacões, tornados, enchentes e secas”, ressaltou.

 

Trump e Greta

Uma das estrelas do Fórum de Davos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou os “catastrofistas” que alertam para as sérias consequências das mudanças climáticas, em um discurso diante de líderes políticos, econômicos e outras personalidades, entre elas a ativista sueca Greta Thunberg. “Temos que rejeitar os eternos catastrofistas e suas previsões apocalípticas”, disse Trump, poucas horas depois de Greta denunciar que “nada tem sido feito” para combater o aquecimento global.

Trump acusou os “herdeiros dos insensatos videntes do passado” de se enganarem sobre a mudança climática, como já fizeram, segundo ele, quando previram décadas atrás a superpopulação do planeta, ou o fim do petróleo. “Nunca deixaremos os socialistas radicais destruírem nossa economia”, afirmou. Já a ativista sueca lamentou que as “emissões de dióxido de carbono não tenham diminuído” desde o fórum do ano passado. “Estamos todos lutando pelo clima, mas, se olharem de uma perspectiva geral, na prática, não se fez nada. Precisamos de muito mais do que isso”, afirmou Greta.

 

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