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Correio Braziliense

Conjuntura preocupante: rombo nas contas externas cresce 22%

Deficit em transações correntes chega a US$ 50,8 bilhões em 2019, devido à queda nas exportações para a China e a Argentina. Banco Central diz que situação não preocupa, porque resultado negativo é compensado pela entrada de investimentos diretos


postado em 28/01/2020 06:00

(foto: Danilson Carvalho/CB/D.A Press)
(foto: Danilson Carvalho/CB/D.A Press)
A queda das exportações fez o rombo das contas externas brasileiras se agravar no ano passado. Segundo o Banco Central (BC), o deficit em transações correntes cresceu 22%, passando de US$ 41,5 bilhões, em 2018, para US$ 50,8 bilhões em 2019. O resultado representa 2,76% do Produto Interno Bruto (PIB) e é o pior desde 2015. Porém, não preocupa a autoridade monetária.


Chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha explicou que o saldo das transações correntes reflete o desempenho de três variáveis: a balança comercial, a balança de serviços e a renda de juros, lucros e dividendos. No ano passado, esse resultado foi influenciado primordialmente pela conta de comércio. “O que aconteceu foi uma redução do superavit da balança comercial”, comentou.


De acordo com os dados do BC, a perda nessa conta foi de US$ 13,6 bilhões em 2019, com o saldo recuando de US$ 53 bilhões para US$ 39,4 bilhões. Em grande parte, a queda foi decorrente da redução de 6,3% das exportações. Em 2019, o Brasil exportou menos para a Argentina, um dos principais parceiros comerciais, por conta da crise econômica do país vizinho. Também vendeu menos para a China, já que, passado o auge da guerra comercial com os Estados Unidos, os chineses voltaram a importar soja norte-americana, demandando menos dos produtores brasileiros.


As outras duas contas do balanço das transações correntes apresentaram resultados ligeiramente melhores que os de 2018, pontuou Rocha. De um lado, a conta de serviços reduziu o deficit em 1,7%, para US$ 35,1 bilhões, influenciada pela redução dos gastos dos brasileiros no exterior e pela queda das despesas com aluguel de equipamentos. De outro, o deficit na conta de rendas recuou 4,8%, para US$ 56 bilhões, devido à redução das remessas de lucros e dividendos.

Investimentos

A tranquilidade do Banco Central diante dos números vem do fato de que, apesar de ter ficado US$ 9,2 bilhões maior em 2019, todo o deficit em transações correntes foi coberto por investimentos diretos no país, que somaram US$ 78,6 bilhões em 2019. O volume é ligeiramente superior aos US$ 78,2 bilhões registrados em 2018 e, segundo Rocha, deve continuar no campo positivo em 2020.
Só neste mês, o BC contabiliza US$ 3,7 bilhões em investimentos diretos. A expectativa é terminar janeiro com saldo de US$ 5 bilhões. “Possíveis eventos que podem fazer esses fluxos subirem são a aceleração do crescimento econômico, as privatizações e perspectivas setoriais mais favoráveis. Todos esses fatores estão na mesa”, afirmou Rocha.

 


Os investimentos estrangeiros no mercado de capitais, por sua vez, recuaram e fecharam o ano no vermelho. “Tivemos uma saída de recursos de investidores estrangeiros de US$ 11 bilhões no ano passado”, informou o chefe do Departamento de Estatísticas do BC. Coordenador do curso de Ciências Econômicas do IESB, Riezo Silva Almeida explicou que a queda da Selic diminuiu a rentabilidade das aplicações brasileiras, fazendo com que os estrangeiros deixassem de investir no país e buscassem mercados mais rentáveis.

Dólar caro inibe viagens

A alta do dólar fez os brasileiros gastarem menos com viagens ao exterior em 2019. Segundo o Banco Central, essas despesas somaram US$ 17,6 bilhões no ano passado. O volume é 3,7% menor que o de 2018 e se aproxima do saldo registrado em 2015, quando, mesmo na crise, os brasileiros gastaram US$ 17,3 bilhões em viagens para fora do país.


Chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central (BC), Fernando Rocha lembrou que o dólar estava cotado a R$ 3,66, em média, em 2018, quando os gastos dos brasileiros no exterior chegaram a US$ 18,3 bilhões. Porém, a moeda norte-americana fechou 2019 beirando os R$ 4, com cotação média de R$ 3,95. “Houve depreciação de 7,9% do real. Isso torna mais caros os gastos de brasileiros no exterior e contribui com a redução dessas despesas”, afirmou.

 

A alta do dólar, por outro lado, barateou as viagens de estrangeiros ao Brasil e, por isso, poderia ter trazido mais dólares para o país. Essa hipótese, porém, não se consolidou em 2019. De acordo com o BC, os gastos dos estrangeiros no Brasil ficaram estáveis no ano passado, em US$ 5,9 bilhões.


Professora de direito internacional da Universidade de São Paulo, Maristela Basso acredita que as incertezas políticas do governo Bolsonaro podem ter interferido nos gastos dos estrangeiros. “Eles não sabem o que encontrarão e acabam optando por outros países, onde há menos incertezas na economia e na segurança pública”, explicou.

 

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