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Correio Braziliense

'Muitas fintechs vão ficar pelo caminho', diz presidente da Ewally

Executivo avalia que os novos bancos digitais vão fechar por falta de dinheiro ou gestão


postado em 12/02/2020 06:00 / atualizado em 12/02/2020 13:03

(foto: Ewally/Divulgação)
(foto: Ewally/Divulgação)
São Paulo – Milhões de brasileiros têm acesso limitado a serviços bancários. De olho nessa parcela significativa da população, o engenheiro eletrônico e ex-piloto da Força Aérea Brasileira (FAB) André Cunha começou no início dos anos 2000 a desenvolver um projeto para promover a inclusão financeira. A iniciativa ganhou corpo, mas saiu do papel somente com o avanço da tecnologia. Em 2016, Cunha fundou a Ewally, startup que permite realizar operações bancárias, como transferências e pagamentos de contas, por meio de um smartphone. O negócio, conta ele, só decolou depois da participação em programas de aceleração. Nesta entrevista, o executivo avalia o mercado de bancos digitais e fintechs no país e afirma que muitas companhias ainda vão fechar, por falta de dinheiro ou mesmo de gestão. Ele vê um longo caminho para a consolidação do setor, mas elogia a atuação do Banco Central de permitir que novos modelos de negócios sejam testados. Sobre a Ewally, André Cunha mostra otimismo com os rumos da startup, que recentemente teve uma fatia (49%) comprada pelo Grupo Carrefour. Com o suporte de um grande parceiro, Cunha espera alcançar até 8 milhões de pessoas nos próximos anos e estabelecer conexão para novos negócios.


Como foi o processo de desenvolvimento da Ewally?
A ideia surgiu há mais de 15 anos, quando ganhei um prêmio de líderes globais do amanhã do Fórum Econômico Mundial. Na época, fiquei muito envolvido em workshops, tratando do assunto de inclusão financeira e digital. Identifiquei, especialmente no Brasil, que boa parte da população era desbancarizada e totalmente excluída do sistema financeiro. Esse cenário causa uma dor muito grande, como perda de renda e dificuldades para tocar o dia a dia. Pensei durante muito tempo em uma solução, no formato de um produto de acordo com a necessidade da população. Naquele tempo, não havia a tecnologia de hoje, que permite ferramentas muito mais ágeis e baratas  para montar uma solução para esse público.

Qual era proposta da fintech quando ela foi criada?
O plano era permitir que a pessoa que não tem acesso a serviços financeiros conseguisse desfrutar dos mesmos serviços oferecidos por um banco, mas por meio de um aplicativo instalado em um smartphone. A ideia era que, pelo celular, ela realizasse tudo, como depositar e transferir dinheiro, pagar contas, fazer saques em redes 24 horas, além de ter um cartão para compras.

Em algum momento achou que o negócio não daria certo?
Basicamente, a todo momento. Empreender em uma área disruptiva no Brasil ainda é um ato de heroísmo diário, com todas as barreiras e dificuldades. Mas tem que ter resiliência para ir tirando da frente cada um dos obstáculos.

Na sua avaliação, que fatores contribuíram para o sucesso da iniciativa?
Trabalhei inicialmente cinco anos sozinho desenvolvendo o projeto. Era uma dificuldade gigantesca, porque estava sem investimento, sem dinheiro, sem apoio. Essas foram as maiores barreiras enfrentadas desde o início. Entre 2014 e 2015, fiz inscrição e participei de um programa da Artemisia, que é uma aceleradora de startups com viés social. Em 2016, também participei do Bradesco Inovabra. As duas experiências fizeram com que eu pudesse desenvolver inúmeras integrações no sistema financeiro e montasse a solução, que foi lançada entre o final de 2016 e o início de 2017. A partir daí, o negócio deslanchou. A participação nos programas permitiu um amadurecimento dos produtos. Foi possível testar todos os sistemas de segurança e atingir a qualidade dos serviços com padrão bancário

Como você vê o avanço do mercado de bancos digitais e fintechs no país?
Com muito otimismo. Esse é um movimento irreversível. Aconteceu, começou e não tem mais volta. Existe hoje uma tecnologia favorável, existe um movimento social. As pessoas hoje querem comodidade, segurança, facilidade, rapidez, buscam a desburocratização de tudo. É um movimento que a gente vê em todos os setores da economia e o setor financeiro não ficaria fora disso. Existe uma ruptura dos modelos de negócios, um potencial grande de retorno financeiro e uma possibilidade de criar novos produtos e serviços. É nítido que tudo isso vai gerar uma grande competição.

Em que ponto do processo 
estamos? e amadurecimento ainda ou e consolidação 
do mercado?
Hoje em dia, notamos uma variedade de fintechs surgindo. Novas empresas que estão fazendo com que o mercado fique muito distribuído. E lá na frente acredito que vai haver uma consolidação. Poucas vão sobreviver, muitas vão ficar pelo caminho. Foi a mesma coisa que aconteceu no começo dos anos 2000 com a bolha da internet. Muitas empresas desapareceram e as boas sobreviveram e cresceram. A gente observou também que no fim de 2017 e 2018 aconteceu isso no mercado de criptomoedas. Agora, com as fintechs não vai ser diferente. Avalio que ainda estamos no começo da curva. Está surgindo uma montanha de empresas, mas muitas sem a capacitação tecnológica, financeira ou mesmo de gestão. E lá na frente vai haver uma consolidação, como observamos historicamente em todos os mercados.

A Ewally teve uma fatia 
(49%) comprada pelo Grupo 
Carrefour em outubro do ano 
passado. Como foi o processo?
Foi duro e desgastante. Durou quase dois anos, com todos os percalços no meio do caminho e felizmente finalizou recentemente. Avalio a parceria como sendo de grande importância. O Carrefour tem milhões de pessoas que circulam nas lojas todos os anos. Isso aumenta muito a exposição. Muitas dessas pessoas têm esse desejo, essa necessidade de ter acesso a serviços financeiros. Então é um grupo que permite montar todo um ecossistema, estabelecer contato quase diário com outras empresas e possíveis links de negócios.

Tem uma estimativa de quantas pessoas podem ser alcançadas?
A gente espera atingir entre 7 mi- lhões e 8 milhões anualmente. Nem todo mundo obviamente vai aderir, mas esse é o desafio do negócio.

Com base na sua experiência 
como empreendedor, qual a 
percepção sobre o que está 
dando certo na área?
Uma coisa que acho bacana no Brasil é o próprio regulador — o Banco Central. Ele tem dado espaço para as empresas surgirem e testarem seus modelos de negócios. É uma regulação moderna que permite o aperfeiçoamento dos formatos. Isso está dando certo e espero que seja mantido.
 
 

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