Economia

Conjuntura: economia brasileira tentar seguir no ritmo do dólar

Indústria farmacêutica, montadoras e companhias áreas sofrem diretamente com a valorização da moeda, enquanto alguns exportadores vivem a dicotomia de faturar mais e pagar mais caro pelo investimento

Nelson Cilo
postado em 18/02/2020 06:00
uma fábrica de carrosSão Paulo ; Nos últimos dias, o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez uma série de declarações que sinalizaram que o dólar caro veio para ficar. Guedes disse que não está preocupado com a alta da moeda americana, destacou que o Brasil vive um ;novo modelo de câmbio; e afirmou que a valorização do dólar é boa para todo mundo. O ministro não deixou espaço para dúvidas: o real depreciado é uma realidade que, por um bom tempo, não irá mudar.

Nesta segunda-feira (17/2), a moeda americana fechou cotada a R$ 4,32, abaixo do recorde registrado na quarta-feira (12), de R$ 4,35, mas muito acima das projeções feitas no início do ano por diversas instituições financeiras. Segundo especialistas, alguns fatores conjunturais explicam a escalada do dólar. Em tempos de incertezas (epidemia de coronavírus, guerra comercial entre Estados Unidos e China, risco de recessão global), os investidores buscam refúgio em moedas mais líquidas, como é o caso do dólar.

Outro aspecto que tem sido decisivo para a depreciação da moeda brasileira é a queda dos preços das commodities. No ano passado, os três produtos mais exportados pelo Brasil foram soja, minério de ferro e petróleo. Historicamente, as commodities respondem por 70% das exportações brasileiras, percentual que tem variado pouco nos últimos anos. Se os preços das commodities caem, os produtos nacionais acabam valendo menos e o real naturalmente se deprecia.

A valorização do dólar afeta, para o bem e para o mal, todos os setores da economia. Alguns se beneficiam. ;O real desvalorizado tem um efeito positivo para o país, porque torna os produtos nacionais mais competitivos para exportação;, diz José Ricardo Roriz, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast). ;Assim gira a roda da economia: a empresas produzem mais, a ociosidade diminui, novos empregos são gerados.;

Os exportadores são os maiores beneficiados. No setor de suco de laranja, 95% do que é produzido tem como destino o mercado internacional. ;Logo, o câmbio é uma variável muito importante para o nosso negócio;, diz Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR. ;Em linhas gerais, como apontou o ministro Paulo Guedes, um real mais fraco em relação ao dólar é importante para o setor exportador. No nosso caso, porém, a cadeia de valor é muito longa e vai da produção de parte da fruta até o processamento, passando pela logística de exportação para diversos destinos no mundo. Significa, portanto, que boa parte dos custos está em dólar, o que em parte absorve os possíveis efeitos de alta da moeda americana.;

Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), diz que o dólar apreciado tem um impacto duplo.;De um lado, aumenta a competitividade da indústria no seu viés exportador;, afirma. ;De outro, encarece os investimentos e as compras de insumos.;

Os custos da indústria têxtil, lembra o executivo, são bastante dolarizados (algodão, produtos químicos), o que pode repercutir no preço final dos produtos. ;Já no lado da confecção, o impacto direto do dólar é menor, porque a maior parte da sua agregação de valor se dá através de custos vinculados ao real;, diz Pimentel.

Duas faces


O presidente da Abit amplia a sua análise. ;Do ponto de vista de médio e longo prazo, o dólar de hoje reflete as condições de competitividade do país;, afirma. ;A moeda tem sempre duas faces. De um lado, você ganha. De outro, perde. O câmbio atual, apesar de nos empobrecer, traz mais possibilidade de o Brasil superar, neste momento, as suas dificuldades sistêmicas e trazer uma competitividade maior para a economia.;

Melhorar a competitividade da economia brasileira está no centro das preocupações de líderes de diversos setores. ;Mais importante do que o dólar a R$ 4 ou R$ 4,30 é a indústria brasileira ter condições isonômicas de competição no mercado internacional;, diz Milton Rego, presidente-executivo da Associação Brasileira do Alumínio (Abal). ;A alta cambial, na verdade, traz falta de previsibilidade, o que sempre se traduz em custo: ou a empresa adota uma atitude conservadora em relação ao caixa, ou tem de fazer contratos para tentar se proteger da valorização da moeda americana.;

Empresas que têm boa parte de seus custos diretos atrelados ao dólar tendem a enfrentar maiores dificuldades. No setor farmacêutico, 95% da matéria-prima usada para a fabricação de medicamentos vem de fora. Segundo o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), o setor está se preparando para absorver os aumentos, mas será difícil evitá-los se o dólar subir demais.

Algumas empresas já admitem inclusive que, se a moeda continuar acelerando, um reajuste de preços será inevitável. Em entrevista recente ao jornal O Estado de S.Paulo, Carlos Zarlenga, presidente da General Motors, disse que a alta do dólar provavelmente obrigará a empresa a reajustar o preço dos automóveis. Segundo Zarlenga, 40% das peças de um carro de passeio são fabricadas no exterior.

As companhias aéreas também sofrem com a valorização do dólar. Na Gol, metade de seus custos estão atrelados à moeda americana e mais de 40% de seu endividamento está exposto a variações cambiais. Ou seja, se o câmbio oscila demais, a empresa tem maiores dificuldades para controlar suas finanças.

Viagens Nenhum setor deverá sofrer mais com a alta do dólar do que o turismo. Com a moeda americana valorizada, os destinos internacionais obviamente ficam mais caros. Segundo a Associação Brasileira de Agências de Viagens, porém, o cenário atual é o mesmo dos últimos anos, com os destinos nacionais respondendo por 60% da procura e os internacionais por 40%.

Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), no entanto, indicam que os brasileiros estão viajando menos para o exterior. Em 2019, as empresas aéreas transportaram 9,1 milhões de passageiros para fora do país, o que representa uma queda de 2,6% em relação a 2018.

Em dezembro, já com o dólar nas alturas, o cenário piorou. Foram embarcados 757,9 mil passageiros, 13,4% a menos do que no mesmo mês de 2018.

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