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Correio Braziliense

Mercado financeiro aumenta o pessimismo com o crescimento do PIB em 2020

Frustração com o resultado de indicadores setoriais e com índice de atividade do Banco Central leva mercado financeiro a reduzir projeções sobre crescimento do país neste ano. Efeito da epidemia do coronavírus na economia global pode provocar novas revisões


postado em 18/02/2020 06:00

(foto: Danilson Carvalho/CB/D.A Press)
(foto: Danilson Carvalho/CB/D.A Press)
Ao contrário do que normalmente acontece em início de ano, 2020 começou com o pessimismo em alta na economia. O mercado financeiro reduziu de 2,3% para 2,23% a previsão de alta do Produto Interno Bruto (PIB) na edição desta segunda-feira (17/2) do Boletim Focus, no qual o Banco Central (BC) compila, semanalmente, as estimativas de cerca de uma centena de economistas de instituições financeiras. A estimativa é a menor das últimas 11 semanas e, segundo especialistas, reflete a frustração com os indicadores econômicos do fim do ano passado.

“Fechamos 2019 com a economia indicando uma recuperação bem mais gradual que o previsto e um crescimento muito abaixo do esperado. A dificuldade na recuperação da atividade foi evidenciada por todos os indicadores setoriais de dezembro. E isso gera uma perspectiva menor de crescimento para este ano”, explicou o economista Victor Beirute, da Guide Investimentos, citando, como exemplo, o resultado do Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) do Banco Central, divulgado na semana passada.

Considerado uma prévia do PIB, cujo resultado será divulgado em março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o IBC-Br avançou apenas 0,89% em 2019. O indicador ficou abaixo das projeções de alta de 1,1% a 1,2% do PIB e também dos resultados de 2018 e 2017. Por isso, levantou dúvidas sobre o ritmo de crescimento do país. “O resultado decepcionou. Então, dá nisso”, disse o economista da NGO Corretora Sidnei Nehme. Em meio ao cenário de frustrações, contudo, a Confederação Nacional do Comércio divulgou nesta segunda-feira (17/2) relatório que aponta para alta na intenção de consumo das famílias.

Queda

Economistas alertam que a revisão do Focus pode não ser a última de 2020. Os efeitos da epidemia de coronavírus, apesar de já terem impactado as projeções de bancos como o UBS e o JPMorgan, ainda não foram precificados pelos analistas ouvidos no Focus. Segundo Victor Beirute, isso deve acontecer nos próximos 30 dias, quando o mercado avaliar o desempenho das economias mundial e brasileira neste início de ano. “A partir dos dados de fevereiro, vamos ter uma noção melhor. E aí, vamos ver algumas revisões”, afirmou Beirute.

Se a previsão se confirmar, o início de ano de 2020 vai registrar uma queda rápida e significativa das projeções de crescimento da economia, ao contrário do que aconteceu no ano passado, quando o otimismo em relação às reformas estruturais — e a percepção de que elas incentivariam a retomada econômica — se estendeu até meados do ano.

O cenário mais nebuloso também leva muitos analistas a avaliarem que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central poderá rever a decisão de interromper o ciclo de cortes da taxa básica de juros, anunciada após a última reunião do colegiado, que baixou a Selic para 4,25% ao ano. “Se os dados continuarem vindo dessa forma e a inflação continuar fraca, o mercado pode pressionar o BC a fazer novos estímulos. Mas acho que, pelo menos em março, o BC vai manter essa posição para analisar o que acontece com a economia mundial e com o andamento das reformas”, opinou Beirute.

No Focus desta semana, por sinal, o mercado reviu a projeção para a inflação deste ano de 3,25% para 3,22%, mais distante ainda do centro da meta oficial, de 4%. Já a Selic continua em 4,25%.

A taxa de câmbio também foi mantida em R$ 4,10 por dólar— acima dos R$ 4,05 anotados um mês atrás. Segundo economistas, porém, essa taxa deve ser novamente revisada, para cima, nas próximas edições do Focus. Nas últimas semanas, o dólar apresentou uma escalada que só foi contida depois que o Banco Central interveio no mercado.

“As perspectivas já mudaram muito neste início de ano. Tínhamos uma perspectiva otimista de investimentos, privatizações, fluxo de capital. Mas não está sendo assim. A economia segue lenta; o investidor acha que o Brasil está caro e, por isso, investe em outro lugar; e o governo ainda diz que o dólar tem que ficar alto, incentivando os especuladores a elevar o câmbio. Então, não dá para confiar muito nessa previsão de R$ 4,10”, argumentou Nehme.

Ele lembrou que o dólar começou o ano em R$ 4,01; bateu R$ 4,38 na semana passada, depois que o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que estava na hora de acabar com a festa das empregadas domésticas indo à Disney; e, nesta segunda-feira (17/2), fechou em R$ 4,33, mesmo depois das intervenções do BC na semana passada.
 
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