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Correio Braziliense

Empresa Patagonia explica bases para ser referência em sustentabilidade

Eleita Campeã da Terra pela ONU, a fabricante de roupas e acessórios esportivos quer causar o menor impacto possível ao planeta, nem que para isso venha a encolher


postado em 26/02/2020 06:00

Yvon Chouinard: pagando mais por matéria-prima com menos impacto(foto: Chapman Croskell/Colegian)
Yvon Chouinard: pagando mais por matéria-prima com menos impacto (foto: Chapman Croskell/Colegian)
São Paulo — O empresário americano Yvon Chouinard, dono da Patagonia, marca de roupas e acessórios para esportes de aventura, ficou conhecido depois de publicar uma série de anúncios nos grandes jornais dos Estados Unidos pedindo que as pessoas não comprassem seus produtos. A ideia da antipropaganda era mostrar que o consumo exagerado é nefasto para o planeta. O que parecia ser apenas uma jogada de marketing revelou-se, na verdade, uma preocupação genuína. “Poucas empresas no mundo, talvez nenhuma, são tão sustentáveis quanto a Patagonia”, disse Chouinard em entrevista recente para a revista americana Fast Company.

A Patagonia fatura US$ 1,2 bilhão por ano com uma estratégia única: a defesa radical do meio ambiente. Todo o algodão usado da confecção de suas roupas é orgânico, mas a ideia agora é ir além. “Estamos trabalhando em uma nova certificação que vai além do orgânico”, disse Chouinard. “Usamos algodão cultivado organicamente há anos, mas tudo o que ele faz é causar um pouco menos de dano ao planeta. Quero mais. Por isso, decidi começar a cultivá-lo de forma regenerativa.”

Pouco utilizada nas lavouras, a produção regenerativa ocupa o mínimo espaço possível, reveza culturas para que o solo se mantenha rico e promove parcerias com comunidades locais, de forma que os trabalhadores possam se desenvolver com a empresa. Por ter essas características, a produção regenerativa não pode ser adotada em larga escala: é cara demais para ser amplamente utilizada.

Ao ocupar espaços mínimos de lavoura, o agricultor produzirá safras pequenas e ganhará, portanto, menos dinheiro. Para convencer os agricultores a adotarem a produção orgânica regenerativa, Chouinard foi obrigado a pagar mais pelo serviço. Segundo revelou o empresário, os donos das terras que utilizam esse conceito recebem um valor 10% superior ao normalmente pago nas lavouras de algodão.

Em tempos marcados pela busca obsessiva por redução de custos, é bastante incomum o dono de uma corporação global estar disposto a gastar recursos extras “apenas” para respeitar o meio ambiente. “Não faço isso por mim, faço pelo planeta”, afirmou Chouinard em uma de suas polêmicas entrevistas.

Início na Índia 

A agricultura orgânica regenerativa da Patagonia começou a ser adotada no segundo semestre do ano passado, com aproximadamente 200 pequenos agricultores da Índia. Antes de utilizar o sistema, eles assinaram um contrato com a Patagonia comprometendo-se a cumprir todos os requisitos sustentáveis defendidos pela empresa. O contrato também prevê que receberão 10% a mais pelo serviço.

A empresa não quer parar por aí. Em 2020, a ideia é ampliar o programa para 600 agricultores indianos. Em 2021, para mais de mil. Segundo a Patagonia, as lavouras de algodão que são suas fornecedoras na Índia estão certificadas para produzir também grão de bico e açafrão, culturas com grande demanda local. Com isso, os agricultores locais mantêm suas fazendas produtivas durante o ano todo.

Apesar de ser um defensor incansável do meio ambiente, Chouinard sempre se incomodou com o fato de as lavouras de algodão estarem entre as mais agressivas para o meio ambiente. Para que vinguem, as grandes plantações da cultura exigem grandes quantidades de agrotóxicos, mas, nas orgânicas regenerativas, os defensivos não participam do processo de produção.

Para afastar os insetos, os agricultores instalam pontos de luz que os atraem durante a noite. Chouinard é radical no combate ao uso de agrotóxicos. Ele criou um programa de treinamento para orientar os agricultores a matarem os insetos com as mãos. “Isso dá muito trabalho e exige o esforço de muitos trabalhadores, mas protege a lavoura, sem causar impacto na natureza”, disse na entrevista à revista Fast Company.

Tudo isso seria tratado apenas como uma grande piada de um empresário com fama de excêntrico se os resultados financeiros da Patagonia não fossem consistentes. Criada em 1973, a empresa se tornou ao longo dos anos uma máquina de ganhar dinheiro — e sempre com o viés ambiental.

Em 1994, foi a primeira empresa dos Estados Unidos a vender casacos “sustentáveis”, feitos de material reciclável. Como eram caros para produzir, custavam o dobro dos modelos convencionais. No início, muitos consideravam a ideia arrojada demais, mas o crescente movimento de respeito à natureza, liderado especialmente pelos jovens das novas gerações, foi o gatilho que a empresa precisava para deslanchar. Atualmente, seus casacos reciclados custam, em média, US$ 150, mas ninguém reclama por isso.

Resultados 

Companhia de capital fechado, a Patagonia não divulga oficialmente os seus números, mas analistas notaram um sólido crescimento de vendas. Na última década, a empresa tem avançado sempre acima de dois dígitos, um feito e tanto considerando que o setor de roupas nos Estados Unidos enfrentou nesse período uma série de dificuldades, que culminaram no fechamento de muitas fabricantes. Em 2018, a Patagonia faturou US$ 1 bilhão, muito acima dos US$ 750 milhões de 2017. Em 2019, projeções mostraram que as vendas alcançaram US$ 1,2 bilhão.

Na figura de seu fundador, a Patagonia captou, antes dos concorrentes, o movimento em prol da sustentabilidade que ganharia o mundo e que se tornaria a grande causa do século 21. Inúmeras pesquisas ressaltam a força das bandeiras ambientais. Um estudo recente realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente concluiu que esse é considerado o tema mais relevante para os jovens. No Brasil, um estudo patrocinado pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná revelou que 87% dos consumidores preferem comprar de empresas sustentáveis.

Chouinard é um empresário único. Desde 1985, destina 1% da receita líquida da Patagonia para apoiar ONGs que desenvolvem projetos em defesa do meio ambiente. Nos últimos 17 anos, essas doações totalizaram US$ 225 milhões. Ele é também o criador do projeto “Sustainable Apparel Coalition”, que reúne companhias comprometidas com a preservação do planeta.

Entre as empresas que aceitaram integrar o programa criado por Chouinard, estão C&A, H&M, Gap, Levis e Nike, algumas das marcas de roupas e acessórios mais famosas do mundo. Além disso,  desde 2005, a Patagonia aceita roupas usadas de seus clientes como parte do pagamento por novos produtos. Segundo a empresa, 70% dos itens da Patagonia são feitos de materiais reciclados, índice considerado baixo pelo fundador. A meta dele é chegar, até 2025, a 100% de materiais renováveis. Por todas essas razões, a Patagonia recebeu no ano passado o prêmio Campeã da Terra, maior honraria ambiental concedida pelas Nações Unidas.

Ativista convicto, Yvon Chouinard é um crítico feroz das empresas e de seus donos bilionários que pouco fazem em defesa do planeta. Recentemente, ele chamou Elon Musk, fundador da Tesla, e Jeff Bezos, da Amazon, dois dos homens mais ricos do mundo, de tolos. “Os investimentos que eles fazem em viagens interplanetárias são realmente uma vergonha”, disse o dono da Patagonia. “O dinheiro que está indo para a exploração espacial deveria ser usado para salvar o nosso planeta.”

Agora, Chouinard está incomodado com as dores do crescimento. Ele disse que seu maior desafio é fazer a Patagonia agir como uma empresa pequena novamente e que não vê nenhum benefício em ser uma gigante que fatura mais de US$ 1 bilhão por ano. Muito pelo contrário. Segundo o empresário, quando uma empresa fica grande demais pode ameaçar seriamente o planeta. E isso é tudo o que ele não quer para o seu negócio.

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