Economia

Um PIB muito otimista

Ministério da Economia revê de 2,4% para 2,1% a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto do país neste ano. Mas especialistas creem que equipe econômica desconsidera os impactos do coronavírus e contestam estimativa

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 12/03/2020 04:06

O Ministério da Economia anunciou ontem a revisão 2,4% para 2,1% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto em 2020, mas admite que pode cair a 1,9% com o impacto do novo coronavírus. As estimativas da pasta, em função do avanço da epidemia no país, indicam uma perda de 0,3 a 0,5 ponto percentual na expansão do PIB deste ano. As perspectivas de inflação da pasta passaram de 3,62% para 3,12%, mas as estimativas mais recentes apontam uma alta de 2,5% no custo de vida, devido à desaceleração na atividade neste início de ano.

Apesar de o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, tentar argumentar que as previsões estão ;em linha; com as expectativas do mercado, os dados compilados pela Secretaria de Política Econômica (SPE) deixaram os analistas ressabiados. Analistas ouvidos pelo Correio admitem que 1,5% passou a ser o teto, mas o risco de uma nova recessão no país não está descartado.

Ao apresentarem os números, os técnicos da equipe econômica tentaram minimizar a crise e reforçam a necessidade de avanço na agenda reformista. ;As reformas que serão enviadas (ao Congresso) constituem o pilar básico para termos uma resposta à altura e a contento para choques exógenos, bem como desafios internos da nossa economia;, afirmou Waldery.

Mas os novos dados apresentados pela equipe econômica não levaram em consideração a recente alta do dólar, que rompeu o patamar de R$ 4,70, e, muito menos, a forte queda no preço do barril de petróleo, que está sendo negociado em torno de US$ 30. Nos parâmetros utilizados pela SPE, foram considerados o preço do barril a US$ 52,70 e o câmbio a R$ 4,22. Essas projeções são consideradas otimistas e defasadas pelos analistas.

Nova realidade


A realidade mudou e o governo vai ter que tomar medidas que vão além das reformas ;; e se o Executivo continuar em cabo de guerra com o Congresso, o retrocesso pode ser grande. Como a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou ontem pandemia de coronavírus, a tendência, daqui para frente, é de desaceleração da economia global, com vários países entrando em recessão.

;Estamos recebendo os dados e o viés agora (do PIB brasileiro) é de baixa;, avisou a economista Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos. Ela reduziu de 2,2% para 1,8%, a estimativa de alta do PIB neste ano, mas reconhece que poderá, em breve, diminuí-la ainda mais.

;A projeção de 2,1% do governo é otimista em relação ao mercado financeiro, que está vendo a confiança caindo. Além da crise externa, que tem impacto direto na produção e que já tem um impacto na curva de juros futuros, que está subindo;, destacou. Para ela, a frustração de receita do governo será grande com os parâmetros utilizados e, portanto, ;o contingenciamento do Orçamento será inevitável;.

As previsões de crescimento do PIB abaixo de 1,5% estão aumentando. Ontem, foi a vez de o banco suíço UBS reduzir a estimativa para a economia brasileira, de 2,1% para 1,3%, mesma taxa prevista pela consultoria britânica Capital Economics, de 1,3%.

A economista Monica De Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), de Washington, faz um alerta para a crise que está se desenhando nesse cenário e prevê retração de 0,5% no PIB este ano. ;O país vai ter uma recessão contratada que poderá ser bem pior do que a de 2008. A equipe econômica não está entendendo a gravidade da situação, porque estamos falando de uma doença que pode ter um impacto em projeção geométrica, e não linear, como muitos economistas estão estimando. Essa crise não é igual a nenhuma outra que o país enfrentou. É muito pior;, salientou.

O economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) José Luis Oreiro também não poupou críticas às estimativas do governo, sobretudo ao ministro da Economia, Paulo Guedes, por afirmar que a economia ;está acelerando;, enquanto o mundo está desacelerando. ;Ele está fora da realidade. O país tem fábricas parando a produção, e outras devem parar, porque estamos presenciando um choque de oferta brutal;, afirmou. Para ele, o PIB pode crescer menos de 1% neste ano.

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