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Correio Braziliense

País corre risco de entrar em depressão, diz economista Monica De Bolle

Economista crê que recessão virá certamente devido à pandemia, mas situação pode se agravar pela incompreensão de Bolsonaro


postado em 17/03/2020 06:00 / atualizado em 17/03/2020 11:08

(foto: CeciliaAcioli/Folhapress)
(foto: CeciliaAcioli/Folhapress)
Diante da piora nas previsões para a economia mundial em virtude da Covid-19 e da dificuldade de compreensão do presidente Jair Bolsonaro para a seriedade da crise que está se formando, as chances de o país entrar em recessão são certas. Mas pode ser pior, na avaliação da economista Monica De Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), de Washington.

Para ela, as medidas que o governo tem sinalizado não serão suficientes para recuperar a atividade econômica. “O país pode entrar em depressão. Recessão é certa”, afirmou, ao Correio. “O quadro que o mundo enfrentará é de retração econômica, que reflete uma situação de guerra, como o presidente Emmanuel Macron (da França) falou. No caso do Brasil, será pior”, alerta.

A depressão consiste em um período longo de crise, como a que ocorreu em 1929, com o crash da Bolsa de Nova York. Esse cenário que é o pior dos mundos na economia, porque considera um elevado índice de falência de empresas, aumento acentuado do desemprego, escassez de crédito no mercado, baixos níveis de produção e de investimento, queda nas transações comerciais, alta volatilidade nas bolsas e no câmbio, além de hiperinflação e, obviamente, crise de confiança no governo.

Monica lembra que haverá uma paralisação generalizada da atividade econômica por conta do confinamento das pessoas. “Estamos falando da possibilidade de uma crise de insuficiência aguda de demanda e de oferta por mais de um ano. Tamanha ruptura nós jamais testemunhamos. Essa crise é inédita”, alerta.

Para a economista, a atitude de Bolsonaro, domingo, foi “criminosa”. Considera ainda que as medidas que o governo vem tomando são insuficientes. A seguir, os principais trechos da entrevista:


A senhora estudou várias crises e tem dito que a atual é diferente das anteriores, e que está apenas começando. Pelo fato de ser questão de saúde pública, e, por isso, os impactos econômicos podem ser de maneira não linear, é possível medir a intensidade dos efeitos no Brasil e no exterior?
Os impactos mais evidentes estão atrelados às respostas das autoridades de saúde pública, cujo objetivo não é mais conter o vírus, mas prolongar o pico da epidemia. Quanto melhor se distribui no tempo o volume de infectados, maior a capacidade de resposta dos sistemas de saúde — isto é, reduz-se a chance de sobrecarga. Contudo, o prolongamento do pico significa que a parada súbita da economia, devido às medidas de distanciamento social, vai se alastrar por meses. Uma vez contida a epidemia, a normalização também vai demorar meses. Portanto, estamos falando da possibilidade de uma crise de insuficiência aguda de demanda e de oferta por mais de um ano. Tamanha ruptura nós jamais testemunhamos. Essa crise é inédita.

Os bancos centrais fazem nova ação coordenada para estimular a economia, e o Fed reduz os juros para o intervalo de zero a 0,25%. Além disso, promete injetar US$ 700 bilhões no mercado. Essas medidas são suficientes para conter a previsão de retração global?
Não. Teremos uma recessão global. Lembre-se, a parada súbita será prolongada. Nos EUA, é provável que a economia fique paralisada até setembro, pelo menos. Haverá mais ações como essa última do Fed, além de estímulos fiscais.

Hoje temos o novo coronavírus dentro do Palácio do Planalto. O que isso pode implicar na economia e na política?

Pode gerar uma paralisia nefasta, num momento em que a necessidade de agir é mais do que urgente. O governo precisa, para ontem, tomar medidas para proteger os mais vulneráveis e a economia. Até agora as respostas foram insuficientes, não reconhecendo, portanto, o quão grave e inédito é o momento.

Quais as consequências políticas, econômicas e de saúde com a atitude de o presidente ir às manifestações, em um ato não recomendado pelo Ministério da Saúde?
É criminoso. As consequências são fazer do Brasil uma nova Itália, mas sem os recursos daquele país.

O governo, em um primeiro momento, minimizou o pânico dos mercados em relação ao coronavírus. E agora, está tomando as atitudes corretas?
Não, o que foi apresentado não dá conta da gravidade da situação.

Ao contrário da maioria das instituições financeiras, está prevendo crescimento de 2,1% do PIB neste ano em vez de 2,4%. Mas há previsões abaixo de 1%. Na sua avaliação, o país pode entrar em recessão?
O país pode entrar em depressão! Recessão é certa. O mundo vai enfrentar um cenário de retração econômica que reflete uma situação de guerra, como Emmanuel Macron colocou. No caso brasileiro, é pior. É PIB negativo mesmo e o país demorará bastante para retomar o crescimento.

E quais as consequências para a população se isso acontecer?

As piores. Com taxa alta de desemprego e dezenas de milhões de pessoas vulneráveis, estamos falando de muitas vidas em risco.

No caso do Brasil, que ainda não conseguiu se recuperar da recessão de 2015 e 2016, quais são os maiores riscos de uma recessão? Entramos em uma espiral do baixo crescimento definitivo?
Sem medidas, corremos o risco de uma depressão econômica. Não é recessão, mas depressão de que estamos falando. Como disse, parada súbita de tudo.

A senhora foi uma das primeiras pessoas a alertar sobre a fragilidade do teto de gastos, aprovado em 2016, por dois anos. Quais os riscos reais, hoje, dessa regra?
Que ela sufoque a capacidade de resposta do governo por ser excessivamente rígida. O governo precisa ter margem de manobra para fazer medidas extraordinárias, em tempos de ruptura sem precedentes. Caso não tenha, o custo é flertar com um quadro de depressão econômica. Não canso de repetir que depressão econômica é muito pior para a dinâmica da dívida pública do que medidas excepcionais — para não dizer que depressão econômica tem um impacto social absolutamente brutal. Aqui, temos como referência a experiência dos anos 1930.

Mas o teto de gastos não é um dos pilares da confiança do mercado no governo, e de que ele conseguirá controlar as contas públicas nos próximos anos?
Que confiança em meio a uma pandemia? Como disse, a depressão econômica é muito pior para as contas públicas.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou um pacote de R$ 147 bilhões na economia. Qual é a sua avaliação dessas medidas? Elas estão na direção correta?

As medidas estão na direção correta, mas podem ser insuficientes dado o tamanho da crise. Para o SUS, por exemplo, é necessário ter recursos ilimitados para atendimento, equipamentos, pessoal. É preciso ampliar muito a rede de proteção social para atender os 46 milhões em situação de informalidade ou emprego precário.

A senhora vem estudando coronavírus e se tornou até uma consultora no Peterson Institute, que interromperá as atividades nesta semana, sobre o assunto. Que conselhos a senhora daria para os brasileiros e ao governo em relação à doença?
A complacência mata. Essa doença é grave –– é uma variante da SARS, de 2002 a 2003. Não é uma gripe e o grau de contágio é simplesmente espantoso. Fiquem em casa, evitem aglomerações, apoiem os mais vulneráveis, e tenham em mente que a questão não é você desenvolver a doença. A questão é não passá-la adiante para aqueles que não podem dela se defender. Trata-se de um problema de ação coletiva, não de proteção individual.

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