Economia

PIB negativo no horizonte

Por causa do avanço da Covid-19, que provocará um violento choque na atividade econômica brasileira, bancos internacionais e consultorias estimam recessão. Cenário projeta crescimento que vai do zero ao recuo

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 18/03/2020 04:13
A recessão econômica global decorrente da pandemia da Covid-19 é uma realidade nas novas projeções do mercado financeiro. Grandes bancos internacionais, consultorias e corretoras refazem as contas e admitem que, diante do forte choque na atividade que está por vir, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil poderá ser negativo em 2020.

O cenário é de terra arrasada diante do confinamento das pessoas em vários países, apesar de o presidente Jair Bolsonaro continuar minimizando os efeitos, aqui e no mundo, sobre a doença e o impacto dela na economia. O confinamento das pessoas em casa, como recomendam as autoridades médicas, cria um choque duplo de oferta e demanda, que não deverá ser contornado com as tradicionais receitas dos economistas. Por isso, a intensidade da crise é uma incógnita.

O economista-chefe da área de pesquisas para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, adiantou que o banco prevê queda no PIB do Brasil devido ao ;choque violentíssimo; na atividade que está por vir ;; a previsão atual é de alta de 1,5%. ;Estamos, no momento, revendo nossas projeções, mas é bem provável que o crescimento do PIB será zero ou negativo neste ano;, disse.

Ontem, o Goldman Sachs cortou de 1,9% para 1,25% a estimativa de crescimento global para este ano, e prevê queda no PIB da Zona do Euro, e no do Japão, do Canadá e do Reino Unido, entre outros. Pelas estimativas do banco, a economia da China registrará um ;enfraquecimento significativo;, devendo crescer de 3% a 4%. Enquanto isso, a maior economia do planeta, os Estados Unidos, deve registrar avanço de apenas 0,3%. ;Estamos com recessão global e os efeitos no Brasil não serão apenas externos. As medidas de afastamento do trabalho e social terão também um impacto na demanda doméstica;, alertou Ramos.

A economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, também pretende cortar a previsão de expansão do PIB brasileiro deste ano, que estima em 1,6%. ;Estamos mudando nossas previsões e o PIB negativo está no jogo;, informou.

Pelas projeções de Carlos Thadeu Filho, economista-chefe da Ativa Corretora, o PIB deverá ter crescimento nulo este ano, mas ;na pior das hipóteses, encolher 0,5%;. Essa previsão, aliás, é a mesma da economista Monica De Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE). Em entrevista publicada ontem, no Correio, ela alertou para o risco de o país mergulhar em uma crise e não conseguir sair, especialmente porque não cresce mais do que 1,3% desde 2017. ;O país pode entrar em depressão. Recessão é certa;, alertou.

O Credit Suisse também divulgou as novas projeções para o Brasil, reduzindo de 1,4% para zero a expectativa de crescimento de 2020. O banco prevê recessão no país já no primeiro semestre, com retração econômica de 0,3%, no primeiro trimestre, e de 1,6%, no segundo. Conforme o relatório da instituição, o recuo da economia ainda poderá se estender na segunda metade do ano, sinalizando também um PIB negativo para o ano. ;Não é possível descartar recessão muito mais significativa, dependendo do tempo que leva para o governo para conter o impacto negativo do vírus;, alertou.

Questão fiscal
A piora nas estimativas considera a falta de capacidade fiscal do governo em reagir diante da crise. Estão bem distantes da expectativa de crescimento de 2,1% da equipe econômica do ministro da Economia, Paulo Guedes, que não tem mais argumentos para sustentar uma previsão irreal ;; e admite uma mudança na meta fiscal, que permite um rombo nas contas públicas de até R$ 124,1 bilhões, podendo ser ampliado em pelo menos mais R$ 40 bilhões. O pacote de R$ 147,3 bilhões, anunciado pelo ministro, foi considerado tardio e não empolgou os analistas.

;A medida é bem-vinda. No entanto, não cobre os que estão fora do sistema de emprego formal;, lamentou o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. Ele também está no grupo daqueles que não descartam PIB negativo neste ano. Lembrou que as reformas que Guedes defende, mesmo se aprovadas, não são a solução para evitar a recessão. ;Ademais, 40 milhões de brasileiros, dos 92 milhões de ocupados, atuam em atividades informais, sem carteira de trabalho;, reforçou.

O economista Gil Castello Branco, secretário-geral da ONG Contas Abertas, também considera o pacote do governo pequeno, se comparado com os bilhões de dólares que estão sendo anunciados pelos governos dos Estados Unidos e da Europa para combater a Covid-19. ;Se o vírus tiver um crescimento exponencial no Brasil, creio que a hipótese de o país entrar em depressão é a mais plausível;, avaliou.

Copom
Devido à perda de tração na atividade, apostas do mercado agora passam para um corte de até 1 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic), hoje, pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central. O resultado da decisão do segundo dia de reuniões do colegiado será divulgado após o fechamento dos mercados.

Apesar da expectativa de corte, há um consenso de que a Selic menor não ajudará na retomada da atividade, a exemplo do pacote de Guedes. Mesmo assim, as previsões para a taxa no fim do ano começam a ficar entre 2,5% e 3%, pois as previsões de inflação estão em queda livre e cada vez mais próximas de 2%, devido ao aumento das chances do PIB negativo.

Alberto Ramos, do Goldman Sachs, aposta em corte nos juros, de 0,25 ponto a 0,5 ponto, mas acredita que outros virão e pretende reduzir sua previsão para Selic de 3,75% para 3%, ou menos.

Para o economista e consultor Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do BC, a redução dos juros não ajudará a aumentar a atividade e evitar o PIB negativo. ;Em uma crise clássica, como ocorreu em 2008, e em 2014, fazia sentido uma queda de juros para estimular a demanda. Mas, agora, com esse novo cenário, o mercado está buscando um remédio que não serve para a crise atual. Não há uma crise básica;, ressaltou.




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