Economia

Bem-vindas, mas limitadas

Especialistas estimam que as medidas anunciadas por Paulo Guedes, na última segunda-feira, não dão fôlego à economia. Reclamação é de que não contemplam setores vulneráveis, necessitados de que a ajuda chegue imediatamente

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 18/03/2020 04:13
Solmucci, da Abrasel: único jeito de evitar desemprego em massa é injetar dinheiro direto nas empresas

As medidas apresentadas na última segunda-feira pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, para conter os prejuízos com a disseminação do coronavírus são bem-vindas, mas estão longe de dar o fôlego necessário para que a economia consiga reagir, avaliam especialistas ouvidos pelo Correio. Grupos mais vulneráveis e setores que precisam de intervenções com urgência, reclamam que não foram contemplados. Alguns, como o setor de bares e restaurantes, alertam que estão à beira de um colapso.

O governo não anunciou nenhuma medida específica, por exemplo, para socorrer os trabalhadores informais. Pelos dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 38,8 milhões de brasileiros que correm o risco de ficar sem serviço e sem dinheiro. A principal fonte de rendimento desse grupo depende de demanda, restrita em tempos de crise e quarentena. E, sem carteira assinada, esses trabalhadores não têm nenhum tipo de garantia ou auxílio, caso fiquem doentes ou precisem se afastar.

Para diminuir os prejuízos dos mais necessitados, o economista Mauro Rochlin, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), acredita que o governo precisa adotar medidas que vão além da regularização do Bolsa Família e das outras providências anunciadas, que, na visão dele, ;são gotas para apagar um incêndio;. Pode ser necessário, por exemplo, distribuir alimentos para a população de baixa renda e para trabalhadores informais que ficarem desassistidos.

O economista Ricardo Balistiero, especialista em economia do setor público, sugere políticas ainda mais ;caras;, como colocar, literalmente, dinheiro na mão das pessoas, a exemplo do que será feito nos Estados Unidos. ;Não sei se, no Brasil vamos fazer isso, mas talvez tenha que se pensar em algo parecido. No momento, temos que tomar medidas urgentes, o que não foge de políticas assistencialistas. É um choque de realidade para o ministro (Paulo Guedes), que agora entende para que serve o Estado;, disse.

O mesmo vale para as mudanças no Bolsa Família. O governo anunciou que vai zerar a fila e colocar mais 1 milhão de famílias no programa de transferência de renda. Mas, para o economista Frederico Gomes, professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), falta garantir um aumento temporário nos repasses. Hoje, o governo paga, em média, R$ 191 por mês às famílias cadastradas.

O Ministério da Economia estuda ampliar o valor, mas ainda não anunciou nenhuma medida concreta nesse sentido. ;Acho prudente, porque essas famílias são extremamente vulneráveis;, ressalta Gomes. Ele lembra que muitos governos estaduais e municipais estão fechando escolas, o que prejudica crianças carentes. ;Muitas delas dependem da merenda. Isso faz toda a diferença no orçamento dessas famílias, que agora estão gastando mais com alimentação;, ressalta.

Colapso
Trabalhadores que têm carteira assinada também podem enfrentar problemas, mesmo com as medidas anunciadas pelo governo, como adiantamento de abono salarial e resgates do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Uma das maiores preocupações é a possibilidade de que empresas precisem fechar as portas e demitir os funcionários. Situação que, segundo o presidente executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, não está longe de acontecer.

;A velocidade em que mudou o quadro é tão alarmante que o setor já está em colapso;, alertou. Ele levou o recado ao presidente Jair Bolsonaro e a Guedes, na última segunda-feira, e afirmou, na ocasião, que o único jeito de evitar desemprego em massa é colocar dinheiro direto no caixa das empresas. Pelos cálculos da Abrasel, é preciso que o governo libere algo entre R$ 1 bilhão e R$ 1,5 bilhão. ;Vamos ter que abrir mão da política liberal agora e entender que o momento é de emergência, tem que ser enfrentado por medidas de exceção;, afirmou.




"Temos que tomar medidas urgentes, o que não foge de políticas assistencialistas. É um choque de realidade para o ministro (Paulo Guedes), que agora entende para que serve o Estado"
Ricardo Balistiero, economista estudioso do setor público





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