Economia

Pacote anunciado pelo governo deve liberar R$ 1,2 trilhão aos bancos

Medidas têm o objetivo de evitar falta de recursos e facilitar concessão de crédito. Volume é quase 10 vezes maior do que o movimentado na crise de 2008. Presidente do BC diz que não há risco de quebra de instituições

O Banco Central (BC) anunciou, nesta segunda-feira (23/3), um pacote de medidas para injetar dinheiro no mercado em uma tentativa de mitigar o ambiente de incerteza provocado pela pandemia do novo coronavírus. Segundo o presidente do BC, Roberto Campos Neto, o pacote soma R$ 1,216 trilhão, ou 16,7% do Produto Interno Bruto (PIB), incluindo ações que ainda estão em estudo. Comparado aos R$ 117 bilhões aplicados no socorro aos bancos durante a crise financeira global de 2008 e 2009, que corresponderam a 3,5% do PIB, o montante é quase 10 vezes maior. 


“O BC está absolutamente tranquilo em relação ao que estamos atravessando”, afirmou Campos Neto. Ele reforçou que o “arsenal é grande”, inclusive, para lidar com a desvalorização do real, e descartou o risco de quebra de bancos, como ocorreu no passado. “Em 2008, a incerteza era se o banco ia quebrar ou não. Agora, não falamos disso”, garantiu.

Apesar do volume expressivo das medidas, a confiança no país piorou, lembrou o economista José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB). A curva de risco subiu novamente para os títulos públicos com vencimento a partir de 2023, variando 1,5% até 5,9%. “Parece que não funcionou”, disse.

Uma das ações anunciadas, ontem, foi a redução temporária, de 25% para 17%, da parcela dos depósitos compulsórios de longo prazo dos bancos, recursos que ficam parados no BC. A medida vale até dezembro e a expectativa é injetar R$ 68 bilhões no mercado de crédito. Em janeiro, o compulsório havia caído de 31% para 25%, o que propiciou a liberação de R$ 135 bilhões. Somadas, as duas decisões podem representar expansão de R$ 203 bilhões em empréstimos. Contudo, esse montante não significa dinheiro na veia da economia, porque é preciso haver demanda pelos recursos.

“No momento, esse tipo de medida é ineficaz para a atividade econômica, e só vai fazer sentido quando a pandemia for controlada”, avaliou o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez. Ele lembrou que um dos termômetros do risco de calote do governo, o Credit Default Swap (CDS) para os títulos públicos de cinco anos, voltou a subir, passando de 335 pontos, na sexta-feira, para 361 pontos, ontem.

Outra medida foi a liberação de empréstimos com lastro em debêntures de empresas, com potencial de R$ 91 bilhões. Na avaliação do ex-diretor do Banco Central e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, Carlos Thadeu de Freitas Gomes, é uma ação perigosa, pois o contribuinte pagará a conta se a empresa quebrar no meio da crise. “O BC está aceitando dívida privada como garantia. Isso é muito arriscado”, alertou. Para Sanchez, o BC tenta criar fluxo para um problema que já existe, de R$ 20 bilhões de debêntures encalhadas. “Ele está buscando fazer o mercado girar”, disse.

Foi criado, ainda, o Depósito a Prazo com Garantias Especiais (DPGE) que, pelas estimativas do BC, permitirá uma expansão da concessão de crédito em R$ 200 bilhões. 

Campos Neto também citou a flexibilização das regras das Letras de Crédito Agrícola (LCA), que pode ter impacto de R$ 2 bilhões na liquidez dos bancos. Entre as medidas em estudo, está a concessão de empréstimos com garantia em Letras Financeiras, que poderia liberar R$ 670 bilhões. “Uma nova redução do compulsório e o direcionamento de créditos para pequenas e médias empresas também estão em análise”, disse. 

O presidente do BC disse esperar que as medidas ajudem a reduzir os juros para o consumidor. Contudo, o diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Miguel Oliveira, não acredita que isso ocorra. “As medidas amenizam os impactos da crise e dão mais dinheiro aos bancos. Mas não vão ser suficientes para baixar o spread, porque os juros estão subindo e o risco de crédito é maior nesse cenário de incerteza. Com a recessão, o desemprego vai se agravar elevando a inadimplência, que é um dos itens que compõem o custo do dinheiro” explicou.

O economista-chefe do Itaú, Mario Mesquita, elogiou o pacote do BC. “São medidas úteis e importantes, que devem fornecer alguma ajuda — mas o principal ponto não é amparar o sistema em si, e, sim, como levar liquidez às pequenas e médias empresas” afirmou. O economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, avaliou que as medidas estão no caminho certo. “Temos que ter uma reserva de liquidez para conseguir suportar possíveis aumentos da inadimplência”, disse.

Clientes podem adiar pagamentos

Clientes dos cinco maiores bancos do país — Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco e Santander — podem suspender por até 60 dias o pagamento das parcelas de financiamentos de imóveis e de veículos, entre outros. A medida, em resposta à crise provocada pelo novo coronavírus, foi determinada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A Caixa permite que financiamentos com até duas parcelas em atraso sejam congelados. Já para os outros bancos, os cidadãos devem estar com todas as prestações pagas até o momento. Para solicitar o adiamento, os clientes podem acionar os canais de relacionamento remoto das instituições, sem precisar comparecer às agências.