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Correio Braziliense

Da euforia ao pânico: após bom início de ano, Ibovespa tem perdas seguidas

Após um início de ano espetacular, acima de 100 mil pontos, Ibovespa amarga perdas seguidas e monumentais com a pandemia da Covid-19. Especialistas avaliam uma queda entre 13,5% e 56,7% para 2020, a depender do nível de pessimismo no mercado financeiro


postado em 12/04/2020 08:00 / atualizado em 11/04/2020 22:44

(foto: CB/D.A Press )
(foto: CB/D.A Press )
O ano de 2020 começou com a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) a todo vapor e com os investidores empolgados. As apostas eram de novos recordes para o Índice Bovespa (Ibovespa), que estava em escalada desde 2019, podendo chegar a até 150 mil pontos em dezembro. Contudo, a crise global desencadeada pela pandemia da Covid-19 e as frustrações com os primeiros indicadores de atividade do país fizeram as previsões murcharem.

Analistas ouvidos pelo Correio preveem a Bolsa fechando o ano com queda entre 13,5% e 56,7%. Será a primeira vez que ela voltará ao vermelho desde 2015, primeiro ano da última recessão. Vale lembrar que a maior queda do Ibovespa ocorreu em 2008, de 41,2%. As estimativas mais otimistas preveem o Ibovespa chegando a 100 mil pontos no fim do ano; as pessimistas preveem que o principal índice da B3 poderá recuar para menos de 50 mil pontos. A maioria das apostas fica entre 60 mil e 70 mil pontos, o que representaria perdas de 40% a 48%.

A diferença entre as previsões é resultado do aumento das incertezas sobre o momento em que a economia vai se recuperar efetivamente. Ainda não se sabe quando a curva de contágio do coronavírus vai parar de crescer no país tampouco quando a atividade econômica será retomada e em que velocidade. “Houve uma tempestade perfeita no começo do ano e, no segundo trimestre, teremos uma situação igualmente difícil para a atividade econômica. Estamos vendo a Bolsa subindo e descendo com muita intensidade, mostrando que o nível de disfuncionalidade do sistema está muito forte ainda para termos previsões mais precisas”, avalia Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

Em 2019, a B3 encerrou o ano aos 115,6 mil pontos. A projeção otimista da Ativa é de 100 mil pontos no fim do ano, mas esse cenário é improvável no momento, segundo Arbetman. “Com base nas estatísticas atuais e olhando para o histórico do Ibovespa nos últimos 10 anos, a gente chegou à conclusão de que, no fim do ano, o fechamento ficaria perto de 80 mil pontos”, explica.


Ganho anulado


Apesar de subir 11,7% na última semana acompanhando a reação positiva aos novos pacotes de socorro dos Estados Unidos e da Europa, encerrando em 77.681 pontos, o Ibovespa acumula queda de 32,8% desde janeiro, anulando o ganho de 31,6% de 2019.

A chegada da Covid-19 ao país no meio do carnaval acabou com a euforia dos “farialimers”, investidores e operadores da região da Avenida Faria Lima, na Zona Sul de São Paulo, o Vale do Silício do mercado financeiro. As perdas das empresas de capital aberto listadas na B3 somaram R$ 1,4 trilhão, no acumulado do ano até a última sexta-feira, conforme dados levantados pela Economática. No primeiro trimestre do ano, o recuo da B3, de 36,9%, foi o maior da história, superando o recorde de 1986 para o período, segundo a consultoria.

Neste ano, a Bolsa tem ficado no topo do ranking de pior investimento no ano. Analistas, inclusive, admitem que haverá uma correção no preço dos ativos, que estavam sobrevalorizados. De acordo com o estrategista-chefe da XP Investimentos, Fernando Ferreira, por trás dessa queda forte da B3 também está um ajuste de preços. “O mercado vinha operando em alta há 10 anos lá fora e o Brasil estava atrasado nesse cenário de recuperação. O preço das ações estava acima da média de 10 vezes o lucro, em torno de 12 vezes, mas nos EUA, a Bolsa operava 14 a 15 vezes o lucro”, afirma Ferreira. “O coronavírus pegou o mercado em um momento de preços altos, principalmente, lá fora. Aqui, havia muitos papéis caros e que agora vão ter seus valores de mercado ajustados”, complementa.

“A Bolsa estava sobrevalorizada, e essa crise de saúde pública está ajudando a corrigir os preços do mercado, que estava ignorando os riscos políticos que aumentam quando o presidente Bolsonaro tenta minimizar a pandemia, na contramão do mundo”, acrescenta a economista Juliana Inhasz, professora do Insper.

A queda brusca da Bolsa vem assustando até os analistas mais experientes. Eles lembram que, pela primeira vez na história foram acionados seis circuit breakers em março, em menos de 10 dias de pregão. “As perdas foram em volumes muito grandes e que superaram as crises anteriores tanto aqui quanto nos Estados Unidos. A Bolsa norte-americana caiu 24% em termos reais, o dobro da queda em 2008, na crise financeira global, de 12%”, compara o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani. “A queda nas Bolsas está sendo abrupta e de grande intensidade em um curto espaço de tempo. Ainda faltam informações sobre a duração dessa crise e de quando ela vai ser superada para podermos fazer projeções mais claras”, complementa.

Padovani aposta que o Ibovespa volte a subir no fim do ano, chegando a 90 mil pontos em vez dos 120 mil estimados anteriormente. No cenário pessimista, com o processo de retomada mais lento, ele prevê a Bolsa fechando 2020 em 65 mil pontos.


“Houve uma tempestade perfeita no começo do ano e, no segundo trimestre, teremos uma situação igualmente difícil para a atividade econômica”
Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos


Botão de pânico

O circuit breaker é um mecanismo de defesa das Bolsas de Valores para evitar quedas muito bruscas. Na Bolsa de Valores de São Paulo (B3) ele é acionado quando o Índice Bovespa atinge queda de 10%. Os negócios são paralisados por 30 minutos e, se quando for retomado o tombo ficar acima de 15%, a interrupção é mais longa, por 60 minutos. E se, na volta, houver uma queda superior a 20%, a Bolsa volta a fechar por prazo indeterminado. Em março, esse botão de pânico foi acionado seis vezes em menos de 10 dias, sendo duas em um único dia, no último dia 12, quando a B3 encerrou o dia com queda de 14,8%, a 72.582 pontos. 


Sobe e desce


A pandemia da Covid-19 acertou em cheio a Bolsa de Valores de São Paulo (B3), que deve encerrar o ano no vermelho pela primeira vez desde 2015

>> Histórico diário do Ibovespa

Data Pontos Variação — em %

31/3/20 73.019 -2,17

1º/4/20 70.966 2,81

2/4/20 72.253 1,81

3/4/20 69.537 -3,76

6/4/20 74.073 6,52

7/4/20 76.358 3,08

8/4/20 78.624 2,97

9/4/20 77.681 -1,20


>> Histórico anual do Ibovespa

Ano Pontos Variação — em %

2013 51.507 -15,50

2014 50.007 -2,9

2015 43.350 -13,3

2016 60.227 38,9

2017 76.402 26,9

2018 87.887 15,0

2019 115.645 31,6

2020* 77.681 -32,8


*Até 9 de abril


Número 1

R$ 1,4 trilhão

Total de perdas em valor de mercado das empresas listadas na B3 no acumulado do ano


Número 2

Entre 50 mil e 100 mil pontos

Previsão de analistas ouvidos pelo Correio para a B3 neste ano, o que significa uma queda de 13,5% a 56,7% no ano


Queda histórica
O primeiro trimestre foi o pior da história da Bolsa brasileira, conforme levantamento da Economática

Veja as cinco maiores quedas do principal índice da B3

Período Variação — em %

1. 1ºtri-2020 -36,9

2. 1ºtri-1986 -36,2

3. 1ºtri-1998 -31,9

4. 1ºtri-1995 -31,6

5. 1ºtri-1987 -28,4


Debandada

Enquanto os brasileiros se empolgaram com a Bolsa brasileira buscando retorno, os estrangeiros bateram em retirada. Neste ano, a saída é recorde


Movimento de estrangeiros na B3 — em R$ bilhões


Ano - Compras - Vendas - Saldo

2014 - 935,9 915,5 20,4

2015 - 884,2 867,8 22,4

2016 - 967,6 953,3 14,3

2017 - 1.045,6 1.031,3 14,3

2018 - 1.487,1 1.498,6 -11,5

2019 - 1.895,7 1.940,3 -44,6

2020* - 839,4 905,5 -66,1

*Até 7 de abril


Cautela
Apesar de o volume de investidores ser recorde na Bolsa, a participação do investidor pessoa física tem registrado mesmo percentual desde fevereiro


>> Evolução dos investidores pessoa física na B3

Ano Total

2015 557.109

2016 564.024

2017 619.625

2018 813.291

2019 1.681.033

2020* 2.243.362

*Posição de março


>> Participação dos investidores pessoa física na B3

Ano % do total de investidores

2015 13,7

2016 17,0

2017 16,8

2018 17,9

2019 18,2

2020* 15,9


*Dado de abril


Pé no freio
Lançamento de ações na Bolsa deve ficar em modo de espera daqui para a frente

Ano Volume de IPOs — em R$ bilhões

2015 0,6

2016 0,7

2017 20,7

2018 6,8

2019 9,8

2020* 3,7

*Dado até abril

Fontes: B3 e Economática

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