Economia

Sobre a falta de oportunidades

postado em 20/04/2020 04:34
O país sairá mais endividado da pandemia de coronavírus, o que deve acentuar a desigualdade social. ;O Brasil vai sair mais desigual do que entrou;, alerta Daniel Duque, pesquisador da área de Economia Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV). ;A parte mais afetada, aquela que não pode ficar em casa no home office, que trabalha com atividades manuais, cujas empresas pararam, será demitida. O mercado de trabalho se agravará muito;, prevê.
Com isso, o acesso à saúde vai piorar, porque quem tem plano de saúde e perde o emprego corre para o SUS. ;As estatísticas de mortalidade parecem mais concentradas em locais mais vulneráveis. Talvez, isso obrigue o governo a repensar as políticas públicas e aumentar o gasto social. O auxílio emergencial, por exemplo, não deve durar só três meses;, afirma Duque.
Para Cristina Mello, economista da ESPM SP, essa crise tem uma característica diferente porque a condição de desigualdade ameaça o conjunto da sociedade. ;Temos desigualdade interpessoal, salarial, regional e funcional. Todas emergem da mesma questão, a falta de oportunidade. Porque se todos tivessem acesso às mesmas habilidades, seria uma questão de escolha;, avalia. ;Por isso, precisamos corrigir a inacessibilidade à educação, à terra e à formação;, diz.
A crise também descortinou efeitos negativos da desindustrialização. ;A pandemia destruiu emprego e cadeias produtivas. Para ter alguns produtos, dependemos de outros países, e o transporte está limitado. Também falta acessibilidade à informação;, enumera.
Segundo ela, o governo presumiu que as pessoas tivessem smartphone e celular, sem promover o acesso ao letramento digital e midiático. ;Quem não sabe usar a tecnologia fica excluído socialmente.;
No entender de Claudio Frischtak, presidente da Inter B Consultoria, a grande questão é como o país vai encontrar uma saída. ;Como o país vai resolver o endividamento e empobrecimento? Não pode ser via inflação, pois penaliza a população, nem por aumento de impostos. O que vai ocorrer, na minha opinião, é uma pressão crescente para cortar os privilégios exorbitantes que continuam existindo. Ainda que haja uma insensibilidade muito grande por parte das elites, acho difícil esses privilégios sobreviverem à crise.;

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