A dicotomia do discurso do governo é considerada um dos problemas não apenas no enfrentamento da pandemia de Covid-19 sobre a adoção de medidas de distanciamento social como também sobre a retomada da economia no período pós-crise. O aumento das tensões internas com a renúncia do ministro da Justiça, Sergio Moro, gera mais dúvidas se esse processo poderá ser bem-sucedido, especialmente, na divisão sobre a estratégia de abertura ou de fechamento do mercado brasileiro que podem ser uma nova trincheira de conflitos para o ministro da Economia, Paulo Guedes.
O ministro e sua equipe seguem a cartilha do liberalismo econômico, com abertura do mercado, aumento da concorrência para que os mais eficientes sobrevivam, sem protecionismo do Estado. Já os considerados olavistas e que estão mais próximos do presidente Jair Bolsonaro vão na contramão desse discurso, que é defendido por um grupo pequeno nos Estados Unidos que ganhou espaço com a eleição de Donald Trump. Antes, eles não tinham espaço entre os republicanos, tradicionalmente liberais e a favor do livre comércio. Logo, essa será outra pedra no sapato do chefe da equipe econômica, além do Pró-Brasil, plano lançado pelo ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, que defende uma saída com aumento de gastos do governo, em uma linha mais desenvolvimentista, totalmente contrária à cartilha da equipe econômica.
O plano de retomada pós-pandemia da Casa Civil vai ser o centro de embates de Guedes e sua equipe e os ministros, auxiliares e filhos do presidente Jair Bolsonaro que repetem o discurso de Trump contra a China e defendem políticas nacionalistas. Resta saber quem vencerá esse cabo de guerra, uma vez que, depois de Moro, Guedes pode ser o próximo ministro a ser defenestrado pelo governo que está mergulhando de cabeça num abismo de polêmicas.
Na avaliação dos analistas ouvidos pelo Correio, o governo precisa de um plano muito bem elaborado para a retomada, evitando políticas protecionistas com subsídios para setores que não sejam competitivos, apenas para tentar tirar os chineses da jogada. Eles alertam que o discurso nacionalista contra a China pode ser muito prejudicial ao Brasil, que não tem o mesmo perfil econômico dos EUA. “Resta saber qual dos dois discursos vai prevalecer, porque se for o nacionalista e o desenvolvimentista, não fará sentido a continuidade de o ministro Paulo Guedes na equipe. O embate vai ser duro”, comenta um técnico do governo.
Retrocesso
Cristina Helena Pinto de Mello, economista e pró-reitora nacional da pesquisa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), reconhece que esse discurso contraditório no governo, que não é recente, é preocupante e um fator de risco para a retomada da economia, “porque o país pode entrar em um novo processo de retrocesso com ideias conflitantes”.
O Brasil é muito mais dependente da China e, portanto, quanto menos ela crescer, menos o Brasil crescerá, reforça Wagner Parente, especialista em comércio internacional e CEO da BMJ Consultores. “Se a economia chinesa não cresce, a demanda por commodities brasileiras, que representam mais da metade das exportações nacionais, será menor daqui para frente. Além disso, a indústria daqui importa muitos insumos chineses e, se não houver demanda interna, dificilmente haverá investimento para expandir o parque industrial”, afirma. No primeiro trimestre do ano, a China encolheu 6,8%. As novas estimativas da Capital Economics apontam para queda de 5% no Produto Interno Bruto (PIB) chinês, algo que pode ser um desastre para a economia brasileira.
De acordo com Parente, Guedes precisará se posicionar a favor da China, como faz a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que vive apagando os incêndios de declarações contra os chineses de integrantes do governo, e virou novo alvo dos olavistas. “Medidas protecionistas e favoráveis a um processo de reindustrialização com atuação muito pesada da União não possuem espaço nas contas públicas”, destaca.
Um dos críticos aos subsídios para empresas que não são competitivas, o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, lembra que, em tempos de vacas gordas, o empresariado brasileiro e o mercado financeiro não repartem os lucros e defende a livre regulação do mercado. Mas, quando há uma crise, são os primeiros a pedirem socorro do governo ou dividirem o prejuízo com o consumidor. “Aqui não há visão de longo prazo e, nas crises, todo mundo quer socializar o prejuízo sem fazer uma poupança para tempos de crise, como faz a China”, compara.
“Se a economia chinesa não cresce, a demanda por commodities brasileiras, que representam mais da metade das exportações nacionais, será menor daqui para frente”
Wagner Parente, CEO da BMJ Consultores