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Correio Braziliense

Donos de bancas do DF reclamam de campanha lançada pelo Santander

Proprietários de estabelecimentos que vendem jornais e revistas contestam o projeto lançado pelo Santander para financiar a ampliação de negócios com taxas de juros consideradas muito altas por eles


postado em 22/05/2020 06:00 / atualizado em 22/05/2020 11:40

(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
Donos de bancas de jornal no Distrito Federal reclamam da campanha do banco Santander, que anuncia linha de crédito para financiar a transformação dos estabelecimentos em novos negócios, como chaveiro, floricultura, assistência técnica de celular e manicure. A rejeição deles é à taxa de juros mensal a partir de 2,99%, e ao prazo de pagamento, de até 24 meses. Os valores disponibilizados variam de R$ 15 mil a R$ 60 mil. Fazer publicidade para o banco é outra contrapartida para ter acesso aos recursos do projeto, batizado de A Gente Banca.

“Eu fiquei otimista na hora (em que viu a propaganda), mas, depois, desanimei bastante”, criticou Fabiana Costa Lopes, que administra uma banca na Quadra 111 da Asa Norte. “Os juros são altos demais, e o tempo para pagar, muito pouco. Para o Santander, vale a pena, mas o jornaleiro que pegar pode se lascar.” Fabiana pensava em reformar a estrutura da banca, de “lata” para alvenaria, construir um banheiro e fazer uma lanchonete. Hoje, além de jornais e revistas, o estabelecimento vende salgados, doces e água. “Se eu pegar R$ 40 mil, como vou pagar depois, nessa crise em que estamos? Não vale a pena.”

Izael Xavier, dono de uma banca no Bairro de São Geraldo, em Belo Horizonte, não acredita que o projeto apoiará os jornaleiros. “O banco não está aqui para ajudar a classe desamparada, a classe demolida”, disse. Segundo ele, muitos colegas de profissão tentaram se inscrever, mas não obtiveram resposta do Santander, que, de acordo com Izael, estabeleceu prazo de cinco dias úteis para retornar. “Tem pegadinha nesse meio, eu não confio”, contou o microempreendedor. No entanto, o banco sustenta que todos que se inscreverem no programa receberão um primeiro contato, por e-mail, dentro do prazo previsto.

O jornaleiro Izael Xavier também questiona se há alvarás liberados para o funcionamento dos dois negócios. Segundo ele, é arriscado aderir a uma proposta sem saber da viabilidade. Ele disse temer que, após a reforma oferecida, o banco deixe o proprietário desamparado.

O Santander esclareceu que é de exclusiva responsabilidade do interessado em participar do projeto obter as aprovações necessárias juntos às autoridades. “Para a reforma da banca de jornal, para a inclusão de um novo serviço e para veiculação de publicidade”, informou. Sobre o amparo ao jornaleiro, o banco afirmou que haverá um agente acompanhando o negócio.

Conar
A Associação Nacional de Jornais (ANJ) entrou com representação no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) contra a campanha do Santander “que deprecia jornais por apresentá-los, na estética e no roteiro dos anúncios, como meios desprezados e ultrapassados”, conforme destacou o presidente da entidade, Marcelo Rech.

De acordo com Rech, diante dos protestos imediatos contra a campanha, o Santander enviou pedido de desculpas à entidade e modificou peças publicitárias, mas manteve “estética e roteiros depreciativos”. “Em um dos filmes, chega a propagar uma desinformação absurda: 'Ninguém mais compra jornal em banca. Todo mundo lê notícia pelo celular'. Na realidade, todos os dias, centenas de milhares de exemplares de venda avulsa são comprados por consumidores que buscam informação digna e confiável, grande parte deles de baixa renda”, enfatizou.

O presidente da ANJ destacou, ainda, que o banco publicou uma sobrecapa em vários jornais com um tom respeitoso e adequado, que não se replica nas demais peças. “É especialmente lamentável ver uma campanha que deprecia jornais, ainda que não seja a intenção, ser lançada no momento em que a imprensa está engajada em uma extraordinária cobertura de uma das maiores tragédias da história recente, levando informação essencial a milhões de pessoas”, ressaltou, numa referência à pandemia da covid-19.

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