Economia

Pandemia acaba com 1,1 milhão de empregos com carteira assinada no país

Números do Caged se referem ao fechamento de vagas de trabalho com carteira assinada em março e abril. Só no mês passado, 860 mil postos formais foram eliminados, o pior resultado mensal da série histórica

Marisa Wanzeller*, Marina Barbosa
postado em 28/05/2020 06:00

Para Bianco, números poderiam ser piores sem medidas do governoA operadora de caixa Letícia Barbosa, de 30 anos, perdeu o emprego assim que a crise do novo coronavírus provocou o fechamento do comércio. Sem poder receber clientes, a livraria em que trabalhava ficou sem condições de pagar todos os funcionários. Letícia não é a única a ficar sem trabalho e renda desde o início pandemia. Apenas em março e abril, mais de 1,1 milhão de empregos formais foram fechados no Brasil, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).


O Caged estava desativado desde dezembro de 2019, mas voltou a ser atualizado ontem pelo Ministério da Economia, revelando o impacto do coronavírus no mercado de trabalho brasileiro. Segundo o indicador, 240 mil postos de trabalho formais foram fechados no Brasil em março e mais 860 mil desligamentos foram registrados só em abril. Foi o pior resultado mensal de toda a série histórica do Caged. ;É um número duro, que reflete a realidade da pandemia que vivemos", comentou o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco.

Em abril, mês que recebeu em cheio todo o impacto da disseminação da covid-19 pelo país, o Caged registrou o desligamento de 1,459 milhão de empregados formais em abril ; um aumento de 17,2% em comparação com o mesmo período do ano passado. Já as contratações desabaram 56%, somando apenas 598,8 mil.

;Até março, as contratações eram superiores às do ano passado. A partir de abril, houve um mergulho muito profundo nas admissões. Mas não é nenhuma surpresa, porque com o comércio e a indústria fechados, é natural que não haja novas admissões", afirmou o secretário de Trabalho, Bruno Dalcolmo.

Só que o mergulho foi tão profundo que não só levou abril deste ano ao ponto mais baixo da série histórica do Caged, como consumiu todo o estoque positivo acumulado antes da pandemia. O cadastro registrou saldo positivo de 113,1 mil empregos em janeiro e de 224,8 mil em fevereiro. Ao fim de abril, o indicador contabiliza o fechamento líquido de 763,2 mil vagas com carteira assinada.

Letícia disse que até tentou encontrar outro emprego depois de ser demitida, em abril, mas, até agora, não encontrou nenhuma oportunidade. ;O que consegui foram três meses de seguro-desemprego, mas minhas finanças estão indo de mal a pior;, lamentou. A revisora de textos Beatriz Siqueira, de 25 anos, também teve que recorrer ao seguro-desemprego depois que entrou na fila de desempregados, no mês passado, quando a demanda da empresa em que trabalhava caiu abruptamente.

Bruno Bianco não avalia o resultado do Caged inteiramente de forma negativa. Ele alegou que a destruição de vagas poderia ser muito maior, caso o governo não tivesse oferecido aos trabalhadores e às empresas alternativas de flexibilização do contrato de trabalho durante a pandemia. ;Ao passo que as admissões tiveram uma queda forte, as demissões não tiveram uma explosão, como os especialistas previam e como aconteceu em outros países;, reforçou Bruno Dalcolmo.

Especialistas dizem, contudo, que o desemprego pode crescer mais nos próximos meses, mesmo com a MP 936 garantindo estabilidade de até três meses para os trabalhadores que aceitaram reduzir salários ou suspender os contratos de trabalho. Afinal, a retomada econômica pode não ser tão rápida quanto o governo espera. ;E é muito caro para um empreendedor contratar via CLT (Consolidação das Leis do Trabalho);, lembrou o economista Filipe Fernandes, indicando que o Brasil pode demorar a recuperar as vagas perdidas. Há quem diga até que o total de desempregados possa sair dos atuais 12 milhões para mais de 15 milhões no Brasil neste ano.

ilustração de dados

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