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Correio Braziliense

PIB reflete 15 dias de pandemia; 2º trimestre deve ter resultado pior

Segundo trimestre já teve dois meses inteiros de paralisação da economia e há incertezas sobre junho, o que deve refletir na piora da economia brasileira


postado em 29/05/2020 14:12 / atualizado em 29/05/2020 15:03

(foto: Evaristo Sá/AFP)
(foto: Evaristo Sá/AFP)
Com a pandemia decretada em 11 de março pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e um certo atraso na adoção das medidas de isolamento no Brasil, a queda no Produto Interno Bruto do (PIB) primeiro trimestre de 1,5% refletiu apenas 15 dias. O que significa que o pior está por vir, porque o segundo trimestre já teve dois meses inteiros — abril e maio —de paralisação da economia e há incertezas sobre junho.

Por conta disso, especialistas revisaram suas estimativas e projetam tombo de até 10%. Como ocorreu em países onde a crise chegou antes. Em Hong Kong, a queda foi de 8,9%, na China, de 6,8%, na França, de 5,4% e na Itália, de 4,8% (veja mais na tabela).

 

Segundo Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação Austin Rating, responsável pelo levantamento, é preciso levar em conta o pequeno período de contágio da pandemia para avaliar o recuo de 1,5% do PIB. “O país vinha de uma sequência de altas na margem (em relação ao período anterior) do PIB nos trimestres de 2019 (0,2%, 0,5%, 0,5% e 0,4%). E o 1,5% reflete apenas 15 dias de pandemia. A pancada virá no segundo trimestre”, projetou.

 

Antes da pandemia, a Austin esperava alta de 0,6% no primeiro trimestre, depois projetou queda de 0,9% e recuo de 9,7%, no segundo. Com o resultado divulgado nesta sexta-feira (29/5) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a agência revisou sua projeção. “Estimamos que o fundo do poço virá no segundo trimestre, com queda 10,1%, sobretudo porque tivemos dois meses, abril e maio, com atividades paralisadas. Depois começa a melhorar”, afirmou. A Austin calcula que o PIB vai fechar 2020 com 6% de queda. 

 

Agostini comentou que o que puxou forte para baixo foi a queda no consumo das famílias,de 2%,  pelo lado da demanda, que representam dois terços do PIB. Outro desempenho ruim tiveram os serviços, com peso igual no PIB pelo lado da produção, e que tiveram queda de 1,6%. “O que salvou o PIB foi a agropecuária, com alta 0,6%, mas pesa só 5% no PIB e não tem força para salvar o restante do ano”, avaliou.

 

Na indústria, a queda de 1,4%, explicou Agostini, é reflexo de setores que não embalaram na recuperação, como a indústria de transformação e construção civil. “A produção industrial em abril frente a março teve queda de 40%. A fabricação de veículos teve queda de 99%”, disse, prevendo tempos ainda mais sombrios pela frente. “Emprego é primeira variável na indústria, comércio e serviços. Se o empresário quer ajustar o caixa, primeiro ele demite. Depois negocia prazo com fornecedores”, comentou.

 

Por conta do desemprego, a Austin prevê crescimento de 3,3% em 2021. “Alguns acham que pode crescer mais rápido. Nós não, porque é o consumo das famílias, por meio de emprego a renda, que carrega o PIB. E o emprego é a primeira variável a ser afetada e a última a ser retomada em uma crise”, destacou.

Mundo

Alex Agostini, responsável pelo levantamento que compara os desempenhos de vários países, ressaltou que o Brasil tem necessidades de países emergentes, mas tem características de nações desenvolvidas. “Quando se vê o PIB, os emergentes estão sempre no topo, com os maiores crescimentos, menos o Brasil. Países desenvolvidos, que já tem infraestrutura e riqueza, crescem menos porque há menos por fazer. O Brasil cresce a taxas de desenvolvidos, mas têm carência de quase tudo, ou seja, a gente entende isso como problema da política econômica, da estrutura de poder e dos políticos”, observou.

 

Ele explicou que, quando um país desenvolvido cresce pouco, é porque sua sociedade está muito bem assistida. “O rico gasta 1% da sua renda para manter seu patrimônio, enquanto um pobre compromete 30% da renda”, exemplificou. “Quando um país com carências não cresce, preserva a condição da sociedade, que, no caso do Brasil, é a concentração de renda. Sem crescimento, quem tem mais continuará tendo mais e quem tem pouco terá menos ainda”, lamentou.

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