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Correio Braziliense

Endividamento de risco atinge 4,6 milhões de brasileiros

Número foi observado no fim de 2019 pelo Banco Central e corre risco de crescer neste ano, em virtude da crise do novo coronavírus


postado em 04/06/2020 18:43

(foto: Agência Brasil/Divulgação)
(foto: Agência Brasil/Divulgação)
Antes mesmo da pandemia do novo coronavírus atingir a renda dos brasileiros, 4,6 milhões de pessoas já estavam em uma situação de endividamento de risco no país. A conclusão é do Banco Central (BC), que ainda projeta uma alta da inadimplência neste ano em virtude da crise causada pela covid-19.

De acordo com o Relatório de Economia Bancária (REB) de 2019, que foi divulgado nesta quinta-feira (04/06) pelo Banco Central, 85 milhões de brasileiros tinham alguma operação de crédito em aberto com o sistema financeiro no fim do ano passado. Cerca de 5,4% desses tomadores de crédito, contudo, demandavam uma atenção especial dos bancos, porque eram classificados como endividados de risco.

O endividamento de risco, segundo o Banco Central, ocorre quando o tomador de crédito se encaixa em duas das quatro condições de risco que são avaliadas pela autoridade monetária. Ou seja, se encaixa em duas das seguintes condições: tem parcelas em atraso há mais de 90 dias; compromete mais de 50% da sua renda mensal com o pagamento de dívidas; está endividado no cheque especial, no cartão de crédito rotativo e no crédito pessoal não consignado ao mesmo tempo; e fica com uma renda mensal disponível abaixo da linha de pobreza, ou seja, com menos de R$ 439,03 para gastar por mês, após o pagamento dessas dívidas.

Segundo o diretor de política econômica do BC, Fabio Kanczuk, o endividado de risco é, portanto, um cliente que tem mais crédito e mais dívida do que deveria ter segundo a sua disponibilidade de renda mensal e, por isso, representa um risco excessivo para os bancos. "São 4,6 milhões de clientes. E vamos ver como isso evolui ao longo deste ano", afirmou Kanczuk.

Ele sugeriu que esse número já cresceu ao longo dos últimos anos, passando de 3,9 milhões no fim de 2017 para 4,1 milhões no fim de 2018 e 4,6 milhões no fim de 2019. Porém, tem chances de subir ainda mais neste ano, chegando perto do patamar visto na crise de 2016 (5 milhões). Afinal, com a crise do novo coronavírus, deve haver um aumento na busca por crédito e também na inadimplência ao longo de 2020.

O Banco Central estima que o estoque de crédito do mercado brasileiro vai crescer 7,6% neste ano, já que a pandemia afetou a renda de muitas empresas e famílias brasileiras, fazendo com que elas buscassem mais empréstimos no mercado financeiro. Porém, admite que essa alta será puxada por um "crédito ruim", que busca amenizar os impactos da crise, e não por um "crédito bom", capaz de acelerar o consumo das famílias e a atividade econômica nacional. Por isso, acredita que também haverá um aumento da inadimplência, que vai elevar o balanço de risco dos bancos e também deve puxar a taxa de juros para cima.

A projeção para a alta da inadimplência ainda não foi apresentada pela autoridade monetária. Mas o Relatório de Economia Bancária traça um perfil de quem era mais suscetível a se enquadrar no "endividamento de risco" antes mesmo da pandemia do novo coronavírus e, por isso, deve ficar ainda mais atento a suas operações bancárias a partir de agora.

"O cidadão com renda entre R$ 2 mil e R$ 10 mil e com idade acima de 55 anos mostra-se mais suscetível à vulnerabilidade financeira", alerta o relatório. O Banco Central explica que o endividamento é um fenômeno sobretudo da classe média e diz que o endividamento de risco é mais comum entre os mais velhos, já que essas pessoas têm menos perspectivas de ampliar a renda futura.

Por conta disso, o BC percebeu que 80% dos endividados de risco encontravam-se nas faixas intermediárias de renda, entre R$ 1 mil e R$ 10 mil, no fim de 2019. Ainda de acordo com a autoridade monetária, 7,8% da população endividada que tem mais de 65 anos também se encaixava nesse perfil - quase o dobro do observado entre os tomadores de crédito com menos de 34 anos: 3,8%. Ainda havia uma leve concentração do endividamento de risco entre as mulheres e na região Norte do país.

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