Economia

BC: choques econômicos justificam movimentos bruscos na taxa de juros

Mercado espera que o Copom volte corte novamente a taxa básica de juros na próxima semana

Marina Barbosa
postado em 09/06/2020 13:13
Fábio KanczukA uma semana da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Fabio Kanczuk, reforçou as expectativas por um novo corte significativo na taxa básica de juros da economia brasileira (Selic). Ele afirmou que grandes choques econômicos, como o da pandemia do novo coronavírus, justificam o risco dessas decisões. Mas avisou que, na retomada econômica, também pode haver "movimentos mais bruscos" de elevação de juros.

Em live realizada com o mercado financeiro nesta terça-feira (09/06), no último dia em que os diretores do BC podem fazer declarações públicas antes de entrar nas regras de silêncio do Copom, Fabio Kanczuk admitiu que o comum na gestão da política monetária é fazer movimentos graduais e cautelosos. Ou seja, agir em "baixa frequência". Mas ponderou que a pandemia do novo coronavírus causou "um choque imenso" na economia e exigiu que o BC se adaptasse a esse momento.

Kanczuk disse, então, que grandes choques econômicos como esse justificam a mudança do ritmo e da magnitude dos ajustes da política econômica, inclusive com algumas "chacoalhadas". "Quando o choque é grande, a política monetária fica mais volátil", afirmou, garantindo que apesar de haver certa preocupação com "o excesso de volatilidade", "tem um ganho de mexer na política monetária mais rápido".

O diretor do BC explicou que, "se não mexer rápido" na política monetária em momentos como o atual, o Banco Central corre o risco de não conseguir cumprir a meta de inflação. E lembrou que a autoridade monetária quer "cumprir o seu mandato". Ou seja, quer cumprir a meta de inflação. "Entendo os custos disso, mas não posso ficar muito longe da meta. Tenho que mirar na meta de 2021", afirmou.

Ele pontuou, por sua vez, que, da mesma forma como pode justificar um corte relevante na taxa de juros agora, esse movimentos atípico pode exigir um movimento brusco diferente na hora da retomada econômica. Kanczuk indicou, portanto, que uma elevação mais forte da Selic também pode ocorrer depois da crise do coronavírus. "Ano que vem vai ter o retorno [econômico]. Não posso errar a meta, pois tenho um mandato a cumprir. Quero fazer as coisas suaves, mas nem tanto. Surpresas inflacionárias nesse retorno vão demandar movimentos mais bruscos de juros", alertou.

Selic


Com esse entendimento de que choques econômicos justificam ajustes bruscos da política monetária, o Copom cortou a taxa básica de juros em 0,75 pontos na reunião de maio, levando a Selic para a mínima histórica de 3% ao ano. O corte foi considerado forte para os patamares históricos da política monetária brasileira, que costuma fazer mais ajustes de 0,25 ou 0,50 pontos na taxa básica de juros. Porém, não será o último corte da pandemia.

Ainda em maio, o Comitê deixou a porta aberta para um novo corte de até 0,75 pontos na próxima reunião, marcada para a próxima semana. O Copom explicu que a crise do coronavírus justificaria um corte de até 1,5 da Selic, mas entendeu que era melhor ser gradual: cortar 0,75 em maio e mais um pouco, no limite de 0,75 pontos, agora em junho.

Hoje, os analistas e os próprios membros do Comitê discutem, então, se esse novo corte de fato vai chegar a 0,75 pontos, por conta do tamanho da crise já instalada pela pandemia; ou se será um pouco menor, de 0,50 pontos, para que o Banco Central ainda tenha um espaço de ajuste mais na frente.

Kanczuk não quis dar nenhum sinal em relação isso. Só afirmou, portanto, que o Copom vai se debruçar sobre os mesmos choques avaliados em maio, mesmo que esses choques tenham ganhado uma magnitude maior desde então. Ou seja, na crise que reduziu a atividade econômica, a demanda e, consequentemente, a inflação brasileira e que, por isso, justifica um novo corte de juros. E, por outro lado, no aspecto fiscal, que elevou o endividamento do governo brasileiro e recomenda certa cautela ao Banco Central, já que puxa a taxa longa de juros por si só.

"O jogo de hoje é o de dois choques, ambos de magnitudes grandes, em direções e sentidos diferentes. De um lado, o aumento da ociosidade da economia, a queda da demanda pelo efeito precaucional e pela incerteza da renda, que puxa a inflação para baixo. E, do outro lado, o juro neutro subindo, o que puxaria a inflação para cima se não tivesse o efeito do hiato. Tem duas forças. Por isso, as projeções do BC estão tentando ver o efeito disso [na inflação]", explicou Kanczuk, lembrando que é preciso equilibrar isso e também o fato de que "para o futuro tem um grau de incerteza brutal", já que ninguém sabe ainda o tamanho dessa pandemia.

[SAIBAMAIS]Ele reafirmou, por sua vez, que o mais recomendável neste momento continua sendo gerenciar a política monetária por meio dos juros de curto prazo. Kanczuk explicou que, apesar de o BC ter apresentado uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pedindo autorização para atuar direto no mercado de títulos e, assim, influenciar a curva longa de juros, essa alternativa só deve sair da gaveta, caso seja aprovada pelo Congresso, em momentos de disfuncionalidade. Será, portanto, uma atuação mais parecida com a que o BC já faz no mercado de câmbio, em que opera não porque o dólar subiu demais, mas porque o câmbio fugiu do que vem acontecendo nos demais países.

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