Economia

Pandemia: Dólar continua a escalada e fecha a semana a R$ 5,46

Em meio ao avanço de casos de covid-19 pelo mundo e das incertezas sobre a retomada da economia brasileira, Bolsa cai mais de 2% e moeda norte-americana chega aos R$ 5,46. Para os analistas, instabilidade deve continuar por causa da desconfiança

A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) voltou a registrar perdas, ontem acompanhando as incertezas no mercado externo em relação ao processo de retomada econômica e ao aumento de casos de covid-19 nos Estados Unidos. E, como reflexo da desconfiança crescente em relação aos países emergentes, o dólar voltou a subir fortemente e terminou o dia sendo negociado perto de R$ 5,50.


Nem a intervenção do Banco Central, que realizou dois leilões de contratos de swap cambial, totalizando US$ 1,5 bilhão, foi capaz de segurar a alta do dólar. A divisa norte-americana encerrou o pregão com alta de 2,36%, cotada a R$ 5,464 para venda. O Índice Bovespa, principal indicador da B3, encerrou o pregão com queda de 2,24%, a 93.834 pontos. Apesar das altas recentes, o indicador acumula no ano um tombo de 18,8%.


Os cortes da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 2,25% ao ano, levaram um grande número de investidores a se arriscarem na Bolsa, mas os estrangeiros continuam batendo em retirada do país. Conforme dados da B3, até o último dia 24, o volume de saída de não-residentes totalizou R$ 85,4 bilhões. O volume é recorde no ano e é praticamente o dobro do volume de saídas de 2019, de R$ 44,6 bilhões.


“Ocorreu um otimismo exagerado sobre a força e a velocidade da retomada da economia no fim de maio e em junho. Investidores assumiram que era apenas reabrir o comércio que todos os problemas ficavam para trás, o que não está se mostrando tão real. Nos Estados Unidos o número de contágios está batendo recordes e o Brasil acaba afetado, pois a maior economia do mundo indo mal afeta o restante”, destacou Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos. Para ele, o câmbio e a Bolsa devem continuar com bastante volatilidade nos próximos meses. “Está muito incerto como será a retomada da economia brasileira, e isso pode fazer o dólar passar de R$ 5,50”, apostou.


Para Cruz, como o Brasil vem atravessando várias crises políticas, “a instabilidade é o normal”. “Alguns investidores estrangeiros foram questionados sobre investir no país, agora que foi aprovado o novo marco regulatório do saneamento, mas eles citaram essa incerteza constante como algo que segurava os investimentos”, complementou.

Sem risco
Segundo o economista Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora de Câmbio, a desvalorização do real é sinal da volta da aversão ao risco aos países emergentes nos mercados. “Após deixar a crise da pandemia do coronavírus em um plano secundário, o mundo, a partir dos Estados Unidos e, naturalmente, o Brasil, retomam a realidade da relevância da crise”, destacou.


Ele lembrou que o quadro ainda pode piorar, porque novas estimativas apontam que os EUA podem ter 50 mil mortes em junho e 100 mil, em julho. “A crise deve avançar firme pelo segundo semestre e, no Brasil, o governo terá dificuldade para manter os planos emergenciais”, disse.


Ainda ontem, o Fundo Monetário Internacional (FMI) fez um alerta sobre o avanço da pandemia na América Latina e no Caribe, que está se tornando o epicentro de contágio global, e, portanto, deverá pagar um pedágio caro por conta disso. De acordo com as novas estimativas do organismo, a retração do PIB da região será de 9,4% neste ano, a maior recessão da história. Na quarta-feira, o FMI previu que a economia brasileira vai encolher 9,1%, neste ano.

 

Desemprego em maio sobe 14,4%

O contingente de pessoas desocupadas somou 11,23 milhões de trabalhadores na semana de 31 de maio a 6 de junho, alta de 14,4% ante os 9,82 milhões de desocupados registrados na primeira semana de maio, entre os dias 3 e 9, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Covid (Pnad Covid), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outras 17,92 milhões de pessoas estavam fora da força de trabalho, gostariam de trabalhar, mas não procuraram emprego por causa da pandemia de covid-19 ou porque não havia vagas em sua localidade.


A taxa de desocupação ficou em 11,8% na primeira semana de junho, ante 10,5% na primeira semana de maio. A soma dos desocupados com o contingente de trabalhadores que estavam sem trabalho por causa da pandemia ficou em 29,14 milhões na semana de 31 de maio a 6 de junho, 0,7% acima dos 28,95 milhões da primeira semana de maio. Quando se leva em conta todos os motivos, e não apenas a pandemia, para não procurar emprego, entre as pessoas que gostaria de trabalhar, esse contingente ficou em 38,07 milhões na primeira semana de junho. São 1,2 milhões de pessoas a mais do que na primeira semana de maio.

Estabilidade
No total, a população ocupada foi estimada em 83,7 milhões de trabalhadores. O número ficou estável em relação à semana anterior (84,4 milhões) e em relação à semana de 3 a 9 de maio (83,9 milhões), indicando que não houve fechamento relevante de vagas no período.


Entre os ocupados, 8,9 milhões (ou 13,2% do total) trabalhavam remotamente, contingente que ficou estatisticamente estável em relação à semana anterior (8,8 milhões ou 13,2%) e, também, em relação à semana de 3 a 9 de maio (8,6 milhões ou 13,4%), informou o IBGE.


A taxa de informalidade chegou a 35,6%, crescendo em relação à semana anterior (34,5%) e permanecendo estatisticamente estável (35,7%) ante a semana de 3 a 9 de maio. Segundo o IBGE, 29,78 milhões de trabalhadores estavam em atividades consideradas informais na semana de 31 de maio a 6 de junho, 178 mil trabalhadores a menos do que o contingente registrado na primeira semana de maio.


Além disso, cerca de 13,5 milhões (16,1% da população ocupada) estavam afastados do trabalho devido ao distanciamento social. Esse contingente teve redução em relação à semana anterior (14,6 milhões ou 17,2% da população ocupada) e, também, frente à semana de 3 a 9 de maio (16,6 milhões ou 19,8% dos ocupados).


A nova pesquisa é uma versão da Pnad Contínua, planejada em parceria com o Ministério da Saúde. A coleta mobiliza cerca de dois mil agentes do IBGE, que levantam informações de 193,6 mil domicílios distribuídos em 3.364 municípios de todos os estados do país. A divulgação de ontem da Pnad Covid inclui os dados da primeira semana de junho, após os números referentes às quatro semanas de maio terem sido divulgados em conjunto. A partir de agora, as divulgações passarão a ser semanais.