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Correio Braziliense

Presidente da Embrapa prevê grande produção de trigo no Planalto Central

Celso Moretti diz que empresa tem desenvolvido variedades da cultura, típica de regiões temperadas, para o clima quente e seco do Planalto Central. E fala dos planos para o futuro da companhia, uma das responsáveis pelo desenvolvimento da agricultura brasileira


postado em 04/07/2020 07:00 / atualizado em 04/07/2020 02:53

"A economia de base biológica, ou bioeconomia, é uma das prioridades da Embrapa para o biênio 2020/2021" (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O Cerrado brasileiro pode dobrar a área de produção de trigo no país. É o que revelou Celso Moretti, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Em entrevista ao CB.Agro — uma produção do Correio Braziliense e da TV Brasília —, ele afirmou que a empresa tem desenvolvido variedades de trigo adaptadas ao clima seco e árido da região central do país. Isso permitiria um crescimento expressivo na área plantada. Ele também destacou a atuação da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, na busca por novos mercados para os produtos brasileiros.



Como tem sido a atuação da Embrapa durante a pandemia?
Desde que a pandemia foi decretada, em 11 de março, a Embrapa tomou a decisão de que seguiria com suas atividades. Obviamente, tomamos todo o cuidado de distanciamento social dos nossos colaboradores. Hoje, mais de 80% das nossas equipes estão em isolamento social, em teletrabalho. Por meio de revezamentos, continuamos nosso trabalho. Em abril, completamos 47 anos e lançamos uma série de tecnologias para apoiar esse setor que é um dos mais importantes da economia brasileira. 

Fala-se muito em agricultura com ciência. A Embrapa tem desenvolvido novas pesquisas?
A agricultura brasileira é movida à ciência. O desenvolvimento do setor ao longo das últimas cinco décadas foi fortemente calcado na ciência. E Embrapa, as universidades, as organizações estaduais, deram uma contribuição significativa para que o Brasil se transformasse de um país que importava alimentos, na década de 1970, em um dos maiores produtores de alimentos, energia e um dos maiores exportadores do mundo. A Embrapa continua dando suporte para que o setor continue em crescimento.

Como está a questão da bioeconomia da Amazônia?
Economia de base biológica, ou bioeconomia, é uma das prioridades da Embrapa para o biênio 2020/2021. Se remontarmos há algumas décadas, tivemos a economia que era baseada em extrativismo, depois economia fóssil e, agora, bioeconomia. O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo e isso tem muito a ver com a Amazônia. O que defendemos é que seja feita uma exploração sustentável desses recursos naturais de animais, plantas e micro-organismos. Inclusive, um exemplo é a redução de pesticidas na agricultura brasileira, identificando compostos que funcionem como biopesticidas. Podem-se descobrir resinas que venham a contribuir para a indústria farmacêutica.

Como estão as pesquisas da Embrapa para as outras regiões do país?
A Embrapa tem 43 centros de pesquisa distribuídos pelo território brasileiro. Nós atuamos em todos os biomas. Eu queria chamar a atenção para o trabalho que estamos fazendo no trigo tropical. É uma cultura típica de clima temperado. É uma das poucas commodities exportadas pelo Brasil. E a Embrapa tem desenvolvido, ao longo dos últimos anos, variedades de trigo adaptadas ao Cerrado. O teor de proteína é quase o dobro do que é produzido em outras regiões do Brasil. O país, hoje, produz em 200 mil hectares do Cerrado. Nós temos, aproximadamente, 2 milhões de hectares de trigo no país. Só no Cerrado, temos oportunidade de dobrar a área de trigo no Brasil. Ou seja, podemos ser autossuficientes nesse setor. 

Como está o orçamento da Embrapa com a crise causada pela pandemia?
Em algum momento, vamos precisar fazer ajuste no nosso orçamento. Até agora, não recebemos nenhuma sinalização de redução. Com o apoio da ministra Tereza Cristina e do Congresso Nacional, o orçamento de 2020 da Embrapa foi praticamente confirmado como o mesmo de 2019. Mas, entendemos que, tendo em vista os problemas enfrentados no Brasil, alguns ajustes serão necessários. Por enquanto, seguimos com o mesmo orçamento confirmado. Mas, estamos nos aproximando cada vez mais do setor privado. Reuni-me esta manhã com empresas que estão interessadas em investir em tecnologia, inclusive, no Cerrado.

Como está a relação com a China? A ministra Tereza Cristina conversou com o embaixador chinês para aparar as arestas. O sr. acha que ela teve sucesso?
Creio que sim, a ministra é muito habilidosa. Ela tem feito um trabalho espetacular. Durante um ano e meio de gestão, ela abriu cerca de 60 novos mercados para produtos brasileiros. A China é o principal parceiro comercial do Brasil, principalmente quando a gente pensa no agro. Aproximadamente 70% da soja é exportada para eles. Temos que seguir fortalecendo essa parceria. Eu tenho defendido que, com o olho na China, não podemos perder outros parceiros do Sudeste Asiático e, inclusive, o continente africano.

No Oriente Médio, tivemos a abertura de novos mercados. Como o país está expandindo sua presença internacional?
Foram abertos novos mercados no Egito para o leite, no Kuwait e outros países da região. Eu estive, no fim do ano passado e no início deste ano, em Doha, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos, sobretudo para atuar na África. Eu já disse em outras oportunidades que o Brasil não pode deixar de estar presente no continente africano. Porque ele está bem no meio do caminho entre nós e nosso principal cliente, que é a China. Mais do que um entreposto, a África tem 60% das terras agricultáveis do mundo. A savana africana tem várias similaridades com o Cerrado brasileiro. Nem tudo que é desenvolvido para cá pode ser levado para lá, mas a Embrapa, como domina essa área, pode ir ao continente africano e abrir oportunidades.

De que forma a pandemia afetou a exportação brasileira?
Os dados até abril não demonstravam um impacto significativo nas exportações brasileiras. Ainda não temos dados sobre o pior período da pandemia, que foi após abril. Mas, o que a gente percebe é que essa situação vai trazer a questão dos 3 “S”: o primeiro é sustentabilidade, que já estávamos acompanhando; o segundo é a sanidade do rebanho, a gente observa como alguns vírus são transmitidos de rebanhos para humanos; e o terceiro é a saúde humana. Eu entendo que a busca por esses 3 “S” estará no centro da agenda para os próximos anos.

* Estagiário sob a supervisão de Odail Figueiredo

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