Economia

Pandemia: comércio online e canais de vendas alternativos são tendência

Pandemia da covid-19 impõe mudança de comportamento a empresários e consumidores. Crescimento do comércio on-line e consolidação de canais de venda alternativos são algumas das tendências que vieram para ficar

Fernanda Strickland*, Israel Medeiros*, Vera Batista, Jailson R. Sena*
postado em 05/07/2020 07:00
 (foto: Cardia/Abras )
(foto: Cardia/Abras )
Para João Sanzovo Neto, presidente da Abras, Empresários e consumidores ainda estão em processo de aprendizagem das mudanças de hábito que a covid-19 trouxe para as relações de consumo. Mas já há sinais claros de como o comércio varejista deve se comportar nesse momento após a reabertura da economia, e no pós-pandemia. ;Quem não estiver disposto a trabalhar a flexibilidade dos seus negócios para gerar novas experiências de consumo perderá oportunidades. A aceleração da digitalização será uma das maiores heranças do novo coronavírus para o setor;, afirma João Sanzovo Neto, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

A integração do varejo físico com o digital, que já era uma tendência, tornou-se uma necessidade ainda mais evidente, disse ele. Enquanto não surgir a vacina contra a doença, o consumidor continuará buscando segurança, dentro das lojas, e atendimento mais rápido. ;O estudo Consumer Insights, da empresa de pesquisas Kantar, mostra que, no caso dos supermercados, entre as mudanças mais significativas provocadas pela pandemia está a inclusão de novos canais na rotina de compras da população, que agora se abastece em mercadinhos de bairro, pequenos e tradicionais varejos, para evitar aglomeração.;

O mercado digital, em todos os formatos (aplicativos, WhatsApp ou site de supermercados), tem revolucionado a relação com as marcas e osprodutos, ressalta Sanzovo. ;O que o cliente quer é conveniência;, reforça. Ele afirma, no entanto, que ainda há muitas incertezas em relação às mudanças que devem ocorrer na organização dos negócios e na relação com o consumidor. ;Por ser um país de grande extensão territorial, em muitas localidades, a pandemia está chegando somente agora. Precisaríamos ter a certeza do fim (do contágio) para projetarmos melhor o nosso futuro e, infelizmente, agora isso não é possível;, assinala.

O segmento de supermercados foi um dos poucos que registrou aumento de faturamento durante a pandemia, mas o presidente da Abras não descarta quedas das vendas até o final do ano. Assim como aconteceu entre 2015 e 2017, com períodos difíceis de retomada econômica, o setor vai ter que lidar com uma população com nível de renda mais apertado, pelo menos nos próximos dois anos, destaca.

Mas o maior problema, segundo o empresário, são os riscos a longo prazo ; de inflação, de falta de crédito, de investimentos, entre outros. A economia estava frágil antes da pandemia. Após a recessão trazida por ela, a retomada deverá ser lenta, dependente do auxílio do governo federal às empresas que ficaram fechadas, com desburocratização do ambiente de negócios, redução da tributação e das taxas de juros para incentivar novos investimentos e contratações. ;E, mais do que nunca, as reformas estruturais, como a tributária e a administrativa, serão fundamentais para ajudar o Brasil a sair da crise.;


Riscos


O economista Fábio Bentes, chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC), diz que mudanças qualitativas e quantitativas estão em curso porque a sociedade se deu conta de que, com a globalização, ninguém está livre de uma nova pandemia. Portanto, a reação a essas incertezas se consolidou. ;Se o resultado será bom ou ruim, veremos depois. Mas, somente em junho, as vendas nas lojas físicas despencaram 20%, enquanto as feitas por meio eletrônico subiram 40%;, alerta. A velocidade da reação e das alterações nas relações de consumo, segundo ele, dependerá do estrago provocado pela crise e do ritmo de retomada do setor produtivo.

Já está quase certo, afirma Bentes, de que o primeiro passo dos novos empresários é dar atenção ao comércio on-line, para se adequar aos hábitos da sociedade. ;Estamos na curva de aprendizagem do novo normal. Na prática, vamos chegar mais rápido ao 5G, com transações mais rápidas, eficientes, estáveis e seguras, além da evolução da internet das coisas;, prevê. São práticas que se tornaram comuns no mundo civilizado. Mas o Brasil, com quase 40 milhões de ;invisíveis;, sem acesso a quase nada, corre o risco de se consolidar como uma Belíndia (como o economista Edmar Bacha classificou, irônicamente, o país, que pelas diferenças sociais é uma junção de Bélgica com Índia). ;O governo terá que tomar medidas para democratizar a tecnologia. Ou continuaremos com parte da população na situação da Bélgica e a maioria, nas condições da Índia;, reforça Bentes.

Deborah Maeda, diretora de Varejo da Kantar e especialista em comportamento do consumidor, lembra, com base na última pesquisa da empresa que, para o futuro, com a taxa de desemprego subindo e a renda encolhendo, o consumidor tende a buscar marcas mais baratas ou próprias, canais que ofereçam descontos, preços mais em conta e promoções relevantes, o que deve pressionar as margens do varejo.

;A demanda vai diminuir, mas vai aumentar a competitividade. E a busca, dentro do distanciamento social, ainda tende a continuar favorecendo um consumo maior dentro de casa;, afirma Deborah. ;Com esse comportamento dos clientes, os canais que ganharam relevância durante a crise, como o e-commerce e delivery, tendem a ficar e a incrementar o consumo, no confronto com o que se consumia antes;, observa.


A prática


O vice-presidente de Relações Institucionais do Carrefour Brasil, Stéphane Engelhard, diz que, assim como lojas de roupas, nas quais os clientes têm bastante contato com os produtos, os supermercados e hipermercados precisaram encontrar formas de manter segura a passagem do consumidor pelos estabelecimentos. Para Engelhard, o legado da pandemia para o setor é a conscientização com os cuidados sanitários. Segundo ele, até que haja uma vacina ou um medicamento eficaz contra a covid-19, o Carrefour deve continuar com todos os protocolos que adotou ; como permitir que freezers sejam abertos sem o uso das mãos, câmeras em infravermelho que detectam temperatura a distância, e máquinas que higienizam as compras do consumidor.

Dono do BlackRock Burguer & Beer, em Guarulhos (SP), o empresário Wesley Oliveira, 35 anos, conta que todos os estabelecimentos que estão em funcionando têm sistema de delivery. ;É uma solução para quem consegue operar nesse formato. Mas alguns bares estão totalmente fechados, pois não conseguem trabalhar com esse sistema;, afirma. Wesley diz que, com a chegada da crise, viu-se obrigado a demitir e encontrar alternativas para manter o negócio.

;Tivemos que desligar nossos funcionários e nos reinventar para o novo normal, trabalhando com delivery e investindo muito em redes sociais. Estamos levando dessa forma, tentando pagar as contas com 25% do que faturávamos antes;, desabafa. Hoje, caso reabra, a expectativa é de funcionar, no máximo, com 40% a menos. ;Todos estão com muito medo. Não sabem se vão aguentar, por causa dos aluguéis, empregados e demais encargos;, explica o empresário.

Consumidores também estão mudando hábitos. Moradora da Asa Norte, a advogada Edilene Barros, 59, tinha receio de fazer compras on-line, mas passou a comprar frequentemente pela internet. Ela mudou de ideia após a insistência das filhas. O momento de sair das ruas também foi fundamental na decisão. ;Antes, eu tinha receio de pagar e de não receber o produto ou não ser do jeito que eu imaginava. Só comprava em lojas físicas. Agora, comecei a fazer compras on-line, e gostei. Apesar de sentir falta das lojas físicas, vou continuar comprando on-line, até porque é a melhor opção que tenho;, conta.

*Estagiários sob supervisão de Odail Figueiredo

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