Economia

Com atendimento personalizado, pequenas livrarias mantêm vendas

Alternativas foram indicações por whatsapp e entregas em domicílio

Agência Brasil
postado em 06/07/2020 09:40
 (foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
(foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Livros em prateleiraIndicações de livros por whatsapp, entregas em carro próprio e conteúdo nas redes sociais foram algumas das estratégias usadas pelas pequenas livrarias e editoras paulistanas para enfrentar o período de confinamento imposto pela pandemia do novo coronavírus. ;A gente tentou substituir o presencial pelo online. Tiramos fotos do interior do livro, mandamos por Whatsapp e e sugerimos livros;, conta a livreira Roberta Paixão, proprietária da Mandarina, livraria da zona oeste da capital paulista.

De início, afirma ela, havia grande interesse por livros que falam de situações semelhantes à pandemia, como A Peste, do argelino Albert Camus, e Ensaio Sobre a Cegueira, do português José Saramago. ;De maio para cá, as pessoas estão pedindo livros de maior fôlego de leitura. Livros grossos;, comenta Roberta a respeito da mudança do perfil de leitura, que, agora, inclui títulos como Crime e Castigo, do russo Fiódor Dostoiévsk, e a Montanha Magica, do suíço Thomas Mann. ;O Oráculo da Noite, de Sidarta Ribeiro, é um sucesso de vendas;, acrescenta, destacando que o autoconhecimento é um dos temas que ganharam força nas últimas semanas. O título do neurocientista traz reflexões a respeito dos sonhos.

Manutenção das vendas

Apesar de ter sido pega de surpresa pelo fechamento da loja durante a quarentena, iniciada em março na cidade de São Paulo, Roberta conta que conseguiu manter as vendas. ;A gente inventou isso de um dia para o outro;, comenta sobre a necessidade de adaptação de um negócio que funcionava apenas de forma presencial. ;No início, peguei o meu carro e a gente rodou São Paulo;. Atualmente, a livraria tem um funcionário dedicado às entregas. ;Em maio, um rapaz que trabalhava aqui na rua como valet se ofereceu e a gente acolheu isso também, gerando receita para ele;, disse, ao destacar a importância de valorizar também o bairro e o entorno do negócio.

O esforço, entretanto, valeu a pena. ;A gente conseguiu manter a receita flat - faturamento médio mensal - normal, o que ajudou a pagar as contas;, relata. Uma fórmlua parecida também ajudou a Livraria da Tarde, na mesma região, a conseguir manter um fluxo mínimo de caixa para sobreviver. ;Nos primeiros dez dias estava todo mundo assustado. Em abril, já comecei a ter bastante venda;, diz a livreira Mônica Carvalho. Agora, ela começa, aos poucos, a voltar a atender os clientes presencialmente. ;É muito gostoso receber as pessoas de novo na loja. É uma loja que foi feita com muito cuidado e carinho. Ficar fechado estava me deprimindo;.

O balanço das vendas de livros, feita pela consultoria Nielsen em parceria com Sindicato Nacional dos Editores de Livros, mostra que o mercado teve, de janeiro a 14 de junho, uma queda de 12,3% em volume de vendas em comparação com o mesmo período de 2019. Foram 15,9 milhões de exemplares vendidos, gerando receita de R$ 729 milhões. Em valor, o mercado de livros registrou retração de 11,7%.

A reabertura do comércio, que começa a ocorrer na capital paulista, vai mudar pouco a rotina da Livraria Africanidades, na zona norte da cidade. ;A livraria só abre quando São Paulo estiver verde [na última fase do plano de flexibilização da quarentena]. Quando equipamentos culturais também reabrirem, quando houver um ambiente mais confortável, mais sólido para minha saúde e das pessoas também;, diz a livreira Ketty Valencio, que fica próxima à Brasilândia, uma das regiões com mais mortes por covid-19.

Produção de conteúdo

Especializada na temática etnorracial e feminismo, a livraria tem investido na produção de conteúdo online. Segundo Ketty, entre os projetos está o mapeamento de autoras negras, que vai se tornar um festival de literatura com transmissão pela rede. ;A gente não parou;, afirma sobre as ações culturais que impulsionam o movimento da livraria. ;As vendas não caíram. No mês passado foram até um pouco mais altas do que nos outros;, acrescenta ao falar das vendas que continuaram a todo vapor, mesmo com a loja física fechada.

A produção de conteúdo também foi a forma que a Editora Elefante usou para manter o contato com os leitores durante a quarentena.;É uma maneira de oferecer conteúdo, porque no fim das contas a nossa função social como editora é disponibilizar conteúdo para os leitores. Normalmente, a gente faz isso por meio dos livros, mas em um momento de pandemia, em que as pessoas estão muito em casa e eu mesmo, há uma ânsia de ler pontos de vista sobre o que está acontecendo;, diz um dos fundadores da editora, Tadeu Breda

No início da pandemia, a pequena editora tomou um susto com as medidas de contenção adotadas pelas livrarias. ;Essa preocupação foi aumentado à medida em que as livrarias foram anunciando que não fariam os acertos dos livros vendidos, que iam atrasar o repasse do dinheiro;, diz. Por isso, Tadeu explica que apostou nas vendas diretas pela página da editora, oferecendo bons descontos na compra de conjuntos temáticos de livros. ;Livros mais baratos para gente que vai ter mais tempo para ler;, destaca.

Adaptações

A Elefante optou ainda por adaptar a agenda de lançamentos aos acontecimentos. ;Começamos a priorizar livros que têm mais a ver com o momento. Essas medidas acabaram funcionando para a gente e aumentaram muito as nossas vendas no site. Não chegou ao ponto de igualar a receita anterior com as livrarias, mas foi suficiente para a gente atravessar esses três meses sem ter que demitir ninguém;, conta.

Assim, um dos títulos em pré-venda acabou se tornando um dos mais vendidos ; Pandemia e Agronegócio, do norte-americano Rob Wallace. ;Ele relaciona muito o nosso modo de vida capitalista, e sobretudo de produção de proteína animal, com o surgimento de doenças infeciosas;, detalha o editor. Ensinando o Pensamento Crítico, da norte-americana Bell Hooks, também ajudou a puxar as vendas. ;A gente lançou pouco depois dessa proliferação de manifestações contra o racismo nos Estados Unidos e no mundo;.

Agora, com o as livrarias voltando a abrir, Tadeu diz que pretende seguir com os lançamentos, apesar do cenário com muitas incertezas. ;Não temos a perspectiva de parar não;, enfatiza.

Dificuldades

Especializada em livros políticos e de lutas sociais, a Editora Glac sofreu um pouco mais durante a quarentena. Foi um processo de reestruturação interna, porque é uma editora muito pequena. A gente perdeu um funcionário, não por falta de dinheiro para pagar, mas pela pandemia. Era a representante comercial, fazia as vendas e apresentava os livros;, conta um dos fundadores, Leonardo Beserra.

Sem as livrarias, a editora teve que reduzir as tiragens e apostar em diversos canais de vendas online. Também fez promoções solidárias, com descontos a movimentos e grupos ligados às ideias dos autores das publicações. ;O que foi bom para a gente, mas não é o suficiente. A gente precisa faturar pelo menos o dobro ou o triplo para conseguir gerar renda para continuar investindo e pagar as próprias contas, que estão cada vez mais atrasadas;, diz Leonardo.

Além de vender por grandes varejistas digitais, a Glac agora vai produzir livros impressos sob demanda e publicações para livros eletrônicos. ;A gente demorou o mês de abril inteiro para entender as coisas a que a gente precisava se adaptar;, afirma sobre os esforços que tem sido necessários para manter a empresa de pé.

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