Economia

Produção de autoveículos cai pela metade no primeiro semestre

Anfavea projeta queda de 45% na fabricação e de 40% no emplacamento em 2020. A retomada do setor deve ser lenta até 2025, diz Luiz Carlos Moraes, presidente da associação

SIMONE KAFRUNI
postado em 06/07/2020 12:16
 (foto: Breno Fortes/CB)
(foto: Breno Fortes/CB)

Montadora de carrosDiante das expectativas econômicas do país para o segundo semestre, o setor automobilístico estima produção de 1,630 milhão de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus em 2020, um volume 45% inferior ao de 2019. Ante os 2,78 milhões de emplacamentos ocorridos no ano passado, a indústria estima queda de 40% em 2020, com previsão de 1,67 milhão de licenciamentos. Com fortíssimo impacto da pandemia de Covid-19 nos últimos três meses, a produção acumulada de 729,5 mil veículos no primeiro semestre do ano representou uma queda de 50,5% na comparação com igual período de 2019. De maio para junho, o setor demitiu 1 mil funcionários e o emprego está em risco, segundo o presidente Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes.

A previsão de retomada também não é das mais otimistas, disse Moraes, ao apresentar, nesta segunda-feira (6/7), o balanço do primeiro semestre do setor. ;A estimativa é uma recuperação no formato Nike (referindo-se à logomarca da empresa, cuja curva de ascendência é leve e longa até chegar no pico) e não em V. Ou seja, vai ser lenta até 2025;, explicou. Segundo ele, contudo, só faltam duas fábricas voltarem às operações no país. ;A maioria está operando em um turno, rodando em ritmo menor por conta da segurança da saúde. Mas também olhando a demanda;, disse.

Moraes ressaltou que a média diária de emplacamento estava em torno de 11,2 mil em fevereiro, com alta de 12% sobre 2019. Com a pandemia, os efeitos começaram a ser sentidos já em março de 2020, quando os licenciamentos diários caíram 32%, para 7,4 mil ante 11 mil em 2019. Daí para frente, os números desabaram para 2,8 mil em abril (-74% ante a média do mesmo mês de 2019), 3,1 mil (-72%) em maio e fechou 6,3 mil (-46%) em junho. ;O dado do mês passado, no entanto, tem um efeito represado. Sem isso, seria de 4,9 mil;, estimou.

A expectativa de uma retomada nas vendas em julho, já que todas as empresas voltarão a produzir, não é muito boa porque a queda na taxa de juros Selic, hoje em 2,25% ao ano, não chegou na ponta, segundo o presidente da Anfavea. ;A taxa do CDC (crédito direto ao consumidor) está ao redor de 19,5%, bem alta. A queda da Selic não está sendo captada pelo CDC;, disse.

Emprego

A Anfavea também mostrou que o emprego no setor está caindo. Em junho de 2019, a indústria automobilística empregava 129,2 mil pessoas diretamente. E maio de 2020, o número caiu para 125,1 mil e, em junho para 124 mil. Foram mais de mil funcionários demitidos de um mês para outro. ;A MP 936 (que permite redução de salário e jornada) foi uma medida boa. As montadoras têm acordos até outubro. Mas, depois disso, o emprego está em risco;, afirmou o presidente da associação.

A perspectiva de produção é lastreada num mercado interno projetado de 1.675 milhão de unidades vendidas no ano (queda de 40%) e uma exportação de 200 mil unidades (queda de 53%), além de levar em conta a variação de estoques e as importações de veículos. Com o licenciamento de 132,8 mil unidades em junho, o acumulado do semestre foi de 808,8 mil autoveículos, recuo de 38,2% sobre o mesmo período de 2019. As exportações em junho fecharam em 19,4 mil unidades, totalizando 119,5 mil no semestre, uma queda de 46,2%.

Caminhões e máquinas

O setor de caminhões também foi fortemente afetado pela pandemia, embora as quedas não tenham sido tão drásticas quanto as dos veículos leves. A produção no semestre (34,8 mil) foi 37,2% menor em relação ao mesmo período do ano passado. Os licenciamentos (37,9 mil) recuaram 19,1%, enquanto as exportações (4,8 mil) encolheram 19,2%.

Parte do alívio nas vendas de caminhões deve ser creditada aos bons resultados da safra agrícola, que também ajudou o setor de máquinas a não sofrer tanto com os efeitos da pandemia. A produção acumulada no semestre (19,1 mil) foi 22,6% inferior à dos seis primeiros meses de 2019. Já as vendas de 19,6 mil máquinas caíram apenas 1,3% no primeiro semestre, enquanto as exportações (4,2 mil) tiveram retração de 31%.

;A situação geral da indústria automotiva nacional é de uma crise maior que as enfrentadas nos anos 1980, 1990 e a mais recente de 2015/2016. Veio num momento em que as empresas projetavam crescimento anual de quase 10%. Um recuo dessa magnitude no ano terá impactos duradouros, infelizmente. Nossa expectativa é que apenas em 2025 o setor retorne aos níveis de 2019, ou seja, com atraso de seis anos;, avaliou Luiz Carlos Moraes.

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