Economia

Mourão tenta reverter estrago na economia causado pela política ambiental

Vice presidente da República tenta articular reação às críticas de investidores e empresários ao aumento do desmatamento da Amazônia. Preocupação é com queda de investimentos no país e boicote a produtos brasileiros no exterior

Rosana Hessel
postado em 08/07/2020 06:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Em reunião com os ministros, vice-presidente Hamilton Mourão buscou unificar o discurso sobre a postura do governo na questão ambientalEnquanto o presidente Jair Bolsonaro, que testou positivo para covid-19, cancelou os compromissos da agenda, o vice-presidente Hamilton Mourão partiu para uma articulação com ministros a fim de reduzir os danos à imagem do país perante investidores estrangeiros, por causa das falhas da política ambiental.


Reunião ministerial na tarde de ontem teve como objetivo ;unificar e padronizar o discurso do governo em vista dos interesses e dúvidas de investidores estrangeiros;, segundo fontes palacianas. Mourão, que preside o Conselho Nacional da Amazônia Legal, tem encontro amanhã com investidores e, provavelmente, na sexta-feira, com empresários que enviaram a ele uma carta exigindo uma agenda de desenvolvimento sustável e o combate ao desmatamento na região.


Hoje, o vice-presidente se reúne com o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), em Belém. Ele participará de encontros com entidades empresariais e fará uma visita à Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).


Na carta encaminhada a Mourão, empresários e executivos de 40 empresas nacionais e estrangeiras instaladas no país manifestam preocupação com a falta de uma agenda focada em investimentos sustentáveis. O documento é assinado por dirigentes de companhias com grande peso no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, como Ambev, Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, Klabin, Suzano, Cargill, Marfrig, Natura, Cosan, Bayer, Microsoft, Michelin, Shell e Vale.


Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), entidade que reúne 60 grandes conglomerados empresariais nacionais ou com interesses no Brasil, foi uma das idealizadoras da carta. Segundo ela, as empresas estão cansadas de ter que se explicar para clientes e investidores que não compactuam com crescente desmatamento ilegal no país.


;Grande parte das emissões (do efeito estufa) é resultado do desmatamento ilegal. O modelo de negócios moderno precisa se aliar à conservação ambiental e não harmoniza com modelos predadores, como grilagem e mineração irresponsável que avançam na Amazônia;, explicou.


Além do CEBDS, outras três instituições assinam o documento: Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove) e Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). O manifesto foi encaminhado também aos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia; do Senado, Davi Alcolumbre; do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, e para o Procurador-Geral da República (PGR), Augusto Aras.


O manifesto deixa nítida a preocupação com a saída de investimentos do país. No mês passado, um grupo de investidores institucionais da Europa que administram US$ 4 trilhões (R$ 21,5 trilhões) em ativos também enviou carta ao governo brasileiro criticando o desmatamento e a violação dos direitos de grupos indígenas na Amazônia.

Saídas de recursos já vem ocorrendo. De acordo com dados da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), a retirada de investidores estrangeiros, no acumulado do ano, vem oscilando em torno de R$ 80 bilhões.


Também preocupa a possibilidade de que seja barrado o acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia, ainda pendente de aprovação pelos parlamentos. Uma das cláusulas do acordo prevê metas de redução de emissões de gases poluentes. Segundo Marina, com o desmatamento avançando no ritmo atual, isso será impossível.

Há receio, ainda de que produtos brasileiros possam entrar na lista de boicotes internacionais, nos moldes da moratória da soja, de 2006. Liderada por entidades ambientalistas, como o Greenpeace, a iniciativa impôs um prazo de dois anos para produtores e governo brasileiros adotarem medidas contra o desmatamento da Amazônia.

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